A nível de mudança

Senhoras e senhores, respeitável público, vai começar a galhardia. Este blog mudou de endereço. Como todas as pessoas normais nestes tempos intranquilos, “The Pompeia Times” sai de um sobrado com amplo quintal, de muro baixo, rumo a um apartamento em um condomínio elegante, onde poderá desfrutar de um amplo salão de festas, piscina, churrasqueira, espaço gourmet, lan house, sauna, campo de futebol.

Tudo de bom nível, muito seguro, com câmeras 24 horas por dia, guaritas altas e uma vizinhança incrível (todos tomam banho pelo menos uma vez por semana com água mineral, vejam que beleza!). Vocês todos estão convidados a visitar “The Pompeia Times” no novo endereço. Só vou pedir, por favor, que tirem o chinelo antes de entrar e joguem o chiclete no lixo, para não grudar no tapete novo. Ascensão social é isso ai.

O endereço do condomínio é esse: http://anivelde.org

Dentro do condomínio, siga em frente depois da portaria, conte 7 quarteirões, suba o morro, desça o morro. Quando a trilha sonora apontar para uma mistura de “Só pra contrariar” com Piazzolla, basta apertar a campainha. Você estará no http://anivelde.org/thepompeiatimes/

Na primeira visita, venha de verde, por favor.

Ainda estou aqui

Caros amigos e amigas, prezadas pessoas que eu não conheço nem nunca vi mas passam por aqui, adoráveis passantes desavisados que caem neste blog graças às combinações improváveis de palavras-chave do Google: este blog continua vivo, mas está mudando de casa dentro de poucos dias. Fará parte de um condomínio, em companhia de outros blogs.

Tenho uma série de posts engatilhados em algum lugar do meu quarto, entre o teclado e a pedra de areia do Atacama, que vou repartir com vocês ainda nesta semana. Faltam apenas alguns detalhes para que vossa excelência tenha, a nível de blogagem, o melhor que eu e meus amigos conseguimos reunir em um único lugar.

E o melhor: com vista para o mar.

Aguardem. Se demorar um pouco, prometo postar aqui as obras completas do grande escritor Carlos Miguel Bianchinni.

Imagens das quais eu gosto

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O racismo de Lula – 2

Alberto Dines escreve um texto sobre a frase do presidente, que reproduzi no post abaixo. Recomendo a leitura.

” Ao denunciar a “gente branca, de olhos azuis” como responsável pela catástrofe financeira global, o presidente Lula perpetrou um conjunto de asneiras padrão-Bush. Descomunal.

A descortesia com o visitante, o premiê britânico Gordon Brown – escocês de nascimento, pele clara, olhos claros – é uma delas. O reacionarismo é outra. George Brown, à esquerda do novo PT, tem sido um ostensivo herdeiro da tradição social-democrata britânica, cobrador rigoroso das falhas do sistema financeiro britânico, defensor de soluções intervencionistas em favor da poupança popular. Como anfitrião e candidato a líder mundial, Lula deveria conhecer alguns dados que, aliás, qualquer leitor regular de jornais está farto de saber.

O dislate mais grave está no teor preconceituoso e racista da tirada presidencial. Estimular o ressentimento entre raças também é racismo, mesmo quando a favor das minorias. Além de redondamente enganado (há pelo menos dois negros na lista dos “grandes culpados” da crise americana), Lula mostra que embarcou na demagogia eleitoreira de algumas lideranças latino-americanas.”

A íntegra está aqui.

O racismo de Lula

Frase do presidente: “É uma crise causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes da crise pareciam saber tudo e agora não sabem nada”.

Frase do presidente 2: “Como eu não conheço nenhum banqueiro negro ou índio, eu só posso dizer que [não é possível] que essa parte da humanidade que é a mais vitima do mundo pague por uma crise. O que nós percebemos é que, mais uma vez, grande parte dos pobres do mundo são as primeiras vitimas”.

Mais, aqui. Ou, se quiser, assista ao vídeo aqui.

Alguns meses atrás, o presidente disse isso: “Por que o brasileiro tem mais criatividade? Esta mistura do europeu, índio, negro, sabe, permitiu que nascesse um povo mais criativo, mais esperto do que a média, daqueles que são tudo assim, tudo a mesma coisa…” Vinicius Torres Freire, da Folha, escreveu um post com o mesmo título que uso neste texto. Apanhou, e reportou aqui.

Troque “gente branca e de olhos azuis” por “judeus”, “negros”, “índios”, “nordestinos”. Troque “brasileiro tem mais criatividade” por “alemão tem mais criatividade”, “norte-americano tem mais criatividade”, “branco tem mais criatividade”, “japonês tem mais criatividade”. Sempre vai haver alguém para dizer que Lula usou uma metáfora, que fez uma brincadeira, um gracejo, que na verdade queria dizer isso, que na verdade queria dizer aquilo, que como um nordestino, ex-metalúrgico, poderia ser racista?

E se fossem essas pessoas? (O link do texto está aqui)

“Não somos pessoas preconceituosas, em absoluto. Além de lavadeira e um excelente motorista negro, as duas cozinheiras que tive na vida são pretas telefônicas.”
Carmen Mayrink Veiga, socialite, ao saber que o marido, Tony, tem entre seus ancestrais uma negra angolana

“Assim como os franceses, que inventaram os perfumes porque não gostam de tomar banho, nós vamos colocar perfume de morango em certas áreas da cidade que não cheiram bem.”
Luiz Paulo Conde, prefeito carioca, em mais um momento de Cesar Maia

E mais da Carmen, aqui

Veja — É surpreendente ouvir que vai trabalhar uma mulher que disse que jamais trabalharia na vida.
Carmen — Eu nunca disse isso. O que declarei certa vez é que na minha vida, cheia de compromissos e viagens, não tinha lugar para o trabalho. Penei com termos pejorativos horrorosos, como grã-fina, dondoca e agora essa tragédia de ser chamada de socialite. Nem sei o que é isso. Sempre trabalhei como uma negra, grátis, sem ter férias nem salário. Você acha que ser dona de casa é pouco?

Ou mesmo o Berlusconi, que disse que Obama é jovem, bonito e bronzeado e afirmou ser diferente do Obama porque é mais pálido?

Ou o Fernando Henrique, que disse ter um pé na cozinha?

Lula não tem salvo conduto para dizer as maiores barbaridades como se fossem banalidades porque é nordestino e ex-metalúrgico. Suas declarações têm de ser repudiadas como o que de fato são: racistas.

Sobrou dúvida?

Vá ao dicionário Houaiss:

racismo
Datação
sXX cf. AGC

Acepções
■ substantivo masculino
1 conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias
2 doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras
3 preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente, ger. considerada inferior
4 Derivação: por analogia.
atitude de hostilidade em relação a determinada categoria de pessoas
Ex.: r. xenófobo

Etimologia
1raça + -ismo; ver rat-

Adendos:
Mauricio Savarese escreve nos comentários: “Caríssimo, discordo. Uma definição de dicionário não resolve se uma pessoa é racista ou não. A realidade é tão complexa que o mesmo Lula é tido como um dos melhores amigos da comunidades judaica e árabe do Brasil. Entre os seus assessores, há poucos negros e índios, como ele mesmo diz. Me parece um pouco exagerada a sua avaliação. Mas democracia é isso aí: amizade não decreta concordância absoluta. Abração!”

Bárbara Castro escreve nos comentários: “Também não acho que seja racismo. Não entendo que ele tenha feito uma escala de qualidades entre negros, índios e brancos. O erro foi chapar a realidade: nem todo pobre é negro, nem todo branco é rico. Mas, de onde eu venho, são poucos os banqueiros, estadistas e donos da grana que são negros. Acho que o descuido foi o de não matizar o discurso, mas acredito que a origem do discurso é a preocupação de traduzir a desigualdade de oportunidades baseada em um (pre)conceito racial. Foi infeliz, porque dá margem para se pensar o preconceito inverso. Mas a frase não é racista em si. É classista.”

Comento: Maurício e Bárbara fazem algumas ponderações interessantes, acrescentando nuances à discussão, mas eu mantenho a minha avaliação. As declarações de Lula são racistas. O presidente poderia ter dito que a crise é culpa de especuladores. Ou de governantes lenientes. Ou de um sistema que perdeu valores éticos e morais. Ou de uma sociedade doente. Há explicações de todos os tipos, para todas as escolas de pensamento, se a idéia é colocar culpa (o que, aliás, acho bem pobre, como se a crise fosse uma questão de culpa). Ele escolheu personalizar a crise nas pessoas brancas e de olhos azuis. Não é a primeira vez que Lula faz isso. Com frequência, ele atribui qualidades positivas ou negativas a povos e etnias e, agora, a indivíduos. Lula pode ser ter vários amigos das mais diversas cores e origens. Mas suas declarações, dia a dia, mostram que ele ainda usa a categoria raça, sepultada pelos horrores do século 20, para pensar e se expressar.

Os detetives selvagens, Roberto Bolaño e o Radiohead. E um pouco de Palmeiras

Eu aprendi a não arremessar objetos contra a televisão. Foi tudo muito simples e claro. Suprimi a agressividade a ponto de evitar até os gritos mais discretos em um estádio de futebol. Não xingo os atletas. Não ofendo o treinador. Somatizei os protestos desde o dia em que quebrei um vaso da minha mãe quando algum jogador do Palmeiras perdeu alguma bola em algum jogo do qual não me lembro mais. A almofada resvalou no vaso antes de atingir a tela. É por isso que sempre saio com dores no cotovelo quando o juiz apita o fim da peleja. Vejam, é sério: trato a família do Jeci, do Evandro e do Fabinho Capixaba com respeito.

Este é o autor?

Este é o autor?

Eu era adolescente. Por isso entendo o Garcia Madero. Ele queria ser um poeta. Quando conheceu o Ulisses Lima e o Arturo Belano, decidiu ser real-visceralista porque eles enfrentaram os babacas, os nefelibatas, os babetas que faziam poesia na oficina que freqüentava na universidade _certo, eles não sabiam muito sobre métrica grega ou latina, mas eram caras legais, detestavam o Octavio Paz e tinham uma turma de amigos grande e interessante que o ajudou a perder a virgindade. Madero não me engana nem com aquelas tardes intermináveis vagando pelos sebos da Cidade do México. Ser poeta e abandonar a virgindade. Nice!, diria Borat.

O chuveiro perdeu a graça quando Madero conheceu real-visceralismo, do qual, até onde se sabe, ou não se sabe, nunca se desvencilhou. Eu li o diário dele, pelo menos as páginas dedicadas aos meses de novembro e dezembro de 1975 e janeiro e fevereiro de 1976, quando tinha 17 anos. Sei muito sobre as posições preferidas de Maria Font e o pansexualismo de Pele Divina, sei sobre autores franceses que nem sei se existem e os melhores bares da Cidade do México nos anos 70.

“Os detetives selvagens”, do chileno (que também viveu no México, na Espanha e serviu à pátria do trotskismo) Roberto Bolaño, se divide em três partes e dois grandes modelos de texto. A primeira parte é o começo do diário de Garcia Madero, a segunda é uma sucessão de depoimentos sobre Belano e Lima e sobre as pessoas que falam sobre Belano e Lima, e a terceira retoma o diário de Madero.

Dentro desses “grandes modelos” há contos escondidos dentro de depoimentos, ensaios sobre literatura e política no diário de Madero, passagens eróticas que sobreviveriam por si só em qualquer boa antologia dedicada a homens que amam mulheres, mulheres que amam homens, homens que amam homens e mulheres que amam mulheres e variações a seu gosto. É pouco defini-lo como o balanço de uma geração. É o melhor retrato que já li sobre como turmas de amigos com alguns interesses em comum se unem e se separam ao longo dos anos, na maior parte das vezes em movimentos a esmo, provocados por um caldeirão de sentimentos e convicções.

Este livro não reduz seus personagens a uma figura emblemática de uma geração específica, como no bom filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, e nisso sobrevive a sua originalidade _ em vez de ser um bom livro, é um grande livro. Durante o show do Radiohead, em São Paulo, eu vi e ouvi várias pessoas que poderiam ser personagens do livro de Bolaños. Eu e meus amigos, por exemplo, mas não só. O show do Radiohead teve a capacidade, em muitas pessoas, de acertar as contas com o passado nem que fosse por algumas horas. O livro de Bolaños oferece experiência semelhante.

Banalidades

Acordei cedo hoje. Não sei acordar cedo nem jogar cartas, dirigir automóveis ou soltar uma piada de bate-pronto. São tarefas que não sei executar, habilidades que não desenvolvi durante a adolescência.

Ontem à noite, por exemplo. Eu poderia ter chegado em casa mais rápido se soubesse guiar. Poderia ter dormido mais cedo se não tivesse lido até 2h. Quanto às cartas, é melhor continuar vivendo sem os gritos de “Truco! Seis! Marreco!”

Quanto às piadas, estou avaliando.