Eu gosto de ver o céu
Quando eu era pequeno, ganhei da minha madrinha um conjunto de telescópios de brinquedo. Eles não eram potentes como eu gostaria, porque eu não conseguia ver a Via Láctea. É, pois é, eu achava que dava para ver a Via Láctea.
Tentei montar meu próprio Hubble e, em menos de uma semana, não tinha mais o brinquedo, que prometia mostrar em detalhes os buracos da lua. Juntei as lentes, quebrei o plástico, criei um monstrengo. Ele só produzia imagens distorcidas. Está até hoje guardado na garagem, embolorando. Fiquei com muita raiva do brinquedo.
Algum tempo depois, meu pai-pai me prometeu que, um dia, me levaria ao observatório do Ibirapuera. Ele nunca levou e, aos poucos, o meu sonho de explorador espacial foi se diluindo, mas nunca acabou. Só não tinha como se materializar. A internet, com o site da Nasa e sua galeria de imagens, foi melhor do que uma sessão de terapia. A frustração de não ver o espaço, como o Capitão Planeta, acabou.
Um bom livro de um administrador de empresas
Eu, como muitos colegas-jornalistas que não cobrem negócios, não gostamos de livros de administradores de empresas. Abri uma exceção, e o nariz nem ameaçou torcer, quando comecei a folhear este livro que agora vos apresento. O nome é um português é ruim _”Derrubando mitos - Como evitar os nove equívocos básicos no mundo dos negócios”. Em inglês melhora um pouco: “The Halo Effect - and the eight other businesse delusions that deceive managers”.
Por incrível que pareça, apesar desse título, o livro é bom e é sério. O sujeito realmente entrega o que promete. Melhor: sem final feliz ou lição do tipo “você também pode!”. Não. Ao final desse texto, você terá uma idéia do que ele entrega. Vale não apenas para administradores de empresas.
O autor é Phil Rosenzweig, professor do IMD, na Suiça. A premissa do livro é que os administradores de empresas, os estudiosos de administração de empresas, os jornalistas que cobrem administração de empresas e as pessoas que gravitam pelo mundo dos administrados de empresa (ou seja, quase todo mundo, exceção aos artistas plásticos, que pensam até demais) acreditam em qualquer história que possa explicar minimamente os problemas do mundo, em um conjunto de frases simples e clichês. Renunciaram ao bom senso.
Ele analisa detalhadamente três empresas que adotaram exatamente a mesma estratégia: uma fracassou, a outra empatou e a outra cresceu. Depois, mostra como a saga de cada uma foi descrita por analistas de mercado e jornalistas. A Lego foi descrita como uma empresa que “se desviou da rota” e fracassou, ao mudar um pouco seu perfil de negócios, e a Nokia, como uma “empresa que expandiu seus horizontes”, ao fazer exatamente a mesma coisa, mudar de vida, mas conseguiu aumentar seus lucros.
Até os argumentos dos donos das empresas mostram o mar de confusão em que vivemos com o excesso de informações e conselhos e recomendações e promessas de sucesso. Querem que façamos tudo ao mesmo tempo agora. É claro que não vai dar certo. As pessoas estão, de fato, confusas sobre o que seguir. Até essas misteriosas pessoas chamadas capitalistas e que só trabalham com as cifras acima de seis zeros.
Eis um dos parágrafos do livro: “É claro que não gostamos de admitir quão pouco sabemos. O psicólogo social Eliot Aronson observou que as pessoas não são tanto seres racionais como seres racionalizantes. Queremos explicações. Queremos que o mundo à nossa volta faça sentido. Podemos não saber exatamente por que a Lego deu com a cara no chão, ou por que a WH Smith enfrentou tempos difíceis, ou por que o Wal-Mart se deu tão bem, mas queremos sentir que sabemos o que aconteceu. Queremos o conforto de uma explicação plausível.”
E ele mostra que nem sempre isso é possível, retomando uma velha lição de Samuel Johnson, ensaísta inglês da era vitoriana que dizia que as pessoas fazem qualquer coisa para não ter de pensar por si mesmas (ele levava isso tão ao extremo que desancou um jovem autor chamado Shakespeare…). Fica ai a indicação, para parafrasear um professor “meio maluquete” da faculdade.
O lema destes dias
O refrão desta canção é o lema destes dias. “Por isso corro demais.”
E viva Roberto Carlos.
Os tempos líquidos
Zygmunt Bauman é um sociológo polonês.
Eis alguns dos seus livros:
Amor Líquido
Sobre a fragilidade dos laços humanos
Comunidade
A busca por segurança no mundo atual
Em Busca da Política
Europa
Uma aventura inacabada
Globalização: As Conseqüências Humanas
Identidade
Entrevista a Benedetto Vecchi
O Mal-Estar da Pós-Modernidade
Medo líquido
Modernidade e Ambivalência
Modernidade e Holocausto
Modernidade Líquida
Tempos líquidos
Vida Líquida
Vida para consumo
A transformação das pessoas em mercadoria
Vidas Desperdiçadas
As obras têm nome de comunidades de adolescentes no orkut, mas o nome, nesse caso, por incrível que pareça, não importa muito. Ele acredita em pós-modernidade, esse negócio meio estranho, que ninguém sabe direito se existe, mas ele faz algumas das descrições mais interessantes do nosso jeitão de viver. É mais antropologia do que sociologia. Eu recomendo.
Só os fracassos são lembrados
As glórias não importam, porque já foram desmoralizadas. Só os fracassos são eternos.
De que adianta ganhar um mundial de clubes, que até o Corinthians, depois de um torneio de verão, sol alto, quarenta graus, todo mundo doido por uma praia, diz que tem? O Independiente também tem mundial _ que é a Portuguesa da Argentina. O Estrela Vermelha também. O Vélez Sarsfield, idem. Dou um grande “bah!” para esse Mundial. Até o Penãrol tem três mundiais, como o São Paulo.
E a Libertadores? O Once Caldas, o Olímpia, o Colo Colo, o Atlético Nacional, o Velez, o Argentino Juniors (!!!), o Independiente, Estudiantes e agora a LDU têm ao menos uma Libertadores no currículo.
Hoje, a Libertadores é o Paulistão das Américas, a LDU é o Mirassol das Américas.
Agora, os fracassos, não. Eles são imortais. O Palmeiras perdeu de quatro para o Sport, foi eliminado pelo Ipatinga, tem o Asa de Arapiraca e a Inter de Limeira no currículo, tomou uma virada do Vasco em casa pela Copa Mercosul. Eu lembro até hoje do Alexandre, zagueiro do rebaixamento. Os fracassos do time de verde são incontáveis e gloriosos. Não importa o número, só a dor. A memória das glórias vai embora. A lembrança dos fracassos é eterna, porque não se rende à frieza dos números. Não se conta fracassos, recorda-se, ao som de um bolero, da oportunidade perdida, do coração despedaçado. É muito mais intenso.
Exemplos. O São Paulo ganhou muitos títulos. Mas teve Marcio Mexerica.
O mesmo São Paulo já tomou sete da Portuguesa, foi eliminado pelo Once Caldas, perdeu para o Millionarios da Colômbia, tomou quatro do São Caetano na semifinal do Paulista _além do fracasso mais glorioso, perder de 1 a 0 para o Corinthians que foi rebaixado, gol de Betão, no ano passado. Não vou incluir a eliminação para o Fluminense, gol de Washington. O status do Fluminense ainda está em discussão. Um time que pula da terceira divisão para a primeira cria alguma jurisprudência, ainda não sei qual. Foi um fracasso, claro. Só não sei dizer de qual monta. É como perder para o ABC de Natal? Acho que quase.
O fracasso assombra as salas de troféus. Todo mundo tenta apagar a dor, inutilmente. O corintiano lembrará para sempre do River Plate e do pênalti que Marcelinho perdeu diante de Marcos. Quem fez o gol do título do Campeonato Paulista de 2003? Mas todo corintiano lembrará do “aqualouco” e o pênalti contra o Goiás.
O Flamengo não tem só a maior torcida. Tem os fracassos mais gloriosos também. Como o dia em que fez aquela promoção, de que devolveria o dinheiro dos ingressos se perdesse para a Portuguesa. E perdeu. Ou a final da Copa do Brasil diante do Santo André, estádio lotado, a derrota fragorosa. A queda de Abeu Braga. A eliminação para o América no Maracanã, logo após ter goleado o adversário fora de casa. Quando tudo parece que vai dar certo, o urubu sobrevoa o gramado imortal. Parabéns, Gávea, que elevou o fracasso ao patamar de troféu invisível. Só depois do América é que percebemos o impacto de um fracasso sobre corações, mentes e olhos lacrimoniosos.
Se bem que agora, escrevendo, posso fazer um porém: só tem um título que nunca foi desmoralizado. O título mundial do Palmeiras em 1951. Porque só teve uma edição. Palmeiras, o único campeão (moral) de clubes.
Sorry, periferia.
Minha contribuição à história
Era um dia com sol alto. Eu fui até o dentista, que ficava na Lapa. Uma hora de viagem, ônibus ladário (aqueles com um vidrão alto, a gente chamava os nossos amigos com testas muito extensas de ladário _depois notei que eles eram os primeiros a ficar carecas). Meu pai me esperava no ponto final, um pedaço de madeira fincada em uma rua cheia de lixo, barracas de ambulantes e fábricas com vidros ao lado da estação de trem. Cruzamos um túnel escuro que cheirava a urina, chegamos ao dentista, fizemos exatamente o mesmo percurso para voltar. Havia uma estátua na praça em frente ao prédio do meu dentista. Estava quebrada.
O caminho mais longo na volta era mais claro, passávamos por cima da ponte, tínhamos uma visão que abrangia quase até a Freguesia do Ó e o pôr-do-sol, mas estávamos com pressa. Com tanta pressa que desistimos do ônibus. Pegamos o trem, que era muito mais caro, e depois a gente ainda tinha de pegar um ônibus em Caieiras. Saia quase o dobro do preço do ladário, mas era meia hora mais rápido.
Em Caieiras, o sol prestes a se por, uma meia dúzia de pessoas vestidas de vermelho com estrelas no peito: alguns barbudões e umas mulheres feias. Não sei descrever como, mas elas eram incrivelmente feias. Eu tinha medo delas. Meu pai ria e dizia para eu não temer, eles eram “do bem”. Eles distribuíam panfletos. Não peguei nenhum.
Chegamos em casa, sentamos na sala. Eu, meu pai e minha mãe. Minhas duas irmãs menores estavam dormindo. A Fê tinha cinco anos e a Dedê contava com poucos meses de vida. A votação do impeachment já tinha começado. Meu pai e minha mãe comemoravam os votos pela saída de Collor com um sorriso curto e excesso de discrição. Eu sabia que eles queriam a saída do presidente, mas não entendi porque eles não comemoravam mais. Oras, quando saía gol do Palmeiras a gente sempre gritava alto. Meu pai me segurava pela cintura e me balançava como um troféu quando saía gol do Palmeiras. Comemoração era comemoração. Por que não festejar o fim do presidente que deixava lixo na rua e estátua quebrada?
Quando acabou a votação, meus pais trocaram olhares e falaram: filho, é um momento histórico. Para mim, história era calendário. Eu corri até a cozinha e fiz uma bolona no calendário. Pronto, eu tinha acabado de fazer história.
Voltei para a sala e falei para os meus pais que eu tinha “feito história”. Eles fizeram uma careta. Duvidaram de mim. Eu apontei a cozinha. Foram os dois. Um pouco de silêncio, até que eles riram, enfim eles riram. Eu tinha feito história torta. Marquei a data do impeachment do Collor no lugar errado do calendário. Fiquei muito decepcionado.
Obama baby
A internet está mudando o jeito de as crianças participarem da vida política do País, como mostra esse vídeo pró-Obama.
* sugestão da leitora e repórter do iG, Ana Freitas
Pessoas que eu não devia, mas admiro
Eu sei que Winston Spencer Churchill era machista e defendia a posse da Índia pela Inglaterra. Mas eu o admiro, apesar de tudo isso, por causa de discursos como esse:
“The British Empire and the French Republic, linked together in their cause and in their need, will defend to the death their native soil, aiding each other like good comrades to the utmost of their strength. Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We shall go on to the end, we shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our Island, whatever the cost may be, we shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender, and even if, which I do not for a moment believe, this Island or a large part of it were subjugated and starving, then our Empire beyond the seas, armed and guarded by the British Fleet, would carry on the struggle, until, in God’s good time, the New World, with all its power and might, steps forth to the rescue and the liberation of the old.” Ele sabia diferenciar o certo e o errado em tempos sombrios, onde parecia ser mais prudente fazer um acordo com a tirania e garantir a falsa segurança da Inglaterra.
Eu sei e você sabe muito bem que o Edmundo só é admirável dentro de campo. Eu sinto asco das ações extracampo dele, mas não consigo deixar de admirar o talento do Animal por lances como esses:
Agora, a confissão do nerd que sempre fui. Ele tinha cabelos estranhos, as teorias dele são obscuras, não consta que foi um bom pai nem bom marido. Foi a primeira pessoa que eu admirei fora da minha família. Quando eu era pequeno, eu queria ser cientista para tentar ser como o Einstein e entender o universo (eu era bem pretensioso). Dai eu percebi, logo cedo, que não dava, não. A admiração, contudo, continuou.
Eu gosto muito de ler. Muito mesmo. Mas no último ano antes de entrar na faculdade, travei, ao menos na ficção. Não conseguia passar das primeiras páginas de nenhum livro que não fosse minimamente engajado (tonto, eu). Este argentino, Jorge Luis Borges, me devolveu o prazer da leitura em contos como o Aleph. Apesar de ter apoiado a odiosa ditadura argentina. A relação ainda hoje é tensa. Como quem escreve um conto como “o jardim de veredas que se bifurcam” pode ter simpatizado com o um general malvado?
Do que se preocupa o hemisfério norte
Garoto não chama colega para festa e causa furor na Suécia
Um menino de oito anos de idade provocou um debate nacional na Suécia por não ter convidado dois de seus colegas para sua festa de aniversário.
A escola da criança, na cidade de Lund, no sul do país, diz que ele violou o direito dos colegas excluídos da festa e levou o caso para o Parlamento.
Segundo a diretoria, se os convites são distribuídos na escola, não pode haver discriminação.
O pai do menino fez uma reclamação formal junto ao ombudsman parlamentar.
Ele argumenta que as duas crianças não foram convidadas porque uma delas não havia convidado seu filho para a sua festa e a outra havia brigado com ele.
O menino distribuiu os convites durante o horário das aulas e quando o professor percebeu que dois alunos haviam sido excluídos, os convites foram confiscados.
“Meu filho ficou muito magoado”, disse o pai do menino ao jornal sueco Sydsvenskan.
“Ninguém tem o direito de confiscar a propriedade de alguém dessa forma, é como pegar a correspondência de uma pessoa”, acrescentou.
Um veredicto sobre o assunto deve ser anunciado em setembro, em tempo para o próximo ano letivo no hemisfério norte.
COMENTO:
Crianças, tomem cuidado. Países com alto desenvolvimento humano podem causas danos irreparáveis ao bom senso.
Campanhas políticas divertidas
As “meninas” de John McCain
E por que São Paulo é Itália que deu certo


