The Pompéia Times

Entradas do Março 2008

O homem é mais terrível que os homens

Março 30, 2008 · 3 Comentários

O título desse post é inspirado em uma frase de G.K. Chesterton. O sujeito sabe das coisas. O texto completo: ”O homem é algo mais terrível que os homens; algo mais estranho”.

Eu acredito que certos livros foram escritos só para ter uma determinada frase, uma certa passagem, uma imagem. O livro dos Salmos, na Bíblia: “Meu coração derrete como cera no meu peito; posso contar meus ossos, as pessoas zombam da minha pobreza”. Divórcio em Buda, do Sandor Marái: “As palavras, que ontem ainda significavam algo, hoje apenas comunicam fatos”. A morte dos animais em “Desonra”, do Coetzee. O diálogo de Sherazade às avessas em “Ver: Amor”, do David Grossman. O “infeliz à maneira dos homens livres”, em “É isto um homem?”, do Primo Levi. Machado de Assis e o olhar de Capitu. Em tradução livre, “Se Deus não existe, tudo é permitido”, do Dostoiévski.

Eu também acredito que certas vidas podem ser resumidas, ou atingem seu apogeu, em umas poucas histórias, frases curtas. Uma amiga me contou sobre o casal que se conhece em uma briga de trânsito. Mas depois se separaram. Uma dúvida me assaltou nesse dia nublado e frio em São Paulo. Uma pessoa que joga pela sua janela a melhor história da sua vida imita o escritor mediano que corta de seu romance sempre as melhores frases que escreveu?

Categorias: Literatura
Etiquetado: ,

Bloguismo, a doença infantil do jornalismo – 1

Março 27, 2008 · 1 Comentário

Jorge Preá é o  motivo da minha felicidade noturna. Aos 40 e poucos do segundo tempo, quando o último gole desce impávido, gol do Palmeiras na Lusa. Olho para a TV. Comemoro. Muito.

Chego em casa. Faça um sanduíche. Tomo chá de erva-doce. Ligo o computador. Passeio pelos blogs. Encontro o Juca Kfouri com aquele carão vaidoso. Ele comenta o jogo. Nada demais. Uma alfinetada (justa) no Denilson acolá, o erro do juiz contra a Lusa (justa crítica) aqui, a possibilidade de dormir líder até o final de semana. Concordo com tudo que ele escreveu. Mas continuou achando Juca Kfouri um demagogo óbvio demais.

Vejamos.

O blog dele é um torpedo diário pela moralização do futebol. Justo. Detesto o Mustafá Contursi. O Dualib é um picareta. Juvenal Juvêncio dá cavalos aos jogadores. E o presidente do Santos é o Marcelo Teixeira. Pois é.

Mas Juca Kfouri sofre do bloguismo, a doença infantil do jornalismo, muito antes da invenção dos blogs. Ele criou uma marca: a moralização do futebol. Criou um produto. Juca Kfouri. Distribui esse produto por canais variados. Segundo ele mesmo, com estas palavras, no maior jornal do país (Folha de S.Paulo), na rádio mais influente (CBN – mas como se mede prestígio de 0 a 10?) e na única TV independente (ESPN – se alguém souber o que é ”independente”, favor dirigir-se ao guichê). A fama veio depois que ele dirigiu a Placar, revista que tinha à época tanta importância quanto um bom blog hoje. Ele ganhou a fama de ousado e alternativo.

E vive disso até hoje. Ele era blogueiro antes do nascimento da internet.

O primeiro post do seu blog antes do comentário sobre o jogo do Palmeiras é intitulado “Caia de boca no apito”. A primeira frase:  “Mais uma vez, em vez dos jogos em si, as arbitragens é que estarão no centro das discussões em São Paulo depois dos dois clássicos de ontem”.

Essa é a primeira fórmula Juca Kfouri. Revestir notícia velha com o verniz de polêmica nova.

Mais para baixo, um post sobre a CBF. E depois uma série de copiar-colar de textos do jornal, textos de amigos e recomendação para que as pessoas acessem o blog do filho dele.

O que Juca Kfouri diria se Mustafá Contursi mantivesse um blog só com textos alheios e elogios ao próprio filho? A segunda fórmula Juca Kfouri. Uma boa rede de contatos e elogios mútuos. A terceira fórmula Juca Kfouri: insistir no assunto que lhe deu fama, a CBF. Pode não ser um assunto tão importante assim. Mas se a pessoa escreve tanto sobre isso, e se não for maluca, talvez convença as outras pessoas de que aquele assunto tem alguma relevância. Ele acertou em cheio.

Todas essas características do Juca Kfouri já estão presentes, diluídas, no jornalismo: a notícia velha revestida de polêmica nova, os amigos dos amigos, a notícia como marketing.  Só que em um blog o sujeito se entrega. Porque não tem ninguém para dizer: “Meu caro, isso é demais”. O ego explode. 

Até Juca Kfouri ter um blog, as pequenas doses dos textos dele nos jornais não pareciam tão caricaturais. Os comentários eram mais contidos. Era mais difícíl enxergar o excesso de marquetagem. Como o sujeito tem de escrever todo o dia, o retorno dos internautas é imediato, é venerado por anônimos, o próximo passo é acordar de manhã e dizer: “Olá mundo!” E ficar chateado se o mundo não responde: “Olá Juca!”

Por isso eu digo: Vai que é sua, Juca Kfouri. Porque eu nã vou.

Observação: Esse é o primeiro de uma série de posts contra os blogueiros chatos. Vou copiar o Juca Kfouri. Terei uma idéia fixa.

Categorias: Blog
Etiquetado: , ,

BBB é melhor do que o Roda Viva

Março 26, 2008 · Deixe um comentário

Vou ficar com saudades do Pedro Bial. Ele parecia realmente triste com o final do BBB8. Eu fiquei de verdade. Bial disse que tiveram de prorrogar a votação em um minuto _ele quase ficou feliz por ter ganho um minuto a mais no programa. Eu também fiquei feliz com um minuto a mais de votação. Porque só dava empate. Nos estertores do espetáculo, Rafinha, o emo, bateu Gyselle, a cajuína, e se sagrou campeão da oitava edição do Big Brother Brasil.

Eu já falei. Vou repetir. O BBB é o melhor programa da televisão aberta brasileira. No mesmo horário, o Observatório da Imprensa, capitaneado pelo Alberto Dines, organizava um debate sobre o Conselho de Comunicação Social da Câmara. É um formato curioso de debate. Todos concordam entre si. É um debate de concordâncias. A disputa é sobre quem é capaz de concordar mais com o outro.

Na TV Câmara, uma deputada do Amazonas, Vanessa Grazziotin (do democrático PC do B, que denúncia o imperialismo norte-americano no Tibete, embora seja a China que mate os monges), explicava o sistema elétrico brasileiro. Ela dizia que o nosso sistema é bom, esse com hidrelétricas. Mas que também é ruim: temos de usar gás. E óleo. Mas o nosso sistema é bom. E ao mesmo tempo é mais ou menos. Eu gosto de pessoas assim. Elas me lembram o rapazola que ganhou do computador em 2001, o filme: uma seqüência de pensamentos ilógicos para derrotar as forças do mal.

Fui tomar minha limonada noturna, voltei ao Bial. Agora as cenas são do Marcelo. Dedo em riste. Sem essa de churumelas. Dois minutos para explicar. O doutor não tem muita paciência com frufru. Ou a Natália. Ela diz que o certo é usar camisinha. Mas que o bom é sem camisinha. É mais lógico que a deputada. Natália poderia ser deputada.

Voltei até a cozinha em busca de um pedaço de chocolate. Uma pena, perdi o vencedor do Oscar BBB8 de melhor atriz. Pego meu jornal e lembro que ontem foi dia de Roda Viva. O nosso mais tradicional programa de debates. É um lugar bastante interessante.

Você lê as feras no jornal. Fulano é um nefelibata. Siclano é um apedeuta. Vamos inaugurar o festival do tartufo nativo. No Roda Viva eles se comportam. Com açúcar com afeto. As perguntas são gentis. Eles concordam com os nefelibatas, os apedeutas e os tartufos. O programa tem evoluído bastante. Se o horizonte é a concórdia, o Amit Goswami é o entrevistado. Ele debateu com físicos a força do pensamento positivo. Muito didático. Ele quase disse que podia movimentar objetos com o poder de sua mente. Eu tenho certeza de que ele não precisou hipnotizar os debatedores.

Se a roda está viva, talvez esteja só respirando por aparelhos.

Enquanto isso, no BBB8 o Marcelo assumia que era gay e em seguida declamava “passo por uma fase hétero diante da beleza da Gy”, o Negão reclamava de preconceito racial, a ´Thati dizia que já tinha beijado homem e mulher ao mesmo tempo. Isso é um debate complexo, não o Jornal da Globo. O apresentador organiza um debate, digamos, sobre gás boliviano. O primeiro diz sim, o segundo também e o terceiro…. tchan tchan tchan tchan… concorda com os dois primeiros.

No BBB, um ameaça sair do país se o outro ganhar o programa. Debate-se o valor de uma amizade sincera. Grandes alianças. Rafinha quase namorou Juliana. Mas a mandou para o paredão. Ele não sabia, mas reeditava o alemão Bismarck e a política de alianças européias do século 19. Você flerta com um e com o outro. Os dois são inimigos entre si. Você promete aos dois que vai lutar ao lado deles. E trai os dois com um terceiro, mais forte. No caso, o Marcão.

A superioridade do BBB não é apenas sobre os programas da Globo e da Cultura. Na Record, tem sempre o Paulo Henrique Amorim. Ele é muito legal. Ele fala que existe o colonismo. Os colunistas que escrevem sentados no colo do patrão. Engraçado. Eu quase acho que ele virou evangélico na Record. Posso estar enganado. Ele também. Ele fez uma denúncia contra o Lula nos anos 90. Perdeu na Justiça. Bajulava o Fernando Henrique Cardoso. Hoje, chama o ex-presidente de Farol de Alexandria. E o Lula de “captain, my captain”.

Isso não seria tolerado no Big Brother. Thalita rompeu rapidinho com o Marcelo. Foi ao paredão e saiu com grande dignidade. Sem grandes conciliações. Acordos. Ou jeitinhos.

Agora tudo isso acabou. Não tenho mais quem me faça companhia qualificada na TV. Quem vai ficar falando enquanto eu preparo meu jantar? Ou digito alguma coisa no computador? Ou limpo meus sapatos? Ou jogo fora o lixo?

E aquela espiadianha? Acabou. Sorte do Roda Viva e do Jornal da Globo. A competição estava ficando humilhante. Agora é esperar o ano que vem. Tchau, Bial. Nos vemos no BBB9.

Categorias: Artes e Entretenimento
Etiquetado: , ,

Olá mundo!

Março 8, 2008 · 1 Comentário

O título do post não é meu, é do WordPress. Este endereço me abriga a partir de agora. Fui recebido com um “Olá mundo!” (sem vírgula mesmo, mas com uma exclamação). Eu nunca tive a pretensão de escrever um post com “Olá mundo”. Parece coisa de blogueiro.

Sabe a definição do James Wood sobre alguns escritores ingleses? Vou adaptar para os blogs: “Um blogueiro é alguém que não faz nada de manhã e, à tarde, escreve sobre o que fez de manhã”. Eu não fiz nada de madrugada, escrevo, agora, de manhã: li trechos do discurso que o Obama pronunciou na semana passada. Isso é não fazer nada.

É um discurso bonito. Pede o aperfeiçoamento da União americana (eles são uma federação, se vêem até hoje como uma reunião de diversidades). Conclama ao entendimento. Nega o racismo do seu guia espiritual. Mantém o ritmo “Yes, we can” da sua campanha. Os oprimidos só vão se libertar quando libertarem o conjunto da sociedade. 

A campanha dele inteira é baseada em uma mistura difusa de (aparentes) boas intenções. Parece um escritor de auto-ajuda. Vamos tirar as tropas do Iraque rapidinho. Vamos unir esse país. Cantar “we are the world, we are the children”. A mensagem de Obama não é de esperança. É de conformismo. Uma sucessão de remendos. Cede a todo lado para deixar todo mundo feliz. Fala do valor do indivíduo. Mas ele propõe universalizar o sistema de saúde? 

Tirar as tropas do Iraque agora é entregar o país ao Irã. Ou criar um Afeganistão a la anos 80, com novos talebãns. Como unir um país que se divide eleição depois de eleição, com fundamentalistas religioso de um lado e liberais parricidas de outros (parricida no sentido de que relativizam tudo, tudo, até a sociedade que lhes permitiu nascer, a democracia liberal ocidental). Obama parece querer ser uma espécie de líder de torcida. “Eu digo U, eu digo S, eu digo A. U-S-A!”. Joga para as duas arquibancadas.

Os republicanos mais conservadores gostam dele porque seu discurso nega as contradições do país. Seu assessor econômico desmente em privado o que ele diz em público. Os democratas mais ricos querem se livrar de um complexo de culpa, elegendo um negro. Esquecem-se do óbvio: cor de pele não é critério. Não escolho um presidente pela sua cor. Escolho um presidente pelas suas propostas. Não escolho um bom personagem para ser presidente. Obama é um bom personagem. É difícil acreditar que será um bom presidente. Suas propostas para a América Latina, só para ser bairrista, são risíveis. Conclama a uma grande união dos grandes países. Ok. Só falta combinar com Chávez e Uribe.  

Pronto. Fui picado pelo mosquito da “dengue blogueira”. Fui pretensioso no título do post e escrevi de manhã sobre o que não fiz na madrugada. Agora vou tomar meu chá. Obama me deixa de mau humor. Voltarei a ele.

Categorias: Blog
Etiquetado: , ,