Há duas imagens que me perseguem de tempos em tempos. Outras duas vão começar a partir de hoje. A primeira é uma metáfora de Isaac Bábel, o escritor judeu-russo que escreveu “O Exército de Cavalaria” e cunhou metáforas do horror para descrever o horror pelo qual passou seu país durante a Revolução. É dele a imagem “o sol desce como uma cabeça decepada”. É difícil suportar o pôr-do-sol depois dessas sete palavras.
A outra imagem é a do garoto João Hélio. O carro dos seus pais foi roubado. Os ladrões partiram em velocidade. O menino ficou preso do lado de fora do carro, amarrado ao cinto de segurança. Foi arrastado no asfalto até um dos homens talvez se dar conta, inconsciente ou não, do crime que cometera contra a humanidade. Lembro até hoje do rosto deles pedindo perdão. Como não pensar no título do livro do Primo Levi: “É isto um homem?”
Hoje acordei, olhei pela janela. O céu estava claro, com esse azul sem brilho típico do outono paulistano. Sentei na cadeira vermelha e liguei o computador. A imagem da menina, que ainda não se sabe se foi ou não jogada pela janela do prédio do pai, aparece no monitor. Tinha cinco anos. Talvez tenha sido asfixiada. Talvez tenha apanhado. O que se sabe é que foi assassinada.
Eu não sei se quero conhecer o autor/autora do crime. Pai, madrasta, irmão, um desconhecido. Se ela foi jogada ou tentaram disfarçar o ato depositando o corpo no jardim, para simular uma queda. Não quero ouvir desculpas. Não quero saber de análises. Não quero que o agressor venha com pedidos para que entendamos seu ato. Não quero ter de assimilar algo como um “Eichmann em Jerusalém”, quando um dos operadores do Holocausto desfilou sua cantilena. O fato me basta. Uma pessoa foi morta. O assassino foi mau.
Sai do computador, foi até meu quarto. Há um texto bíblico, o salmo 106, cujo título é “A história testemunha a infidelidade dos homens”. É um resumo da história do Velho Testamento, onde o homem, próximo da felicidade, cede. Um dos trechos diz que os homens chegaram até mesmo a comer sacrifícios oferecidos a deuses mortos. Não eram capazes de jurar fidelidade a nada: nem a Deus a que formalmente chamavam de seu nem aos deuses que adotaram.
A nossa capacidade de erguer monumentos à crueldade e justificá-los parece inesgotável. Não nego o direito ao perdão, que nos liberta do nosso próprio ódio. O perdão e o arrependimento são sagrados. O que me incomoda é que ao longo dos séculos ainda brigamos com as palavras. Somos incapazes de reconhecer o certo e o errado e dar nome a isso. Só nos restam as imagens jogadas em um mar de simulacros, que nos atormentam como fantasmas. E desafiam: você é capaz de dizer que nunca será mau?
1 resposta Até agora ↓
Vives // Abril 8, 2008 às 5:40 am |
Foi você quem me disse que o opressor vive dentro do oprimido. Mau todo mundo vai querer ser um dia. O jeito é assumir isso, já não diria o Richarlyson.