The Pompéia Times

Debaixo do meu nariz

Enviado em São Paulo by Leandro Humberto em Abril 8th, 2008

O trânsito de São Paulo tem um desagradável efeito colateral. Não me refiro às buzinas histéricas nem aos 229 quilômetros de vias intransponíveis. Muito menos às pessoas que perdem compromissos, chegam em casa nervosas, gastam horas preciosas de vida paradas dentro do automóvel escutando a Alpha FM. Tudo isso está dentro do preço do veículo, que hoje já é possível dividir em 72 prestações. Elas pagam por essas sensações.

 

O pior problema causado pelo trânsito de São Paulo é o meu nariz. Percebi que à medida que os recordes se sucedem, durmo cada vez pior. Desde que abriu um shopping aqui ao lado, bem agradável o shopping, milhares de carros entopem as vias antes calmas vizinhas aqui ao apartamento. E entopem também o meu nariz, que sangra, ressecado. Quanto mais trânsito, mais sangue. Quanto mais carros, mais seco. Não tem um dia, desde o começo do outono, que eu não acorde pela manhã e não pense em um transplante de nariz. E eu nem tenho um carro.Não paguei por isso.

 

Uma das minhas estações prediletas é o inverno. Mas fazendo um pouco de drama, já me sinto como as tropas de Napoleão que tentaram invadir a Rússia na estação fria. O país do czar não precisou usar muitas munições. O inverno encarregou-se de congelar o adversário. Se o trânsito continuar crescendo, o tempo continuar seco, a cidade pode olhar para mim no inverno,  com um charuto nos dedos, de cachecol, e dizer: perdeu, mané. 

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