Eu pensei em fazer um “tempo real do Roda Viva”, lance a lance. O jornalista Zuenir Ventura foi o entrevistado. Ele falou sobre 1968. Ele é autor do livro “1968, o ano que não acabou”. Como em todo Roda Viva, os participantes se digladiaram para ver quem concordava mais um com o outro. Ia ficar muito chato o lance a lance. O Roda Viva sobre 1968 foi previsivelmente decepcionante.
Gostei muito de “Os Sonhadores”, do Bernardo Bertolucci, filme que se passa em 1968. Eu o assisti em 2005, no Top Cine da Paulista, noite de fevereiro, dia chuvoso. Tinha 22 anos. Gravei a trilha sonora. Não é um filme sobre 1968. É a geração de 1968 tentando encontrar em alguns jovens daquela geração, dois meninos e uma menina, a suposta origem das pessoas da minha geração. Os personagens são hedonistas, falsamente politizados (maoístas de boutique),a menina lasciva na verdade é virgem, um dos meninos é misógino, passam o dia inteiro dentro de casa. Em 2005, alguns de nós tentamos viver o 1968 de “Os Sonhadores”.
Claro que não foi possível. Porque 1968 não foi o ano que não acabou. 1968 foi o ano que não existiu. Acho que foi simplesmente o melhor ano da vida de muitas pessoas que depois se tornaram bastante influentes: jornalistas, cantores, atrizes. Ou alguém acha que a libertação sexual chegou em Pirituba durante 1968? O Roda Viva, onde o entrevistado viveu 1968 e alguns dos entrevistadores também, reforçou essa impressão. Um clube da saudade, um grande “Cartola Clube”, como o belo clube da terceira idade na esquina da Paulista com a Brigadeiro.
Eu poderia escrever um livro chamado “1996, o ano que não acabou”. Ou “2003, o ano que não acabou”. Ou “2007, o ano que não acabou”. A única coisa que 1968 nos deixou foi um clichê de libertação sexual, liberalização das drogas, rock, participação polícia. E, claro, nos legou a expectativa de um dia ter saudade de alguma coisa que não vivemos. Em 2005 mesmo, desisti de 1968. Meu tempo me interessa. O Bertolucci reconhece isso. Se ele fizesse “Os Sonhadores” tomando como base o clichê de 1968, o Roda Viva sobre 1968, o filme seria muito mais chato: meninos do interior assustados com a ditadura, alguns turistas em Paris, gente reclamando que não menino não podia dormir com menina no quarto, centro acadêmico como única opção de lazer.
2008 é muito melhor. Mas meus filhos não vão achar isso. Tomare.