O príncipe Fabrizio Salina sabe tudo de Itália moderna e do Berlusconi, mesmo sem ter conhecido nenhum dos dois. Ele é o personagem principal de “O Gattopardo”, único romance de Tomasi di Lampedusa.
Este livro tem um diálogo memorável. O príncipe Salina conversa com o sobrinho Tancredi, que quer lutar ao lado de Garibaldi para unificar a Itália. É o momento da transição à italiana do feudalismo para a burguesia. O livro se passa em uma Sicília que em muitos momentos lembra a Alagoas de Renan Calheiros.
Salina resiste até Tancredi lhe dizer: É preciso que tudo mude para que tudo continue como está. Plim! A partir daí, o mote norteia todas as ações do príncipe Salina que, para preservar algumas posses da família, algum status passado ao longo de gerações, se comporta ao sabor das conveniências, com um jeitinho ali, uma rebolada à tarantela acolá.
Ele expressa um conformismo decadentista (as coisas estão piorando, mas pelo menos estou sobrevivendo) até o momento em que os antigos adversários o convidam para ser senador pela Sicília, fazer algo pela região, modernizar os vilarejos. Há um esboço de honra. O príncipe Salina reage com repulsa. Seus argumentos são simples. Esse negócio de querer mudar de verdade é uma bobagem. Ninguém muda nada. A Sicília foi e continuará sendo para sempre a mesma coisa. Projeto civilizador? Estou fora. Somos a nossa própria civilização.
Qualquer semelhança com a música-símbolo de Berlusconi nessa campanha não é mera coincidência: “Menos mal que há o Sílvio” (o país está um horror, mas pelo menos tem o Silvio). Ou as manchetes dos jornais pró-Berlusconi após a eleição: Primeiro-ministro promete decidir (cáspita, e para que alguém elege alguém?).
A Itália, vista daqui, onde estão 26 milhões de descendentes, parece, a cada ano, retroceder mais tantas gerações. Cada italiano parece um príncipe Salina, bem-vestido, elegante, torcendo para que tudo mude para que tudo continue como está. Mais de um século após a unificação, cada italiano ainda se comporta como um dos tantos reinados minúsculos que dividiram a península itálica no século 19. Horror a qualquer evolução. Berlusconi age como o principado-mor. Tanto é que se especializou em fazer leis em proveito próprio.
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Menos mal, claro, que há o papa. O discurso de Bento 16 na ONU, durante sua visita aos EUA, é memorável. Quem não é cristão/católico vai achar vários pontos a discordar. Mas se fizer um esforço perceberá que o discurso do papa na ONU responde hoje a um problema fundamental: os direitos humanos são relativos ou absolutos? Devemos dizer que a Arábia Saudita, o Irã, a China e outros têm o direito de submeter mulheres, mandar gente para o paredão porque isso faz parte da cultura deles? Ou devemos refutar essas barbaridades porque há direitos universais que regem as relações de todos os homens? Bento 16 responde bem. Curiosos, leiam aqui.
Obs. É claro que cabem todas as críticas quanto ao desrespeito aos direitos humanos dentro da própria Igreja Católica. Mas, ao menos no discurso, o papa Bento 16 acerta em cheio. Ele faz um esforço para pensar. Na Itália, os eleitores de Berlusconi parecem ter desistido disso.
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Saiba mais sobre a Itália no blog do Fernando Vives. Ele entende tudo de Itália também.