The Pompéia Times

Visite Roma e não saia sem Alberto Moravia

Abril 27, 2008 · Deixe um comentário

Este blog está ficando monotemático. Não posso fazer nada se o Alberto Moravia escreveu “Viagem a Roma”.

Encontrei o livro em um sebo na rua Pedroso de Moraes, em São Paulo. Era uma manhã de sol tímido. Não comprei de primeira. Passei por ao menos cinco outros sebos e uma livraria antes de ter certeza de que deveria levar “Viagem para Roma” a dormir em casa. Uma hora tinha se passado.

Mário de Sio volta a Roma para reencontrar o pai que não via faz mais de 15 anos. Logo Ricardo de Sio detalha ao filho as traições da mãe, com excesso de descrições anatômicas. Mário vai até a sala e lembra de uma dessas traições de Dina, a qual assistiu ou julga ter assistido. Essa cena é o centro nervoso de uma história que passeia por flertes com a namorada do pai, com uma professora de literatura francesa e com a filha de 13 anos dessa professora de literatura francesa.

O livro tem algumas das passagens de quase-sexo mais refinadas que eu já li. O jantar e os pés de Alda merecem uma segunda, terceira leitura. Mas o jogo de palavras no final, desnecessário, ligando algumas das personagens entre si, diminui o texto ao explicitar alguns pontos que ficariam melhor obscuros. Não é uma obra-prima. É uma história curiosa sobre uma pessoa que consegue identificar suas próprias patologias e não reagir a elas.

É como se um desses tantos sobreviventes da geração de 68 identificasse cada passo em falso que dera nos anos seguintes, sem subterfúgios de nenhuma espécie. Ou que torcedores de futebol conhecessem a ligação entre a sua agressividade e as suas frustrações, binômio que vale para os populares que queriam massacrar o pai e a madrasta de Isabella (sem entrar no mérito se o pai ou a madrasta são culpados ou não). Ou por que jornalistas gostam de comentar livros que não leram. Ou depreciar a própria profissão e a si mesmos. O livro mostra que é possível viver sem analistas, padres no confessionário, mães, pais ou melhores amigos.

Essa pretensão torna o livro um pouco menos crível. É difícil imaginar alguém que seja bom analista de si próprio. Nesse caso, prefiro o juiz de “Divórcio em Buda”, de Sandor Marái, muito mais crível. É um livro narrado em primeira pessoa na qual o juiz não conta  em nenhum momento as suas obsessões, embora elas transpareçam ao correr de todas as páginas. O sujeito não se pergunta por que vive sonhando com uma mulher a qual nem lembra mais o nome. Ou por que tem horror ao divórcio e não sente mais nada pela mulher. Ele acha tudo normal.

Obs. Consegui escrever um post inteiro sem citar o país do Berlusconi. Não vou transformar minhas críticas à Bota em um complexo de Édipo nacional. Aprendi com Moravia. 

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