Muitos leitores vêm sendo remetidos a este blog porque procuram o conto “Rip van Winkle”, de Washington Irving, com tradução de Monteiro Lobato. Esta história está no livro “Contos norte-americanos – Os Clássicos”, da Ediouro. A obra é organizada por Orígenes Lessa e Vinicius de Moraes. Custa R$ 52,90 na Livraria Cultura e tem 544 páginas.
Entradas do Maio 2008
Dizem por ai que somos estúpidos
Maio 28, 2008 · 2 Comentários
(O texto é um pouco longo, mas você, nerd amigo, vai encontrar motivo para se alegrar)
Alguns dos meus amigos costumam dizer que os imbecis tomaram conta do mundo, proposição bastante razoável para quem trabalha com comunicação e é bombardeado diariamente por releases obtusos, notícias bizarras e telefonemas inoportunos. Tanto que tivemos a idéia de criar uma consultoria de bom senso, para aconselhar as pessoas a não tomar decisões estúpidas.
Soube hoje que Mark Bauerlein, professor da Universidade de Emory, nos EUA, acha a mesma coisa. A sua conclusão é que a geração a qual pertenço, os sub-30, é formada pelas pessoas mais estúpidas de todos os tempos. Ele lançou o livro The Dumbest Generation” (“A geração mais estúpida”), cujo subtítulo é bastante óbvio sobre o conteúdo: “Como a era digital embasbaca os jovens americanos e põe em risco nosso futuro. Ou, nunca confie em ninguém com menos de 30″. A tese de Bauerlein é que a tecnologia faz jovens e adultos estudarem menos e provoca a perda de memória cultural, já que os indivíduos recebem tantas informações sobre o presente que vivem em um moto contínuo (é a mesma tese de Umberto Eco), sem nenhuma ligação com o passado.
Claro que o fato de os mais velhos olharem para os mais novos com desdém não é nenhuma novidade. À medida que o tempo passa, vemos o mundo em que crescemos ruir aos poucos. A melhor proteção é atacar a prole recente, e alguns até fizeram piada com isso. Os tropicalistas (Gil, Caetano, Betânia e Gal) formaram os “Doces Bárbaros”. O diretor Denys Arcand olhou para a sua geração, alguns criados em 68, e fez um filme chamado “Invasões Bárbaras”. O problema é que, desta vez, até quem faz parte dessa geração acha que os seus pares são estúpidos.
O escritor francês Martin Page lançou, em 2002, aos 27 anos, o livro “Como me tornei estúpido” (no Brasil, foi publicado em 2005). Conta a história de Antoine, um jovem de 25 anos que tenta desesperadamente se tornar obtuso. Ele chega à conclusão de que só os imbecis são felizes. Seu livro foi um sucesso, traduzido para mais de 19 idiomas. Leiam, é interessante. Mas hoje, aqui em casa, cheguei à conclusão de que ele está errado.
A internet, a abundância de informações, apenas permitiu que mais imbecis se expressassem. Antes, eles existiam, mas não tinham blogs, orkut. O mercado financeiro merecia pouca cobertura. O jornalismo falava de menos assuntos. A TV chegava a poucos lugares. O que existe é a sensação de que há mais imbecis. Eles sempre existiram. Em Caieiras, por exemplo, alguns amigos costumavam fazer algumas apostas entre si: ver a aula de matemática só de cuecas, colocar bombas de cloro no banheiro da lanchonete, encher de água o estojo de caneta do amigo mais bobo (isso tudo, claro, homens acima de 16 anos).
Eu acho, na verdade, que a tecnologia fez bem às pessoas legais. Nerds tímidos, como eu e alguns dos meus melhores amigos, tem agora espaço para falar internet afora e publicar livros desancando os imbecis. Talvez, no futuro, abrir consultorias de bom senso e tirar dinheiro deles.
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Paulo Coelho e Mangabeira Unger
Maio 27, 2008 · 3 Comentários
Paulo Coelho e Mangabeira Unger estudaram no mesmo colégio, o Santo Inácio, no Rio de Janeiro. É uma escola de elite, dos jesuítas.
Os dois freqüentaram o Santo Inácio na mesma época. O Coelho só tirava dois, três, era um dos piores alunos. O Mangabeira levava todas as medalhas. Era o nota 10.
Um virou escritor de livros de auto-ajuda mística, foi lido por presidentes. O outro, professor de Harvard e ministro, deu aulas para Barack Obama.
Estou tentando tirar alguma conclusão dessa conexão. Sugestões são bem aceitas. Qual a ligação entre os aquedutos levando água da Amazônia para o Nordeste e “às margens do rio piedra, sentei e chorei”? Qual o elo perdido entre a Amazônia ser uma fronteira da imaginação e “O Alquimista”?
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A grande frase do reitor de Indiana Jones
Maio 27, 2008 · Deixe um comentário
Entre um filme de arte e Indiana Jones, fiquei com o arqueólogo do chicotinho nesta segunda-feira à noite. Quando Homem de Ferro estreou, algumas semanas atrás, fui ao cinema em uma sessão das 14h. Eu era a única pessoa na sala dentro do grupo com idade superior a 10 anos e inferior a 30 (os pais das crianças abaixo de 10 anos). Vibrei com os três filmes do Homem Aranha. Não resisti a nenhum X-Men (meu amigo Fernando Vives tem constrangedoras histórias sobre isso).
Eu gosto, particularmente, das frases que ficariam ridículas no papel. Na verdade, eu sou obcecado por frases quase-perfeitas, aquelas que não teriam sentido em outro lugar senão naquele livro ou naquele filme exatamente naquele ponto. No Indy 4, o reitor, amigo do arqueólogo, olha para um Harrison Ford envelhecido, prestes a ser demitido da universidade, mas ainda hábil nas fugas impossíveis, e diz, antes de a aventura começar (por mais estranho que pareça, porque o Indiana Jones, a essa altura, já sobrevivera a uma bomba atômica abrigado dentro de uma geladeira revestida por chumbo): “Chegamos à idade em que a vida pára de dar e começa a tirar”. É ou não é uma grande frase para estar em uma série cujo último episódio foi ao ar em 1989 e que tem um herói com quase 60 anos? Serve ou não para várias situações vida afora? Tão grande quanto a de Homem Aranha Um: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.
Em um livro, soariam cafonas. À beira do mau gosto. Mas isso não é um livro. É um filme. É outro jeito de construir um mundo particular. Eu não gosto de ler livros de heróis porque heróis não foram feitos para serem lidos. Nasceram para viver em movimento, na tela grande. Da mesma maneira que não gosto de filmes que tentam copiar os bons livros, como os já clássicos iranianos e suas paisagens infinitas (imagine o dia em que um diretor brasileiro decidir gravar “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa? Serão as cinco horas mais insuportáveis da tela grande, mas o livro é muito bom). Os bons filmes de arte não tentam mimetizar a literatura. O negócio deles é forçar os limites de sua própria linguagem.
Indy 4 não é o melhor filme de herói que eu já vi. A mistura de índios, comunistas, Guerra Fria e alienígenas às vezes desanda (como o agente da KGB devorado por formigas gigantes). Ainda prefiro Homem Aranha Um. Mas entre ele e 2001, por exemplo, tendo a devotar mais interesses aos alienígenas de Indiana Jones 4. É a indústria cultural em estado de arte, não a indústria cultural fantasiada de pintor expressionista. Você tem tipos humanos estereotipados, mas mesmo assim guardam alguma relação com seres humanos. É um filme de poucas idéias e boas frases. Alguns sucessos do Espaço Unibanco também têm poucas idéias _ e imagens gravadas sem edição e frases sem conteúdo. O povo é inconfiável, ensinou Shakespeare em Julio César. Ao dar grandes bilheterias a Indiana Jones, contudo, acerta em cheio. Itaim Paulista 1, rua Augusta 0.
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Longe dela (texto refeito)
Maio 25, 2008 · 4 Comentários
(este texto foi bastante alterado em relação à versão publicada no domingo à noite, era fruto de um plantão. Se você leu o anterior, esqueça-o, por favor)
Você vai até a floricultura. Colhe a flor mais bonita. Caminha por um dia frio. Demora a chegar. Mas ela está de mãos dadas com outro homem. Não é culpa dela, mas os ciúmes escorrem do coração para cada canto do seu corpo. É incontrolável. Ela se esqueceu de você. Ela perdeu a memória. Ela é a personagem principal de “Longe dela”, filme que, enquanto este post era escrito, ainda estava em cartaz em São Paulo. Ela se chama Fiona e tem Alzheimer.
Fiona e Grant foram casados por 45 anos. Formavam um casal satisfeito, não necessariamente feliz. Tinham uma vida sexual ativa após os 60 anos e chamavam os amigos para jantar. Não se deixavam atormentar pelos problemas do passado. Aos poucos, ela vai perdendo pedaços da memória. Coloca a frigideira na geladeira, vai esquiar e não sabe voltar para casa, apaga a marca do vinho predileto. Até que decide viver em uma clínica. O marido resiste. Ela insiste. Quer poupá-lo da dor, porque ambos sabem que, um dia, não se sabe quando, ela vai se esquecer dele.
Depois dos 30 dias de isolamento obrigatórios de Fiona, Grant vai visitá-la. A mulher não o reconhece, ou faz que não, difícil dizer. Ela está de mãos dadas com outro paciente, mas seu rosto está esvaziado, sem expressão. Como naquela música de Arnaldo Antunes: “Socorro, não estou sentindo nada”.
Quando Grant vê a cena, sua face também congela. O filme se torna uma batalha entre o amor de Grant e o (suposto) esquecimento de Fiona. Ele tem ciúmes. Mas do quê? De quem? O ciúme geralmente tem um objeto: a nova relação de uma pessoa querida. Mas quando o ciúme emerge sem objeto, já que Fiona simplesmente não sabia (ou fingia) que um dia amara Grant? O ciúme se torna uma grande planta morta na sala para a qual se olha com resignação. Dói, mas faz parte da paisagem.
Grant descobriu um território novo, ao menos para mim. A nova terra, ainda sem nome, está entre a indiferença e a obsessão.
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Auto-ajuda de alto nível
Maio 19, 2008 · 1 Comentário
Eu nunca tinha ouvido falar de Washington Irving, escritor americano que nasceu 199 anos antes de mim. Li um conto dele hoje, “Rip van Winkle”, traduzido por Monteiro Lobato. Formei uma convicção e fiquei envergonhado da minha ignorância.
É possível escrever livros de auto-ajuda de alto nível. Ainda que eles tenham sido cunhados no século 19 por um autor que tem na sua galeria obras como “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, que virou filme sob as mãos de Tim Burton.
A intenção de Irving não é ajudar o leitor, mas é isso o que ele faz. O conto, de 12 páginas, corre em menos de meia hora. A história versa sobre um homem de profissão indefinida que toma um porre mágico e acorda 20 anos depois.
Foi a melhor coisa que já aconteceu na vida dele. A esposa de Winkle merece essas palavras de Irving: “um temperamento azedo não se edulcora com a idade, e língua afiada é o único instrumento de corte que não fica embotado com o uso”. Ele não tinha profissão definida. Ele gostava dos filhos, mas não sabia como criá-los. A solução de Irving pode encher de inveja os fãs de Charles Bukowski, o velho taradão precursor dos beatniks: beba até esquecer.
Quando Irving volta do longo coma alcoólico de bebidas indígenas, os EUA já haviam se tornado um país independente e ele é homenageado. É eleito a voz de sabedoria em sua aldeia, que ficava ao lado do que hoje é Nova York.
Se você é abstêmio como eu, a lição de Irving continua sendo uma só: esqueçam, crianças, esqueçam. E sumam, sempre que possível. Aumenta a saudade. Até água ajuda.
Obs. Caro amigo que me legou sua história, contada no post abaixo (“O orkut é um prato que se come frio”): leia Irving, leia “Rip van Winkle”. Nossa amizade continuará a mesma.
Obs1: Lula e FHC leram Washington Irving. Mas às vezes eles esquecem.
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O Orkut é um prato que se come frio
Maio 17, 2008 · Deixe um comentário
Estimado leitor, amável leitora, depois de algum tempo fora do ar, ainda sob os efeitos do título do Palmeiras (ver post abaixo), decidi brindá-los com uma peça singela sobre os efeitos benéficos da falta de privacidade da internet.
Imagine se Capitu, de “Dom Casmurro”, tivesse Orkut. É a festa de Bentinho. Madame Bovary largaria a senha do e-mail escrita debaixo do travesseiro. Teresa, de “Amor de Perdição” (obra de Camilo Castelo Branco), lutaria por um twitter proibido para falar com o mui estimado Simão. Shakespeare faria pó de Otelo.
O seleto leitor, a exigente leitora, pode-se perguntar aonde quero chegar. Paciência, já explico. Na noite de ontem, um amigo muito querido, de quem vos privo o nome por respeito e consideração (a ele), me enviou, pelo MSN, o perfil de uma garota do orkut. Era uma antiga conhecida dos tempos do ginásio, em Caieiras.
Aos 12 anos, ele era apaixonado por ela, mas fez uma besteira monumental. Foi ao cinema em turma para ver “Don Juan de Marco”. Estava pressionado pelos outros garotos (inclusive por mim) a ficar com uma amiga da amada (as outras pessoas não sabiam que ele gostava dela, que ela gostava dele, nem eles sabiam que um gostava do outro, ele era um mar de timidez). Pois bem. Ele teve certeza de que a amada gostava dele quando a amiga da amada sentou-se ao lado dele no cinema. Os olhos da amada, segundo meu amigo, se tornaram imediatamente amuados e aflitos. Mas ele estava pressionado e tentou uma solução intermediária.
Pediu para ficar com a amiga. Somente até o final do filme. Ela aceitou. Seguiu o plano. Foi uma burrice. Não beijou. Atraiu a raiva da amiga, o desprezo da amada e o sarro eterno de todos nós. A adolescência, percebam, é uma tragicomédia com tons de pastiche, sempre cruel. Que ganha luzes de néon quando a amada espera meu amigo perder um jogo decisivo no basquete para lamentar a derrota de mãos dadas com um rapaz dois ou três anos mais velho do que a gente. Eu não acho nada dele. Meu amigo até hoje o chama de “aquele babaca”.
Pois bem. Meu amigo, com quem falo com freqüência bissexta, mas unidos por essas lealdades que se formam quando temos espinhas no rosto, me chamou no MSN: “OLHA ISSO! É A F……” Eu olhei. Era a F….. Continuava bonita. Meu amigo: “As comunidades dela são toscas”. Não respondi. Fui ver. Pânceps. Descrição: “Pra você que tem aquela pancinha sexy e não consegue e nem quer perdê-la, JUNTE-SE A NÓS!”. A vida é minha, o pobrema (sic) é meu. Homem alto é tudo de bom. Durmo com meu celular do lado. Mulher ñ se entende: se obedece. Vou ligar pra ele e dizer: vsf. A fila anda, mas vc é VIP.
Não dá para dizer muita coisa. Mas, ao meu amigo, eram provas inequívocas de que a melhor coisa que lhe aconteceu na vida fora aquela noite regada a imagens de “Don Juan de Marco”. As comunidades da ex-amada deram a ele uma sensação curiosa de desforra. Um gosto de vingança porque ela teria se tornado “tosca”, palavra usada pelo meu amigo.
Todavia, se bem o conheço, a alegria explodiu na última comunidade. Da fila VIP. Ele provavelmente acha que ela está falando dele. O orkut é um prato que se come frio. Romeu teria salvado Julieta. Teria mandado um SMS para ela.
Obs. Antes que me considerem um crápula, pedi autorização ao meu amigo para publicar a história sem citar o nome dele. Trato feito. Espero que a nossa amizade resista ao meu ataque de analista de botequim no último parágrafo.
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Palmeiras, 1999, Palmeiras, 2008
Maio 7, 2008 · 4 Comentários
Algumas vezes, as coisas dão tão certo que a desconfiança grassa entre os de temperamento calejado. Mas, por enquanto, vou guardar a pulga na gaveta em vez da orelha. É hora de festejar. E esquecer a pulga, claro. Às vezes as coisas dão certo mesmo.
Foi o que aconteceu domingo, e nos últimos três domingos, quando o Palmeiras venceu o São Paulo e por duas vezes a Ponte Preta e interrompeu um jejum de nove incômodos anos sem ganhar um título.
Ver cinco gols da janela. Depois, sair cantando “The Magical Mistery Tour” com os amigos, como fora combinado muitos anos antes daquele domingo, provavelmente em alguma noite igualmente fria mas muito menos alegre. Gritar “É campeão” com a sua irmã que fez aniversário no mesmo dia do título. Comemorar um título com os mesmos companheiros com os quais lamentou tantas desclassificações. Futebol amolece o coração. Futebol te faz colocar uma bandeira nas costas, se cobrindo com ela. E te tira as palavras quando o principal jpgador do seu time faz um golaço na sua frente.
Há nove anos, quando o Palmeiras ganhou a Libertadores, último título de expressão, eu não conhecia nenhuma das pessoas que estava comigo no domingo passado. Eu morava em Caieiras, ainda não queria ser jornalista, não sabia o que era namorar mais de três meses, ainda não fizera meu primeiro discurso em público (a timidez, para atos com mais de dez pessoas, só foi vencida em 7 de setembro de 1999), era ao mesmo tempo o nerd que jogava basquete, o rebelde filho da coordenadora pedagógica do colégio e me definia politicamente como “socialista não-petista”. Quando o Palmeiras ganhou a Libertadores, naquele junho gelado, a minha classe tinha sete garotos: dois palmeirenses, dois corintianos, dois sãopaulinos e um flamenguista. Eu e meu colega palmeirense penduramos bandeiras do Palmeiras pela sala inteira. Mais tarde, fomos para a aula de processamento de dados (eu fiz colegial técnico). Eu ainda não tinha começado a flertar com uma menina da minha sala: as conversas duraram nove meses e o namoro, três meses, bem depois do título, quando a fila já começara e eu ainda não sabia.
Naquela época, eu ainda não tinha lido Borges. Mas tinha feito a rapa em João Cabral, Lins do Rego, Carlos Drummond, Monteiro Lobato e em alguns livros de teologia. Eu continuo católico até hoje. Também ia pouco ao cinema, que ficava muito longe de casa. Teatro, nem se fala. Eu ainda não podia escrever dois parágrafos decentes em inglês. E estava fazendo um jornal pela primeira vez, de quatro páginas, diagramado no word e impresso em uma gráfica atrás da Igreja de Santo Antônio. Também nunca tinha feito um plebiscito contra a dívida externa, trabalhado em uma campanha política como secretário de organização e escrito em um blog. Internet mal tinha chegado na minha casa. Eu ia pouco a estádios, que também ficavam muito longe. Eu nunca tinha trabalhado. Passava algumas tardes de bobeira vendo o trem passar embaixo da montanha.
Esse texto me deixou muito sentimental. Aqueceu meu coração na madrugada mais fria do ano. É melhor eu parar por aqui. Minha pieguice está ficando incontrolável. E a chance de só eu gostar de ler esse texto é muito grande. Daqui a pouco eu vou acabar contando sobre a concha acústica de Caieiras…
Tomare que o Palmeiras nunca mais entre na fila.
A semelhança entre Roraima e Buenos Aires
Maio 6, 2008 · Deixe um comentário
A reserva Raposa Serra do Sol. Quando eu era criança, índios e Peter Pan habitavam o mesmo planeta, a Terra do Nunca, onde viviam os ianomâmis, a Sininho, o Tio Patinhas, o Cebolinha e o Homem-Aranha.
Quando cresci um pouco, lá pelos 10, 11 anos, vi um “Globo Repórter” sobre índios da Amazônia. Logo depois chegou uma “Superinteressante” a relatar os índios gigantes, que pareciam jogadores da NBA e viviam no norte de Mato Grosso. Resolvi ler mais sobre índios. Ganhei um exemplar sobre as civilizações antigas. Achei os “maias” avançados, tentava imaginar como construíram os templos.
Quando vi uma família de índios, que vivem aos pés do Pico do Jaraguá, em São Paulo, tomei um susto. Era uma reserva sem muito charme. Lembro que uma das minhas tias dizia que sempre levava pães aos índios. Eu procurava as lavouras de subsistência e as tabas. Só achei gente vestida com farrapos.
A minha fase indígena logo passou. Voltou, brevemente, quando eu tinha pouco mais de 17 anos. Eram as comemorações sobre os 500 anos de descobrimento do Brasil. Eu lembro dos protestos dos índios transmitidos pela TV na Bahia e as professoras do colégio falando que, caso índios caíssem na redação do vestibular, seria de bom tom escrever que eles são os primeiros donos da terra do Brasil.
Roraima sempre foi uma incógnita. A gente sacaneia os norte-americanos por acharem que a capital do Brasil é Buenos Aires. Responda com honestidade: Boa Vista é a capital de Roraima ou Rondônia? Qual Estado era território até a Constituição de 1988? I
Hoje, o Jornal da Globo me mostrou a briga ente índios e governo de um lado, arrozeiros e políticos de Roraima do outro, por um pedaço gigante de terra chamado reserva Raposa Serra do Sol. O William Waack fala que não existe conflito entre brasileiros e índios, que somos todos brasileiros. Daí mostra o índio moreno e desnutrido e o arrozeiro gordo, mas castigado pelo sol, imigrante da pobreza gaúcha de meados dos anos 70.
Eu tenho a impressão que eu e o William Waack sabemos o mesmo sobre índios. Especialmente sobre índios e Roraima. Mas eu não dou opinião, o que ainda me confere certa dignidade.
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Antropologia de botequim e uma generalização
Maio 3, 2008 · 1 Comentário
As três observações…
Jogar fandango para os peixes gordos do parque do Ibirapuera é um programa que costuma unir pais, filhos e modelos gaúchas (ainda desconhecidas) que (só) comem fandangos nos apartamentos minúsculos ao lado do parque. Olha como o peixe é fofo.
Andar de blusa no parque é bom. O parque também fica mais cheio quando o vento sopra gélido. As pessoas, ao que parece, se sentem mais confortáveis para fazer exercícios cobertas por panos. Elas não precisam sentir vergonha diante dos torsos esculpidos em academias.
O skate ainda é um esporte bastante popular debaixo da marquise do parque. A patinação também. Esses esportes não morreram com os anos 90. E estão cada vez mais coloridos. Quando eu era adolescente, os praticantes eram quase todos brancos. Hoje, a melhor patinadora do parque era negra. Um juízo de valor: isso é muito bom.
… e a generalização
As avenidas de São Paulo em dia de feriado são como artérias penetradas por um cateter. Quase parece que o sangue flui. Hoje eu me senti muito bem na cidade. Essa luz oblíqua, esse sol quente sem fervilhar as almas, o cheiro de férias dos protetotes solares, a certeza (ainda que frágil) que a pessoa a seu lado não vai sofrer um infarto. O coração fica mais generoso. Hoje eu poderia mandar flores.
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