The Pompéia Times

Palmeiras, 1999, Palmeiras, 2008

Maio 7, 2008 · 4 Comentários

Algumas vezes, as coisas dão tão certo que a desconfiança grassa entre os de temperamento calejado. Mas, por enquanto, vou guardar a pulga na gaveta em vez da orelha. É hora de festejar. E esquecer a pulga, claro. Às vezes as coisas dão certo mesmo.  

Foi o que aconteceu domingo, e nos últimos três domingos, quando o Palmeiras venceu o São Paulo e por duas vezes a Ponte Preta e interrompeu um jejum de nove incômodos anos sem ganhar um título.

Ver cinco gols da janela. Depois, sair cantando “The Magical Mistery Tour” com os amigos, como fora combinado muitos anos antes daquele domingo, provavelmente em alguma noite igualmente fria mas muito menos alegre. Gritar “É campeão” com a sua irmã que fez aniversário no mesmo dia do título. Comemorar um título com os mesmos companheiros com os quais lamentou tantas desclassificações. Futebol amolece o coração. Futebol te faz colocar uma bandeira nas costas, se cobrindo com ela. E te tira as palavras quando o principal jpgador do seu time faz um golaço na sua frente.

Há nove anos, quando o Palmeiras ganhou a Libertadores, último título de expressão, eu não conhecia nenhuma das pessoas que estava comigo no domingo passado. Eu morava em Caieiras, ainda não queria ser jornalista, não sabia o que era namorar mais de três meses, ainda não fizera meu primeiro discurso em público (a timidez, para atos com mais de dez pessoas, só foi vencida em 7 de setembro de 1999), era ao mesmo tempo o nerd que jogava basquete, o rebelde filho da coordenadora pedagógica do colégio e me definia politicamente como “socialista não-petista”. Quando o Palmeiras ganhou a Libertadores, naquele junho gelado, a minha classe tinha sete garotos: dois palmeirenses, dois corintianos, dois sãopaulinos e um flamenguista. Eu e meu colega palmeirense penduramos bandeiras do Palmeiras pela sala inteira. Mais tarde, fomos para a aula de processamento de dados (eu fiz colegial técnico). Eu ainda não tinha começado a flertar com uma menina da minha sala: as conversas duraram nove meses e o namoro, três meses, bem depois do título, quando a fila já começara e eu ainda não sabia.

Naquela época, eu ainda não tinha lido Borges. Mas tinha feito a rapa em João Cabral, Lins do Rego, Carlos Drummond, Monteiro Lobato e em alguns livros de teologia. Eu continuo católico até hoje. Também ia pouco ao cinema, que ficava muito longe de casa. Teatro, nem se fala. Eu ainda não podia escrever dois parágrafos decentes em inglês. E estava fazendo um jornal pela primeira vez, de quatro páginas, diagramado no word e impresso em uma gráfica atrás da Igreja de Santo Antônio. Também nunca tinha feito um plebiscito contra a dívida externa, trabalhado em uma campanha política como secretário de organização e escrito em um blog. Internet mal tinha chegado na minha casa. Eu ia pouco a estádios, que também ficavam muito longe. Eu nunca tinha trabalhado. Passava algumas tardes de bobeira vendo o trem passar embaixo da montanha.

Esse texto me deixou muito sentimental. Aqueceu meu coração na madrugada mais fria do ano. É melhor eu parar por aqui. Minha pieguice está ficando incontrolável. E a chance de só eu gostar de ler esse texto é muito grande. Daqui a pouco eu vou acabar contando sobre a concha acústica de Caieiras…

Tomare que o Palmeiras nunca mais entre na fila.  

 

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