O Orkut é um prato que se come frio
Estimado leitor, amável leitora, depois de algum tempo fora do ar, ainda sob os efeitos do título do Palmeiras (ver post abaixo), decidi brindá-los com uma peça singela sobre os efeitos benéficos da falta de privacidade da internet.
Imagine se Capitu, de “Dom Casmurro”, tivesse Orkut. É a festa de Bentinho. Madame Bovary largaria a senha do e-mail escrita debaixo do travesseiro. Teresa, de “Amor de Perdição” (obra de Camilo Castelo Branco), lutaria por um twitter proibido para falar com o mui estimado Simão. Shakespeare faria pó de Otelo.
O seleto leitor, a exigente leitora, pode-se perguntar aonde quero chegar. Paciência, já explico. Na noite de ontem, um amigo muito querido, de quem vos privo o nome por respeito e consideração (a ele), me enviou, pelo MSN, o perfil de uma garota do orkut. Era uma antiga conhecida dos tempos do ginásio, em Caieiras.
Aos 12 anos, ele era apaixonado por ela, mas fez uma besteira monumental. Foi ao cinema em turma para ver “Don Juan de Marco”. Estava pressionado pelos outros garotos (inclusive por mim) a ficar com uma amiga da amada (as outras pessoas não sabiam que ele gostava dela, que ela gostava dele, nem eles sabiam que um gostava do outro, ele era um mar de timidez). Pois bem. Ele teve certeza de que a amada gostava dele quando a amiga da amada sentou-se ao lado dele no cinema. Os olhos da amada, segundo meu amigo, se tornaram imediatamente amuados e aflitos. Mas ele estava pressionado e tentou uma solução intermediária.
Pediu para ficar com a amiga. Somente até o final do filme. Ela aceitou. Seguiu o plano. Foi uma burrice. Não beijou. Atraiu a raiva da amiga, o desprezo da amada e o sarro eterno de todos nós. A adolescência, percebam, é uma tragicomédia com tons de pastiche, sempre cruel. Que ganha luzes de néon quando a amada espera meu amigo perder um jogo decisivo no basquete para lamentar a derrota de mãos dadas com um rapaz dois ou três anos mais velho do que a gente. Eu não acho nada dele. Meu amigo até hoje o chama de “aquele babaca”.
Pois bem. Meu amigo, com quem falo com freqüência bissexta, mas unidos por essas lealdades que se formam quando temos espinhas no rosto, me chamou no MSN: “OLHA ISSO! É A F……” Eu olhei. Era a F….. Continuava bonita. Meu amigo: “As comunidades dela são toscas”. Não respondi. Fui ver. Pânceps. Descrição: “Pra você que tem aquela pancinha sexy e não consegue e nem quer perdê-la, JUNTE-SE A NÓS!”. A vida é minha, o pobrema (sic) é meu. Homem alto é tudo de bom. Durmo com meu celular do lado. Mulher ñ se entende: se obedece. Vou ligar pra ele e dizer: vsf. A fila anda, mas vc é VIP.
Não dá para dizer muita coisa. Mas, ao meu amigo, eram provas inequívocas de que a melhor coisa que lhe aconteceu na vida fora aquela noite regada a imagens de “Don Juan de Marco”. As comunidades da ex-amada deram a ele uma sensação curiosa de desforra. Um gosto de vingança porque ela teria se tornado “tosca”, palavra usada pelo meu amigo.
Todavia, se bem o conheço, a alegria explodiu na última comunidade. Da fila VIP. Ele provavelmente acha que ela está falando dele. O orkut é um prato que se come frio. Romeu teria salvado Julieta. Teria mandado um SMS para ela.
Obs. Antes que me considerem um crápula, pedi autorização ao meu amigo para publicar a história sem citar o nome dele. Trato feito. Espero que a nossa amizade resista ao meu ataque de analista de botequim no último parágrafo.