Eu nunca tinha ouvido falar de Washington Irving, escritor americano que nasceu 199 anos antes de mim. Li um conto dele hoje, “Rip van Winkle”, traduzido por Monteiro Lobato. Formei uma convicção e fiquei envergonhado da minha ignorância.
É possível escrever livros de auto-ajuda de alto nível. Ainda que eles tenham sido cunhados no século 19 por um autor que tem na sua galeria obras como “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, que virou filme sob as mãos de Tim Burton.
A intenção de Irving não é ajudar o leitor, mas é isso o que ele faz. O conto, de 12 páginas, corre em menos de meia hora. A história versa sobre um homem de profissão indefinida que toma um porre mágico e acorda 20 anos depois.
Foi a melhor coisa que já aconteceu na vida dele. A esposa de Winkle merece essas palavras de Irving: “um temperamento azedo não se edulcora com a idade, e língua afiada é o único instrumento de corte que não fica embotado com o uso”. Ele não tinha profissão definida. Ele gostava dos filhos, mas não sabia como criá-los. A solução de Irving pode encher de inveja os fãs de Charles Bukowski, o velho taradão precursor dos beatniks: beba até esquecer.
Quando Irving volta do longo coma alcoólico de bebidas indígenas, os EUA já haviam se tornado um país independente e ele é homenageado. É eleito a voz de sabedoria em sua aldeia, que ficava ao lado do que hoje é Nova York.
Se você é abstêmio como eu, a lição de Irving continua sendo uma só: esqueçam, crianças, esqueçam. E sumam, sempre que possível. Aumenta a saudade. Até água ajuda.
Obs. Caro amigo que me legou sua história, contada no post abaixo (“O orkut é um prato que se come frio”): leia Irving, leia “Rip van Winkle”. Nossa amizade continuará a mesma.
Obs1: Lula e FHC leram Washington Irving. Mas às vezes eles esquecem.