The Pompéia Times

Longe dela (texto refeito)

Maio 25, 2008 · 4 Comentários

(este texto foi bastante alterado em relação à versão publicada no domingo à noite, era fruto de um plantão. Se você leu o anterior, esqueça-o, por favor)

Você vai até a floricultura. Colhe a flor mais bonita. Caminha por um dia frio. Demora a chegar. Mas ela está de mãos dadas com outro homem. Não é culpa dela, mas os ciúmes escorrem do coração para cada canto do seu corpo. É incontrolável. Ela se esqueceu de você. Ela perdeu a memória. Ela é a personagem principal de “Longe dela”, filme que, enquanto este post era escrito, ainda estava em cartaz em São Paulo. Ela se chama Fiona e tem Alzheimer.

Fiona e Grant foram casados por 45 anos.  Formavam um casal satisfeito, não necessariamente feliz. Tinham uma vida sexual ativa após os 60 anos e chamavam os amigos para jantar. Não se deixavam atormentar pelos problemas do passado.  Aos poucos, ela vai perdendo pedaços da memória. Coloca a frigideira na geladeira, vai esquiar e não sabe voltar para casa, apaga a marca do vinho predileto. Até que decide viver em uma clínica. O marido resiste. Ela insiste. Quer poupá-lo da dor, porque ambos sabem que, um dia, não se sabe quando, ela vai se esquecer dele.

Depois dos 30 dias de isolamento obrigatórios de Fiona, Grant vai visitá-la. A mulher não o reconhece, ou faz que não, difícil dizer. Ela está de mãos dadas com outro paciente, mas seu rosto está esvaziado, sem expressão. Como naquela música de Arnaldo Antunes: “Socorro, não estou sentindo nada”. 

Quando Grant vê a cena, sua face também congela. O filme se torna uma batalha entre o amor de Grant e o (suposto) esquecimento de Fiona. Ele tem ciúmes. Mas do quê? De quem? O ciúme geralmente tem um objeto: a nova relação de uma pessoa querida. Mas quando o ciúme emerge sem objeto, já que Fiona simplesmente não sabia (ou fingia) que um dia amara Grant? O ciúme se torna uma grande planta morta na sala para a qual se olha com resignação. Dói, mas faz parte da paisagem. 

Grant descobriu um território novo, ao menos para mim. A nova terra, ainda sem nome, está entre a indiferença e a obsessão. 

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