(O texto é um pouco longo, mas você, nerd amigo, vai encontrar motivo para se alegrar)
Alguns dos meus amigos costumam dizer que os imbecis tomaram conta do mundo, proposição bastante razoável para quem trabalha com comunicação e é bombardeado diariamente por releases obtusos, notícias bizarras e telefonemas inoportunos. Tanto que tivemos a idéia de criar uma consultoria de bom senso, para aconselhar as pessoas a não tomar decisões estúpidas.
Soube hoje que Mark Bauerlein, professor da Universidade de Emory, nos EUA, acha a mesma coisa. A sua conclusão é que a geração a qual pertenço, os sub-30, é formada pelas pessoas mais estúpidas de todos os tempos. Ele lançou o livro The Dumbest Generation” (“A geração mais estúpida”), cujo subtítulo é bastante óbvio sobre o conteúdo: “Como a era digital embasbaca os jovens americanos e põe em risco nosso futuro. Ou, nunca confie em ninguém com menos de 30″. A tese de Bauerlein é que a tecnologia faz jovens e adultos estudarem menos e provoca a perda de memória cultural, já que os indivíduos recebem tantas informações sobre o presente que vivem em um moto contínuo (é a mesma tese de Umberto Eco), sem nenhuma ligação com o passado.
Claro que o fato de os mais velhos olharem para os mais novos com desdém não é nenhuma novidade. À medida que o tempo passa, vemos o mundo em que crescemos ruir aos poucos. A melhor proteção é atacar a prole recente, e alguns até fizeram piada com isso. Os tropicalistas (Gil, Caetano, Betânia e Gal) formaram os “Doces Bárbaros”. O diretor Denys Arcand olhou para a sua geração, alguns criados em 68, e fez um filme chamado “Invasões Bárbaras”. O problema é que, desta vez, até quem faz parte dessa geração acha que os seus pares são estúpidos.
O escritor francês Martin Page lançou, em 2002, aos 27 anos, o livro “Como me tornei estúpido” (no Brasil, foi publicado em 2005). Conta a história de Antoine, um jovem de 25 anos que tenta desesperadamente se tornar obtuso. Ele chega à conclusão de que só os imbecis são felizes. Seu livro foi um sucesso, traduzido para mais de 19 idiomas. Leiam, é interessante. Mas hoje, aqui em casa, cheguei à conclusão de que ele está errado.
A internet, a abundância de informações, apenas permitiu que mais imbecis se expressassem. Antes, eles existiam, mas não tinham blogs, orkut. O mercado financeiro merecia pouca cobertura. O jornalismo falava de menos assuntos. A TV chegava a poucos lugares. O que existe é a sensação de que há mais imbecis. Eles sempre existiram. Em Caieiras, por exemplo, alguns amigos costumavam fazer algumas apostas entre si: ver a aula de matemática só de cuecas, colocar bombas de cloro no banheiro da lanchonete, encher de água o estojo de caneta do amigo mais bobo (isso tudo, claro, homens acima de 16 anos).
Eu acho, na verdade, que a tecnologia fez bem às pessoas legais. Nerds tímidos, como eu e alguns dos meus melhores amigos, tem agora espaço para falar internet afora e publicar livros desancando os imbecis. Talvez, no futuro, abrir consultorias de bom senso e tirar dinheiro deles.
2 respostas Até agora ↓
Vives // Junho 1, 2008 às 12:41 pm |
Pois é, discordo de cara também. Até porque, na internet, nunca se achou tantas informações sobre tantas coisas sobre o passado, seja lá qual for o assunto. A máxima que se diz sobre o futebol serve também aqui: “A internet é microcosmo da vida”. Isso vale pra quantidade de imbecis.
Francisco A Alves // Junho 1, 2008 às 6:36 pm |
Não penso que a sequência de “O Declínio do Império Americano” o diretor canadense faça comparação entre gerações, no meu entendimento ele faz uma comparação de epocas diferentes, e revela a sua propria geração anterior como um geração derrotada, as invasões bárbaras são a vitoria dos valores que eram combatidos por eles, a intenção é mais como uma autocritica de sua geração, que de certa forma se “vendeu”.
Concordo com voce que agora temos maiores espaços para expressão pois eramos consumidores passivos de uma cultura feita por especialistas em grandes estruturas empresariais, Agora o amador (que pode ser um idiota ou não) ganha seu espaço e concorre com o especialista das grandes estruturas.
Quanto jornalismo tenho duvidas… Eu nunca vi o jornalismo falar de tão poucos assuntos como na recente cobertura do unico assunto do país no ultimo mês.
Penso, que não só agora, mas como sempre, os nerds acabam se dando melhor na vida e sempre vão tirar o dinheiro dos imbecis. Não sei se isso é algo bom, como também não penso que a tecnologia faça bem, ou mesmo que ela faça mal, ou mesmo que ela seja neutra. Mas tecnologia depende em boa parte do que nós fizermos com ela, e até que ponto a exploração da imbecilidade, não se contrapõem a idéia de considerarmos a nos mesmo pessoas legais. Esta esperteza não é ser imbecil também ? Será que não existe uma fábrica invisivel de imbecis, muito bem planejada?
Será que não existe uma imbecilidade invisivel e escondida dentro dos que se consideram não-imbecis… Acho que foi isso que bem ou mal, interpretei do filme do diretor canadense. Desculpe algum exagero . Obrigado por levantar a discussão e pelo espaço.