Eu sei que Winston Spencer Churchill era machista e defendia a posse da Índia pela Inglaterra. Mas eu o admiro, apesar de tudo isso, por causa de discursos como esse:
“The British Empire and the French Republic, linked together in their cause and in their need, will defend to the death their native soil, aiding each other like good comrades to the utmost of their strength. Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We shall go on to the end, we shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our Island, whatever the cost may be, we shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender, and even if, which I do not for a moment believe, this Island or a large part of it were subjugated and starving, then our Empire beyond the seas, armed and guarded by the British Fleet, would carry on the struggle, until, in God’s good time, the New World, with all its power and might, steps forth to the rescue and the liberation of the old.” Ele sabia diferenciar o certo e o errado em tempos sombrios, onde parecia ser mais prudente fazer um acordo com a tirania e garantir a falsa segurança da Inglaterra.
Eu sei e você sabe muito bem que o Edmundo só é admirável dentro de campo. Eu sinto asco das ações extracampo dele, mas não consigo deixar de admirar o talento do Animal por lances como esses:
Agora, a confissão do nerd que sempre fui. Ele tinha cabelos estranhos, as teorias dele são obscuras, não consta que foi um bom pai nem bom marido. Foi a primeira pessoa que eu admirei fora da minha família. Quando eu era pequeno, eu queria ser cientista para tentar ser como o Einstein e entender o universo (eu era bem pretensioso). Dai eu percebi, logo cedo, que não dava, não. A admiração, contudo, continuou.
Eu gosto muito de ler. Muito mesmo. Mas no último ano antes de entrar na faculdade, travei, ao menos na ficção. Não conseguia passar das primeiras páginas de nenhum livro que não fosse minimamente engajado (tonto, eu). Este argentino, Jorge Luis Borges, me devolveu o prazer da leitura em contos como o Aleph. Apesar de ter apoiado a odiosa ditadura argentina. A relação ainda hoje é tensa. Como quem escreve um conto como “o jardim de veredas que se bifurcam” pode ter simpatizado com o um general malvado?
A escola da criança, na cidade de Lund, no sul do país, diz que ele violou o direito dos colegas excluídos da festa e levou o caso para o Parlamento.
Segundo a diretoria, se os convites são distribuídos na escola, não pode haver discriminação.
O pai do menino fez uma reclamação formal junto ao ombudsman parlamentar.
Ele argumenta que as duas crianças não foram convidadas porque uma delas não havia convidado seu filho para a sua festa e a outra havia brigado com ele.
O menino distribuiu os convites durante o horário das aulas e quando o professor percebeu que dois alunos haviam sido excluídos, os convites foram confiscados.
“Meu filho ficou muito magoado”, disse o pai do menino ao jornal sueco Sydsvenskan.
“Ninguém tem o direito de confiscar a propriedade de alguém dessa forma, é como pegar a correspondência de uma pessoa”, acrescentou.
Um veredicto sobre o assunto deve ser anunciado em setembro, em tempo para o próximo ano letivo no hemisfério norte.
COMENTO:
Crianças, tomem cuidado. Países com alto desenvolvimento humano podem causas danos irreparáveis ao bom senso.
Esse negócio de “mulher melancia”, “mulher caqui”, “mulher tangerina”, “mulher laranja” e todo o bestiário frutífero não casam muito bem com a linha editorial desta casa. Porém, enquanto passeava pela internet, me deparei com perfis, vestidos, de algumas das moças: garota melancia, mulher moranguinho e mulher melão dizem o que acham da vida, do mundo, do universo, da política econômica do governo Lula e do aquecimento global.
Este blog resolveu investigar o que as frutas pensam. Não vou colocar fotos, porque este não é um blog para taradões. Neste link, vocês encontram as respostas completas. Abaixo, os headlines mais interessantes.
- Jô Soares é considerado o homem mais inteligente, seguido por Paulo Maluf.
- Ana Paula Padrão, Xuxa e Marília Gabriela empatam no quesito mulher inteligente.
- Depois que a estação da fruta passar, uma quer ser mãe, a outra estudar e a terceira não respondeu.
- A qualidade do homem ideal também não foi consensual. Uma diz que é a sinceridade, a outra, o bom humor, e uma terceira “tem que ser muito atraente”.
É isso. Passou a época das frivolidades. Fecha mais um parênteses.
Admirável leitora, não menos querido leitor, digo para vocês que, durante a noite passada, sonhei com dente. Alguma pessoa me dizia para arrancar o dente, mas eu não conseguia entender o motivo. Até que fui olhar no espelho e o dente estava preto.
Acordei no meio da madrugada. Bati com os dentes assim, sabem? Com intensidade, para forçar a dor a se revelar. Não doeu. Fiquei em dúvida mesmo assim. Voltei a dormir. Eram, talvez, 3 horas da manhã.
Levantei às 7h. Fui até o banheiro. Olhei, nada. Sai, virei no corredor do apartamento, entrei na sala, fui até a cozinha, comi um pedaço de pão integral. Então eu me lembrei do motivo da angústia. Há um dito de tempos imemoriais na minha família. Sonhar com dente é um mau sinal. Apenas quando se conta o sonho é que a maldade se esvanece.
Se não fossem por vocês, que passam por aqui todos os dias, eu ficaria seriamente encucado. Podem ficar tranqüilos, caros leitores supersticiosos. A maldade, segundo conta-se, não se transfere a quem se conta. Apenas some. A você, absolutamente cético, entendo a sua zombaria. Você é um bobão.
A história é sempre a mesma. Liberte seu País. Tire o das garras de um império. Seja herói. Depois, assuma o poder com ampla aprovação popular. Nunca mais saia. Rejeite eleições livres. Alerta para o perigo do “inimigo” (quem mesmo?). Fidel, Mao, os generais argentinos e brasileiros (lembrem-se do comunismo).
Mugabe, no Zimbábue, decidiu abrir as eleições depois de muitos anos no poder. Perdeu no primeiro turno. No segundo, forçou o candidato da oposição a desistir. “Concorrer” não é bem a palavra, é melhor dizer que ele correu sozinho. Hoje, disse que venceu o candidato da oposição com ampla maioria e tomou posse sem avisar ninguém. A história é um pião que gira em falso.
Eso dicen
que al cabo de diez años
todo ha cambiado
allá
dicen
que la avenida está sin árboles
y no soy quién para ponerlo en duda
¿acaso yo no estoy sin árboles
y sin memoria de esos árboles
que según dicen
ya no están?
Geografia (trecho de conto de Mario Benedetti)
“No puede ser, no va a ser, no hay regresso, entendés. Eso es lo que dice. No puedes ser, po mí y por vos. Eso es lo que dice. Todos los paisajes cambiaron, en todas partes hay andamios, en todas partes hay escombros. Eso es lo que dice. Mi geografia, Roberto. Mi geografia también ha cambiado. Eso es lo que dice”.
Desci a rua Augusta a 30 quilômetros por hora. Enquanto eu me esforçava para ler alguma coisa, via os carros parados, um atrás do outro, em disciplinada fila indiana que não parecia ter começo nem fim. E sofria com os gritos e mal criações de uma menininha insuportável.
Ela destratava a mãe com propriedade. Suas juras de “nunca mais quero falar com você se você não me der chocolate” e “sai daqui, chata” contrastavam com a aparência ovina da genitora. Óculos fundos, ar triste e aparvalhado. A menina falava como adulta. A mãe era acuada por seus destemperos.
Naquele mesmo dia, pela manhã, três crianças colocavam uma jovem mãe na roda no ônibus sentido Praça Ramos que peguei perto de casa. Gritavam ordens, chutavam a perna dela. Ela se comportava como uma esfinge. Impávido colosso. Eu gosto muito de crianças. Elas têm de ser protegidas delas mesmas. Crianças não são tartarugas para dispensar educação.
Machado de Assis tem um conto chamado “Pai contra a mãe”. Começa com a descrição dos instrumentos usados para infligir dor aos escravos, para desestimular eventuais fugas. Eram, literalmente, peças pesadas: máscaras de ferro, bolonas de metal, correntes.
Enquanto lia o conto, associei as bolas de ferro às medidas recentes tomadas pelos governos destas terras. São decisões infinitamente mais justas do que manter escravos presos. Mas revelam uma mentalidade parecida.
Primeiro foi o cinto de segurança. Depois, foram as leis de trânsito e o sistema de pontos. O tempo passou, e veio a Lei Cidade Limpa. Agora, é o álcool nas estradas. O bafômetro acusa até o consumo de dois bombons de licor. O argumento é sempre o mesmo: tem de doer no bolso. Muito. A punição tem de ser dura.
Quem faz essas leis segue o mesmo princípio, difuso em vários setores da sociedade brasileira: as pessoas são brutas, medidas educativas não resolvem, contra o jeitinho só o radicalismo legislatório. A Justiça Eleitoral pensa exatamente deste jeito ao multar veículos de comunicação por entrevistar candidatos. Tem em mente que a mídia sempre manipula. Se não for rigorosamente controlada, vai distorcer o sistema e enganar os brasileiros, sempre tidos como burros, ignorantes, que vão para onde o vento sopra.
Claro que as leis funcionaram. A Cidade Limpa é um sucesso. O cinto de segurança e as leis de trânsito também. O álcool ainda está em avaliação e a Justiça Eleitoral foi uma tragédia, atingiu o limite da insensatez ao promover a lei do “não confie nas pessoas, as puna” ao surrealismo regulatório.
Nesse caso, não importa o resultado. Que vida lazarenta a gente leva. Em todo lugar há um troglodita. Inclusive, nós mesmos.
Rodrigo Rodrigues, especialista em teatro da nossa Patotica e fã de Sandor Marai, como eu e o Vives, responde a Luiz Raatz. Como este blog é uma “cidade aberta” (ver Houaiss), direito de palavra ao RR, tal como foi dada ao Raatz. RR defende a leveza do humor contra o peso da história.
“Amigo Luiz, perdão se por acaso ofendi você. Entretanto, o que se faz aqui é o jornalismo incorreto, a picardia, a tiração de sarro pura e simples. As palavras são pesadas e o seu fardo ainda mais porque não consegue tirar o peso das coisas. O humor está aí para isso. Para desmistificar. O humor é a forma mais longa e bacana de romper barreiras e preconceitos.”
Obs. Por coincidência, Vives e RR destacam trechos de livros do Sandor Marai em seus respectivos blogs no momento em que este post é escrito. “As brasas”, livro deste húngaro, é o relato mais cru e comovente que já li sobre amizade _sem adjetivos.
"Parte daquilo em que acreditamos deve ser verdadeiro para que sejamos capazes de pensar, mas isso não significa que não poderíamos estar enganados sobre grande parte do que pensamos" (Thomas Nagel, em "Visões a partir de lugar nenhum", sobre os limites do ceticismo)