Partidos políticos têm problemas com as palavras. Fidel Castro é líder cubano, para a esquerda, e tirano genocida, para a direita. O mensalão é “recurso não contabilizado”, para o governo, e “raiz do governo mais corrupto da história”, para a oposição. Quando os sábios de Fernando Henrique subiam juros, eram neoliberais, para o PT, e prudentes, para o PSDB. Quando os doutores de Lula elevam a taxa, são “cautelosos diante da pressão inflacionária”, para o PT, e “ameaças ao crescimento do país”, para o PSDB.
Não há parcimônia. A tendência é, em vez de chamar a coisa pelo nome, colocar uma expressão no lugar. É bem pouco econômico. Fidel é ditador, mensalão é auto-explicativo, Lula e FHC são pragmáticos. Hugo Chávez é um líder democrata aqui, um populista autoritário acolá. Ele é só um caudilho. É o desperdício de caracteres, o desgaste de cordas vocais, a paciência que se esgota.
As palavras são estapeadas até mesmo quando estão distantes das polêmicas. Cidadania, por exemplo. Hoje, você sabe o quanto um político, militante, ongueiro é vazio pelo número de vezes em que ele diz a expressão “promover a cidadania” em uma conversa. Promover a cidadania significa tanto construir um viaduto quanto distribuir cesta básica quanto trabalhar em alguma coisa de verdade.
Nessa toada, a gente vai se enrolando em expressões, imagens complexas, meandros, em um jardim de veredas que se bifurcam. Mas essa floresta densa e colorida e brilhante e esfuziante serve a interesses bem claros. Pegue os argumentos do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, para defender o desmatamento da Amazônia até o talo. Ele nunca diz isso claramente. Questiona o detalhe da lente do satélite, a terminologia usada para definir desmatamento novo de um não tão novo, cria uma nuvem de palavras. O Carlos Minc é a versão com colete e ecológica do Maggi. Um sujeito que defende prender os bois é porque não quer dar nome aos bois. Ele gosta de expressões de neon. Ele usa as palavras como quem decora uma casa da rua Augusta.
Não é a Amazônia que corre risco. São as palavras. As palavras certas estão mais ameaçadas do que um mico leão dourado.