The Pompéia Times

As palavras certas estão ameaçadas

Junho 4, 2008 · Deixe um comentário

Partidos políticos têm problemas com as palavras. Fidel Castro é líder cubano, para a esquerda, e tirano genocida, para a direita. O mensalão é “recurso não contabilizado”, para o governo, e “raiz do governo mais corrupto da história”, para a oposição. Quando os sábios de Fernando Henrique subiam juros, eram neoliberais, para o PT, e prudentes, para o PSDB. Quando os doutores de Lula elevam a taxa, são “cautelosos diante da pressão inflacionária”, para o PT, e “ameaças ao crescimento do país”, para o PSDB. 

Não há parcimônia. A tendência é, em vez de chamar a coisa pelo nome, colocar uma expressão no lugar. É bem pouco econômico. Fidel é ditador, mensalão é auto-explicativo, Lula e FHC são pragmáticos.  Hugo Chávez é um líder democrata aqui, um populista autoritário acolá. Ele é só um caudilho. É o desperdício de caracteres, o desgaste de cordas vocais, a paciência que se esgota.

As palavras são estapeadas até mesmo quando estão distantes das polêmicas. Cidadania, por exemplo. Hoje, você sabe o quanto um político, militante, ongueiro é vazio pelo número de vezes em que ele diz a expressão “promover a cidadania” em uma conversa. Promover a cidadania significa tanto construir um viaduto quanto distribuir cesta básica quanto trabalhar em alguma coisa de verdade.

Nessa toada, a gente vai se enrolando em expressões, imagens complexas, meandros, em um jardim de veredas que se bifurcam. Mas essa floresta densa e colorida e brilhante e esfuziante serve a interesses bem claros. Pegue os argumentos do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, para defender o desmatamento da Amazônia até o talo. Ele nunca diz isso claramente. Questiona o detalhe da lente do satélite, a terminologia usada para definir desmatamento novo de um não tão novo, cria uma nuvem de palavras. O Carlos Minc é a versão com colete e ecológica do Maggi. Um sujeito que defende prender os bois é porque não quer dar nome aos bois. Ele gosta de expressões de neon. Ele usa as palavras como quem decora uma casa da rua Augusta. 

Não é a Amazônia que corre risco. São as palavras. As palavras certas estão mais ameaçadas do que um mico leão dourado.     

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Uma geração irônica, indiferente e impotente

Junho 4, 2008 · Deixe um comentário

(caro leitor, a minha conclusão não é preconceituosa, mas eu sei que vai parecer. Lembre-se: eu também sou da tal geração Y).

Uma reportagem de domingo passado da Folha de S.Paulo se propôs a esquadrinhar a “Geração Y” (Geração Young) no mercado de trabalho. Pesquisa da consultoria Stanton Chase International ouviu 1,3 mil jovens de 29 anos para baixo, com a única condição de que estivessem trabalhando.

Descobriu que: “Apelidados de geração Y -ou geração milênio-, os futuros líderes empresariais são identificados como ansiosos, preocupados com o equilíbrio entre qualidade de vida e trabalho e interessados em construir uma carreira que não dependa da empresa em que trabalham”. Mais: “No geral, trata-se de jovens atraídos por empregos que lhes permitam sentir-se bem com projetos, crescer rapidamente e ter boa remuneração. Preocupam-se com o ambiente de trabalho e com o tempo livre”. E ainda: “Um dos traços marcantes dos entrevistados é não terem medo de arriscar”.

A primeira menção à geração Y surgiu em 1997. Os marqueteiros, àquela época, já tentavam saber o que nós, nascidos no advento da internet, com pais vindos ao mundo logo depois da 2ª Guerra Mundial, pensávamos e desejávamos consumir. Descobriram que valorizamos mais o humor do que a violência, somos vidrados em séries de TV e reality show, achamos que sem estudo não se vai longe,  repudiamos o preconceito, gostamos mais de ir ao cinema do que namorar, comprar ou dormir, apenas um terço de nós é caucasiano, curtimos bizarrices, desdenhamos as marcas consagradas.

A expressão voltou quando Fidel Castro renunciou ao poder em Cuba, no começo deste ano. Uma moça de 32 anos (até a geração Y chega com atraso ao Caribe) criou um blog chamado Geração Y, que andou criando problemas para o regime porque, ao descrever a rotina de um jovem no país, aplicou humor e sátira aos tons cinzas da política da ilha (há humor em Cuba: uma banda de rock tem uma música sobre  Fidel _e sua saúde_ com o nome “El coma andante”). 

Reportagem, também da Folha, explica: “Yoani define Geração Y: ‘É um blog inspirado em gente como eu, com nomes que começam ou contêm ípsilon. Gente nascida na Cuba dos anos 70 e 80, marcados pelas escolas no campo [todos os secundaristas foram mandados para escolas rurais], os bonecos russos, as saídas ilegais e a frustração. Assim é que convido especialmente Yanisleidi, Yoandri, Yusimí, Yuniesky e outros que arrastam seus ípsilons para que me leiam e me escrevam.’ Geração Y é o blog das pessoas que nasceram ou foram educadas na Cuba hegemonizada pelos burocratas russos, bem antes da queda do Muro de Berlim (em 1989)”.

Neste final de semana, terminei de ler “Os indiferentes”, livro de Alberto Moravia publicado quando ele tinha 22 anos, em 1925. É a primeira obra do escritor italiano. Conta a história de uma família burguesa em decomposição formada por uma mãe lasciva, o amante que prefere a filha à mãe, a filha, que quer uma nova vida sem saber exatamente qual e sai com o amante da mãe, e o filho, Miguel. Ele é indiferente às miudezas, irônico na maneira de se relacionair com os mais velhos, impotente porque sabe o problema mas adia sempre a solução. Ele vê o mundo desabar ao seu redor e não sabe se assiste à queda ou se salva ou se ajuda as pessoas ou se tenta fazer as três coisas ao mesmo tempo. É um dos poucos livros que antecipam com vários anos de diferença, em uma única pessoas, características que só muito tempo mais tarde pesquisas de marketing iriam identificar na Geração Y. Eu recomendo.

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