Dia desses, estava com um amigo vendo futebol em um bar com umas 10 TVs de plasma aqui em São Paulo. Não somos exatamente dois cavalheiros diante de 22 brutamontes correndo atrás de uma bola. Quatro garotas na mesa ao lado, contudo, despejaram mais palavrões por segundo do que qualquer um de nós sonhou fazer _em uma arquibancada, porque em bares a gente se controla. Elas batiam na mesa. Gritavam. Quase descabeladas. Não se pode dizer que eram feias nem bonitas. Estavam bem vestidas. Poderiam passear pelo Shopping Iguatemi.
Depois que o jogo passou, elas retomaram a compostura e foram embora. Antes que o caro leitor ou a cara leitora associe a brutalidade às emoções do futebol, compartilho o relato de uma amiga de redação, que foi ontem ao balé. Duas pessoas comentavam o balé em voz alta. Ela conta que a dupla se portava como um Galvão Bueno da dança. Ela pediu silêncio. Precisou falar três vezes. As pessoas não se tocaram de que ali, naquele momento, deviam desfrutar do silêncio. Ficaram bravas com a bronca. Eu vivi algo parecido na Sala São Paulo. Um homem simplesmente roncou durante o espetáculo. Eu entendo o sono. Mas a cama dele deve ser muito mais confortável do que a cadeira da sala de espetáculos.
O caro leitor, a prezada leitora, pode dizer que tanto o balé quanto a sala de orquestra não são casos tão brutos quanto os xingamentos no bar. Eu digo que sim. Os três casos jogam na mesma categoria. Da mesma falta de categoria, na verdade. Falta educação, um mínimo de civilidade, de respeito ao espaço comum que já se tornou rotina nos cinemas, por exemplo, onde as pessoas se sentem à vontade para conversar ao celular ou colocar o pé na sua cabeça. Parece tudo normal. É a agressão banalizada, que atinge indistintamente todas as classes sociais, não apenas a classe média em ascensão. Experimente pegar um ônibus, o Lapa-Socorro, por exemplo, ou ver onde as pessoas estacionam os carros na rua Amauri, em frente à Enoteca Fasano.
Rimos bastante, mas a nossa alma é de gladiadores. São coisas compatíveis, na verdade. Roma tinha gladiadores, pão e circo. Nenhum povo se faz de feliz impunemente. A bomba sempre estoura, a pressão pelo gozo é pesada. Explodimos uns diantes dos outros. Aos poucos, de maneira grotesta, como se Pasolini fizesse um filme B.