Ontem, no bar, relembrei com alguns amigos dos tempos de escola. Cada um trouxe à baila o que acontecera lá pelos idos dos 12 aos 14 anos. Em Caieiras, pessoas que apanhavam de pequenos ditadores, adolescentes humilhados, violência psicológica. Pessoas que usavam tacos de baseball na perna de outros por diversão, adolescentes que apanhavam na bunda só para serem aceitos por uma turma, um tirano que obrigou o rapaz que apanhara na bunda a colocar o pênis na boca de um desafeto bêbado durante a viagem de formatura.
Sobreviver sem ser vítima nem agressor não era fácil. Jogar basquete ajudava. Comprar a calma passando cola nas provas também. Manter uma indiferença forçada. Ser adolescente em Caieiras nos anos 90 era esperar todo dia ser engolfado por uma selva digna _e juvenil_de “Coração nas Trevas”, do Joseph Conrad. Ainda me admiro como passei (relativamente) incólume.
Essas pessoas hoje são médicas, engenheiras, advogadas. Eu sou jornalista. Sinto uma mistura de orgulho e alívio de não ter de conviver com eles. Mas o espírito do tempo continua ai. Mario Faustino escreveu, em outros tempos, ”tanta violência, mas tanta ternura”. Não sei onde está a ternura. O salve-se quem puder dos anos 90, a frustração acumulada, o individualismo possessivo é uma bomba em gestação. Espero que a gente consiga, de alguma maneira, desarmá-la antes. Isso não costuma acabar bem. Até porque tanta violência não era privilégio de Caieiras.