The Pompéia Times

Só os doentes são normais

Junho 18, 2008 · 1 Comentário

Nossa equipe de reportagem desenvolveu uma investigação ao longo dos últimos 25 anos para descobrir por que as doenças assumiram o papel que, nos últimos mil anos, era reservado à ideologia ou à religião.

Com o fim do comunismo e o crescimento dos agnósticos e ateus, o mundo agora se divide entre os bipolares e os não-bipolares, entre as pessoas com ejaculação precoce e os impotentes, entre os depressivos e os eufóricos, entre os com problemas asmáticos e os com distensão muscular. Nós nos definimos pelas doenças que julgamos ter. O jornal “Valor Econômico”, por exemplo, publicou um texto na semana passada apenas para explicar aos seus leitores por que eles NÃO são bipolares.

Viver em cidades tão poluídas e cinzentas como São Paulo e outras metrópoles espalhadas planeta afora provoca uma série de problemas de saúde, na mente e no corpo. Novas doenças surgiram a partir dos anos 80, como a AIDS. Algumas epidemias parecem que nunca vão desaparecer, como a dengue, a febre amarela e a malária. Desastres naturais em países pobres fazem ressurgir enfermidades, como em Mianmar e na China. O excesso de trabalho e de pressão fez aumentar os casos de depressão. Há um fantasma assolando o mundo. O fantasma da cama, da doença.

Temos meios de combater todos esses males. Cientistas descobrem como controlar os efeitos de doenças sem cura, como a AIDS, ou de curar enfermidades que pareciam incontornáveis, como a tuberculose e a febre amarela. Sem falar nas epidemias. O que surpreendeu no Rio não foi a dengue em si. Foi o fato de que, apesar do número de controles disponíveis, os governos não barraram o contágio em massa. Hoje, a depressão e a bipolaridade são reconhecidas como doenças e há remédio para o tratamento.

As razões para o medo, portanto, são pequenas. É mais fácil, hoje, uma pessoa ser vítima da violência, da pobreza , de um acidente do que de uma doença.

Por que, então, a doença passou a ter um papel tão central nas nossas vidas? Arrisco um palpite. Porque a morte passou a ser muito mais temida do que no passado _ao menos nessa metade do mundo que chamamos de Ocidente e nas suas áreas de influência, como o Japão e algumas áreas da China.

Sentimos que a morte nos privará das muitas coisas que estão acontecendo ao mesmo tempo agora. Deixaremos de consumir novos produtos, de viajar, de mudar de emprego, roupa, casa, de ver os filhos crescer. Poucas pessoas, ou grupos de pessoas, hoje, morreriam por um ideal nos EUA, Europa, Brasil, Japão (excluo o mundo islâmico por motivos óbvios): o senso comum diz que todo ideal é relativo, pode ser bom ou não, é incerto. A “sabedoria convencional” ensina que a vida depois da morte pode existir ou não. O problema é a palavra “pode”, nas duas frases. Enfraquece qualquer crença.

Com o fim dos tempos das grandes idéias, seculares ou religiosas, queremos prolongar ao máximo a nossa estada no único lugar em que a maior parte das pessoas acredita existir de verdade: este mundo. É a vitória de Descartes, gostemos ou não: Penso, logo existo. Ser doente, ou cogitar ter alguma doença, é condição para ser uma pessoa normal. Isso não é um julgamento. Infelizmente, é só uma constatação

Categorias: filosofia
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