Leitores deste blog protestaram contra o texto “A Eurocopa acordou meio totalitária”.
Luiz Raatz, ex-editor de internacional do iG, tem um argumento interessante. Sem pedir permissão a ele, reproduzo abaixo. Depois, comento.
“É complicado vincular um torneio de futebol a episódios que envolveram turcos e alemães há 50 e há 100 anos. Por acaso portugueses não massacraram milhões de índios no Brasil durante a colonização? Os colaboracionistas nazistas croatas também têm um passado negro, assim como os fascistas italianos de Mussolini.
Pelo seu raciocínio, praticamente todos os países que avançaram às quartas da Euro não merecem torcida por conta de um passado de assassinatos e violência. Não é bem assim.
É impressionante como na hora de falar da Alemanha todo mundo coloca a segunda guerra mundial na roda. Isso incomoda a todos os alemães e descendentes, como eu, cuja família nada tem a ver com isso, foi perseguida e se envergonha do Holocausto.
E é mais complicado ainda chamar um jogo de festival de genocidas em campo, como no comentário acima. Quem é racista, cara pálida?”
Meu argumento
O historiador inglês Tony Judt, no livro “Pós-guerra, uma história da Europa desde 1945″, conta como os franceses, para ficar em um único exemplo, rebolaram o quanto puderam para negar seu passado nazista. Até hoje se conhece pouco sobre o que Mitterrand, o presidente socialista, fez quando trabalhou na república colaboracionista de Vichy. Os livros acadêmicos logo após a guerra enfatizaram muito mais a resistência francesa do que seu papel na destruição de pessoas. Aconteceu a mesma coisa na Itália. Primo Levi sofreu horrores quando voltou ao País. As pessoas achavam um absurdo que ele, judeu, se achasse mais vítima do que elas, que também sofreram na guerra.
Tendemos a tentar esquecer o que é desagradável. Eu sou descendente de italianos. Até hoje, vira e mexe, alguém lembra do fascismo que assolou o País dos meus antepassados (e do Berlusconi no presente). É difícil responder. Isso me incomoda também. O que raios eu tenho a ver com o fascismo?
Raatz, obviamente, não defende o esquecimento dos horrores. É um humanista. Cada País, óbvio, tem algo do qual se envergonhar. O ponto que ele levanta, a meu ver, não é do esquecimento, é muito mais importante: os cidadãos desses países que cometeram os horrores mais recentes e seus descendentes sofrem até hoje. Alguns foram perseguidos, mas ainda assim respondem por acontecimento os quais seus antepassados se esforçaram para que não tivessem acontecido. Não é justo com eles, claro.
Portanto, é possível falar de uma responsabilidade coletiva, que atravessa gerações ? A resposta não é fácil. De um lado, a tentação do esquecimento e da relativização do sofrimento alheio. Do outro, imputar sofrimento a indíviduos que, objetivamente, não tiveram nada a ver com isso. Infelizmente, diante de tão pouco tempo após tantos horrores, ainda estamos presos a algum dos dois extremos.
