The Pompéia Times

A Eurocopa acordou meio totalitária – a resposta

Junho 25, 2008 · Deixe um comentário

Leitores deste blog protestaram contra o texto “A Eurocopa acordou meio totalitária”.
Luiz Raatz, ex-editor de internacional do iG, tem um argumento interessante. Sem pedir permissão a ele, reproduzo abaixo. Depois, comento.

“É complicado vincular um torneio de futebol a episódios que envolveram turcos e alemães há 50 e há 100 anos. Por acaso portugueses não massacraram milhões de índios no Brasil durante a colonização? Os colaboracionistas nazistas croatas também têm um passado negro, assim como os fascistas italianos de Mussolini.

Pelo seu raciocínio, praticamente todos os países que avançaram às quartas da Euro não merecem torcida por conta de um passado de assassinatos e violência. Não é bem assim.

É impressionante como na hora de falar da Alemanha todo mundo coloca a segunda guerra mundial na roda. Isso incomoda a todos os alemães e descendentes, como eu, cuja família nada tem a ver com isso, foi perseguida e se envergonha do Holocausto.

E é mais complicado ainda chamar um jogo de festival de genocidas em campo, como no comentário acima. Quem é racista, cara pálida?”

Meu argumento

O historiador inglês Tony Judt, no livro “Pós-guerra, uma história da Europa desde 1945″, conta como os franceses, para ficar em um único exemplo, rebolaram o quanto puderam para negar seu passado nazista. Até hoje se conhece pouco sobre o que Mitterrand, o presidente socialista, fez quando trabalhou na república colaboracionista de Vichy. Os livros acadêmicos logo após a guerra enfatizaram muito mais a resistência francesa do que seu papel na destruição de pessoas. Aconteceu a mesma coisa na Itália. Primo Levi sofreu horrores quando voltou ao País. As pessoas achavam um absurdo que ele, judeu, se achasse mais vítima do que elas, que também sofreram na guerra.

Tendemos a tentar esquecer o que é desagradável. Eu sou descendente de italianos. Até hoje, vira e mexe, alguém lembra do fascismo que assolou o País dos meus antepassados (e do Berlusconi no presente). É difícil responder. Isso me incomoda também. O que raios eu tenho a ver com o fascismo?

Raatz, obviamente, não defende o esquecimento dos horrores. É um humanista. Cada País, óbvio, tem algo do qual se envergonhar. O ponto que ele levanta, a meu ver, não é do esquecimento, é muito mais importante: os cidadãos desses países que cometeram os horrores mais recentes e seus descendentes sofrem até hoje. Alguns foram perseguidos, mas ainda assim respondem por acontecimento os quais seus antepassados se esforçaram para que não tivessem acontecido. Não é justo com eles, claro.

Portanto, é possível falar de uma responsabilidade coletiva, que atravessa gerações ? A resposta não é fácil. De um lado, a tentação do esquecimento e da relativização do sofrimento alheio. Do outro, imputar sofrimento a indíviduos que, objetivamente, não tiveram nada a ver com isso. Infelizmente, diante de tão pouco tempo após tantos horrores, ainda estamos presos a algum dos dois extremos. 

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Meu chuveiro, o Zimbábue e os acessórios

Junho 25, 2008 · 1 Comentário

Está um frio de lascar em São Paulo. Eu preciso comprar um chuveiro novo. O meu está assim: se eu abro um pouco demais, ele esfria, se abro um pouco menos, ele esfria. Preciso encontrar um ponto mágico, para não passar frio, todo dia. E ele às vezes vai embora, só com a pressão da água que passa pela parede.

Essa é a razão individualista. A outra é porque nesse “intermezzo” vai muita água embora.

Não sou lá um sujeito muito afeito à onda verde. Acho que devemos cuidar do planeta para que a gente possa continuar vivendo neles, não para ter árvores para abraçar. Já zombei sem piedade de um sujeito que disse que as tartarugas merecem mais dinheiro do que os pobres da África, “porque os pobres da África vão continuar se reproduzindo, mas as tartarugas, não” (vejam a que ponto chegamos). Classifico Blairo Maggi e seu argumento de que devemos desmatar a Amazônia na categoria “pessoas que estão no lugar errado na hora errada, idéias que se escondem em frases pomposas”. Mas simplesmente porque a Amazônia não é um lugar para se fazer agricultura. De pé, a floresta é mais útil. Até para as pessoas que estão lá. Elas já sabem como fazer a floresta produzir. A regra é sempre a mesma: entre as árvores e as pessoas, as pessoas.

Hoje, as pessoas falam mais de árvores do que do Zimbábue, país em que os partidários de Mugabe, o ditador de plantão, quebram as pernas dos bebês para punir os pais, opositores. Mais, aqui. É um horror.

zimbábue

Mas ver tanta água indo embora assim, por nada, desperta o Al Gore e a Marina Silva que existem dentro de mim. Menos o Carlos Minc. Eu não quero prender o boi. Não sou um careca cabeludo. Não uso colete. Mas tenho um amigo que usa. Ele também não é fã do Carlos Minc assim. Ele prefere o Tévez.

Esse meu amigo, como eu, acha que, às vezes, a gente perde de vista o fundamental e se arvora no acessório. Os ambientalistas ainda têm um longo caminho a percorrer até se tornarem humanistas.

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