The Pompéia Times

As crianças merecem proteção delas mesmas

Junho 27, 2008 · Deixe um comentário

Desci a rua Augusta a 30 quilômetros por hora. Enquanto eu me esforçava para ler alguma coisa, via os carros parados, um atrás do outro, em disciplinada fila indiana que não parecia ter começo nem fim. E sofria com os gritos e mal criações de uma menininha insuportável.

Ela destratava a mãe com propriedade. Suas juras de “nunca mais quero falar com você se você não me der chocolate” e “sai daqui, chata” contrastavam com a aparência ovina da genitora. Óculos fundos, ar triste e aparvalhado. A menina falava como adulta. A mãe era acuada por seus destemperos.

Naquele mesmo dia, pela manhã, três crianças colocavam uma jovem mãe na roda no ônibus sentido Praça Ramos que peguei perto de casa. Gritavam ordens, chutavam a perna dela. Ela se comportava como uma esfinge. Impávido colosso. Eu gosto muito de crianças. Elas têm de ser protegidas delas mesmas. Crianças não são tartarugas para dispensar educação.

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Prazer, eu sou um troglodita

Junho 27, 2008 · Deixe um comentário

Machado de Assis tem um conto chamado “Pai contra a mãe”. Começa com a descrição dos instrumentos usados para infligir dor aos escravos, para desestimular eventuais fugas. Eram, literalmente, peças pesadas: máscaras de ferro, bolonas de metal, correntes.

 

Enquanto lia o conto, associei as bolas de ferro às medidas recentes tomadas pelos governos destas terras. São decisões infinitamente mais justas do que manter escravos presos. Mas revelam uma mentalidade parecida.

Primeiro foi o cinto de segurança. Depois, foram as leis de trânsito e o sistema de pontos. O tempo passou, e veio a Lei Cidade Limpa. Agora, é o álcool nas estradas. O bafômetro acusa até o consumo de dois bombons de licor. O argumento é sempre o mesmo: tem de doer no bolso. Muito. A punição tem de ser dura.

 

Quem faz essas leis segue o mesmo princípio, difuso em vários setores da sociedade brasileira: as pessoas são brutas, medidas educativas não resolvem, contra o jeitinho só o radicalismo legislatório. A Justiça Eleitoral pensa exatamente deste jeito ao multar veículos de comunicação por entrevistar candidatos. Tem em mente que a mídia sempre manipula. Se não for rigorosamente controlada, vai distorcer o sistema e enganar os brasileiros, sempre tidos como burros, ignorantes, que vão para onde o vento sopra.

 

Claro que as leis funcionaram. A Cidade Limpa é um sucesso. O cinto de segurança e as leis de trânsito também. O álcool ainda está em avaliação e a Justiça Eleitoral foi uma tragédia, atingiu o limite da insensatez ao promover a lei do “não confie nas pessoas, as puna” ao surrealismo regulatório.

 

Nesse caso, não importa o resultado. Que vida lazarenta a gente leva. Em todo lugar há um troglodita. Inclusive, nós mesmos.

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O peso e o humor

Junho 27, 2008 · 1 Comentário

Rodrigo Rodrigues, especialista em teatro da nossa Patotica e fã de Sandor Marai, como eu e o Vives, responde a Luiz Raatz. Como este blog é uma “cidade aberta” (ver Houaiss), direito de palavra ao RR, tal como foi dada ao Raatz. RR defende a leveza do humor contra o peso da história.

“Amigo Luiz, perdão se por acaso ofendi você. Entretanto, o que se faz aqui é o jornalismo incorreto, a picardia, a tiração de sarro pura e simples. As palavras são pesadas e o seu fardo ainda mais porque não consegue tirar o peso das coisas. O humor está aí para isso. Para desmistificar. O humor é a forma mais longa e bacana de romper barreiras e preconceitos.”

Obs. Por coincidência, Vives e RR destacam trechos de livros do Sandor Marai em seus respectivos blogs no momento em que este post é escrito. “As brasas”, livro deste húngaro, é o relato mais cru e comovente que já li sobre amizade _sem adjetivos.

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