Machado de Assis tem um conto chamado “Pai contra a mãe”. Começa com a descrição dos instrumentos usados para infligir dor aos escravos, para desestimular eventuais fugas. Eram, literalmente, peças pesadas: máscaras de ferro, bolonas de metal, correntes.
Enquanto lia o conto, associei as bolas de ferro às medidas recentes tomadas pelos governos destas terras. São decisões infinitamente mais justas do que manter escravos presos. Mas revelam uma mentalidade parecida.
Primeiro foi o cinto de segurança. Depois, foram as leis de trânsito e o sistema de pontos. O tempo passou, e veio a Lei Cidade Limpa. Agora, é o álcool nas estradas. O bafômetro acusa até o consumo de dois bombons de licor. O argumento é sempre o mesmo: tem de doer no bolso. Muito. A punição tem de ser dura.
Quem faz essas leis segue o mesmo princípio, difuso em vários setores da sociedade brasileira: as pessoas são brutas, medidas educativas não resolvem, contra o jeitinho só o radicalismo legislatório. A Justiça Eleitoral pensa exatamente deste jeito ao multar veículos de comunicação por entrevistar candidatos. Tem em mente que a mídia sempre manipula. Se não for rigorosamente controlada, vai distorcer o sistema e enganar os brasileiros, sempre tidos como burros, ignorantes, que vão para onde o vento sopra.
Claro que as leis funcionaram. A Cidade Limpa é um sucesso. O cinto de segurança e as leis de trânsito também. O álcool ainda está em avaliação e a Justiça Eleitoral foi uma tragédia, atingiu o limite da insensatez ao promover a lei do “não confie nas pessoas, as puna” ao surrealismo regulatório.
Nesse caso, não importa o resultado. Que vida lazarenta a gente leva. Em todo lugar há um troglodita. Inclusive, nós mesmos.
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