The Pompéia Times

Entradas do Julho 2008

Sandro Silva é meu vizinho

Julho 31, 2008 · 1 Comentário

Sandro Silva fez o gol do Palmeiras contra o Flamengo. Eu moro no sexto andar, ele, no 15º. Quando eu era pequeno, sempre quis morar perto de algum jogador de futebol que fosse ídolo no meu time. O Sandro Silva não é o Valdívia, mas marcou o tento da vitória.

Nessas horas me sinto como o Valentim, do filme argentino. Ele não é vesgo, o mundo é que está inclinado. Ele tem pai e mãe, conhece os dois, mas mora com a avó. Seu melhor amigo é o pianista judeu da esquina. Ele quer ser astronauta e anda com pesos no pé pela casa e usa um pijama como roupa espacial e tenta colocar válvula na TV e a avó vive reclamando que não tem dinheiro para fazer nada (ela está certa).

Sabe quando você anda pela rua e escuta uma trilha sonora que só você ouve? Este filme é assim, passa por esses momentos, você cantarola, eu cantarolei no prédio o hino do Palmeiras depois do gol do Sandro Silva, você olha ao lado e vê que tem alguma coisa boa, alguma brisa leve, soprando e aliviando a cabeça do peso dos momentos aborrecidos da existência. Às vezes a vida tem algumas coisas fantásticas.

Categorias: Futebol
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A lei seca dos abstêmios

Julho 28, 2008 · 1 Comentário

Bebo meia taça de vinho e já sinto um sentimento de carinho incontrolável pelas pessoas ao meu lado. Bebo pouco, ou quase nada.

Sou, desta forma, contra o uso abusivo de bafômetros para fazer valer a lei seca. Não gosto que o Estado se assanhe a me obrigar a produzir provas contra mim mesmo. Acho importante que o direito coletivo de extirpar os malucos bêbados seja severamente aplicado, mas não gosto de ver o Estado tão assanhado em, por uma boa causa, ampliar seus poderes coercitivos.

Sou contra os bêbados ao volante. Mas acho que enfiar algo na boca das pessoas não é uma boa maneira de amadurecer um país. É a mesma lógica que permite à polícia fazer uma blitz com o trêsoitão na sua cabeça ou a qual, nos EUA, justica a o “tira tudo”, até as cuecas, para evitar um atentado terrorista. Esse tipo de medida me assusta porque fico imaginando se algo como o 11 de setembro tivesse acontecido no Brasil: não quero nem imaginar que tipos de medidas preventivas a gente ia adotar. O Bush morreria de inveja da nossa Guantánamo.

Por que não usar o bom senso? Por que não fazer blitz próximo a bares para ver o sujeito que já sai bêbado, antes que ele possa sequer dirigir seu carro? Dá mais trabalho, mas evita que o cara sequer dirija e torna o país menos bruto.

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Kassab vacila

Julho 27, 2008 · Deixe um comentário

Algumas vezes eu tento mimetizar o garoto que sempre ganha o jogo de investigações de um dos contos de Edgar Allan Poe. Para vencer o adversário, o menino imita as expressões faciais do oponente para advinhar como a outra pessoa pensa.

Esses dias, fiz isso com o Kassab. Isso explica minhas olheiras, irritação e ansiedade. O prefeito tem máquina municipal, tem tempo de TV, exposição diária nos telejornais, mas não sobe um misério ponto nas pesquisas de intenção de voto. Para piorar, ainda aparece como um Chapolin que tenta manipular resultados do Datafolha. A minha incursão pelo mundo de Kassab me mostrou ainda outra coisa: o prefeito não tem tomado suas doses diárias de fosfosol. Suas explosões de destempero trazem lá de 2006 a imagem do homem que grita “Vagabundo!”

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Chupa, Bernardinho

Julho 26, 2008 · 1 Comentário

O nacionalismo é uma boa maneira de justificar atrocidades. A Europa, por exemplo, era um grande Maranhão depois do fim do império romano: irrelevante, violenta e toda misturada (talvez com exceção da Islândia, que de tão isolada não tem nem palavra para tênis_eles usam algo como ”sapato de passeio”). 

Mesmo com o nascimento dos Estados nacionais, como Portugal e Holanda, até hoje as fronteiras dos países do Velho Continente são tão sólidas quanto gelatina no Piauí. Lembram do Kosovo? E Andorra? Países nascem e desaparecem. A Prússia era uma das principais potências do século 19. Hoje, não existe mais (deu lugar à Alemanha).

O exemplo vale para outra cultura de outro lado do mundo. O imperador chinês que construiu a Muralha da China mandou queimar todos os livros (todos mesmo) que tivessem sido escritos antes de ele assumir o trono, tamanha demonstração de que o Estado era visto como propriedade de um soberno. O povo vivia lá, como as formigas vivem na sua casa: se não dessem trabalho, poderiam continuar vivas. Mas ainda nesta nossa era governos e indivíduos clamam pelo direito de limitar liberdades individuais e até mesmo matar as pessoas que simplesmente nasceram em outras terras e falam outra língua.

Como a Itália de Berlusconi, que decidiu dar um “pega rapaz” nos imigrantes ilegais, com direito a confisco de bens, expulsão sumária e penas diferentes, ainda que para o mesmo crime, aplicadas a italianos e imigrantes ilegais: os últimos pegam mais anos de xilindró. Uma medida que tem a mesma sutileza das leis raciais da Alemanha nazista e as decisões turcas antes de empreender o genocídio dos curdos. Ou o Zimbábue de Mugabe. Ele sempre evoca a luta contra os ingleses, apesar do título que ganhou da rainha.

Pois é: torci para os EUA contra o Brasil na Liga Mundial de Vôlei. Desesperadamente. Sem culpa. Tchau, Bernardinho. Adorei os 3 sets a 0. Que mané transformar suor em ouro. Eu não gosto do Bernardinho, não gosto de frases motivacionais, não gosto, não tem jeito. Acho vulgar para caramba. E se tem uma luta que vale a pena é a batalha contra a vulgaridade.

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Estou de mau humor

Julho 26, 2008 · Deixe um comentário

Cá estou, com a atenção voltada à CBN. O ouvinte reclama da greve dos Correios, de que não recebeu nenhuma carta embora a paralisação tenha acabado faz algum tempo. Esbajando indelicadeza, é de se perguntar: caro ouvinte, deixe a arrogância de lado. Talvez ninguém escreva a quem manda carta ao jornal e peça ajuda pela rádio.

***

Não gosto de começar textos com aspas, por isso que esta frase é só um meio de contemplar o meu tique nervoso. “Quem inventou a aposentadoria não tinha o que fazer”, diz uma mulher com o rosto tão cheios de marcas quanto o chão quebradiço do sertão de Pernambuco. Ela está com as roupas gastas, furadas. “Frio sem poluição é bom, o ruim é frio com poluição.” ”Quero morrer trabalhando com 101 anos.” “Se não trabalho, o osso enferruja.” Ela estava esperando o Terminal Capelinha, às 8h e pouco, para voltar para casa após uma madrugada de trabalho. Nós, os pobres, somos viciados em trabalho. Porque talvez não tenhamos nada melhor a fazer, mesmo.

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Djavan para Prêmio Nobel da Paz

Julho 26, 2008 · Deixe um comentário

Não sou menina, mas adoro chocolate. Desço as escadas do trabalho e viro à esquerda rumo à Revistaria da Amauri, onde compro guloseimas e passeio com os olhos pelas revistas gringas que se esparramam pelas prateleiras. Há sempre algum gringo ou alguém que parece ser rico ou famoso (na rua há congestionamento de ferraris) por lá, às vezes folheando algum livro espalhado pela estante como “comer, rezar, amar” ou o “segredo”, que sempre dão assunto enquanto se toma um vinho mais velho do que você. Como não tomo vinhos mais velhos do que eu, não preciso comprar esses livros.

O lugar parece uma sucursal daquela rádio “Antena 1″. Tanto é que um rapaz fisicamente parecido com um pitbull deixou de lado a violência que escapava dos seus poros para pedir gentilmente ao vendedor: “Você me vê o novo CD do Djavan?”. O mestre alagoano, autor de obras como “tudo que Deus criou foi pensando em você, Ele fez a Via Láctea, fez os dinossauros”, não é chocolate, mas amolece os corações. Djavan para Prêmio Nobel da Paz.

Categorias: humanidade
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O grande Gatsby

Julho 25, 2008 · Deixe um comentário

Talvez isso já tenha acontecido na sua família. O avô é liberal, o pai é careta e o neto é mais ou menos liberal, e vice-versa e versa-vice. A semelhança entre as gerações se acentua à medida que o tempo passa. O filho tenta se contrapôr ao pai e chega ao avô.

Enquanto lia “O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, obra sobre fortunas rápidas e corações partidos, indiferença como ideologia e desprezo como charme, atravessei a maré de preocupações da minha geração. Com 83 anos de idade, o livro fala mais a mim do que as obras da geração 68. Conta uma história de amor, poder e miséria, temas que permeiam os séculos. Podem não ter feito muito sentido às pessoas do pós-guerra, que receberam um mundo estraçalhado.

Mas para nós, que vivemos em um mundo que tenta reconstruir algum sentido, valem, e valem muito. Mostram que algumas coisas, apesar do relativismo e da incerteza, são eternas. Suas dores também.

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Amigos distantes

Julho 24, 2008 · Deixe um comentário

Um dos meus melhores amigos é Mauricio Savarese, cujo blog pode ser lido aqui. A qualquer momento, ele deve estar pousando em Pequim. Vai cobrir as Olimpíadas com a cara, a coragem e o talento. Outro grande amigo já está lá, o Corazza. Cruzou o oceano para trabalhar na Radio China. São duas pessoas que merecem ser lidas. São pessoas de valor. Há algumas palavras que perdem o viço com o tempo. Menos quando aplicadas a algumas pessoas. Corazza e Savarese são dignos e honrados. Eles fazem falta por aqui.

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Batman

Julho 24, 2008 · 1 Comentário

Peguei o ônibus no Piaui às 19h30 de terça-feira. Cheguei em Fortaleza às 3h30 da quarta-feira e pulei em um táxi até o aeroporto. Esperei até às 6h. Respirei em São Paulo às 10h. Às 11h40, já estava no trabalho.

E às 21h, tchan tchan tchan tchan. Do Piauí para Gotham City. Fui ver o Batman, que segue a linha do super herói no divã, cheio de dúvidas, incertezas e que às vezes se dá mal. Muito mal.

Até ai, não foge muito da trilogia do Homem Aranha, especialmente o terceiro episódio quando o Spider veste a roupa preta e dança com cara de tremendão, a la Roberto Carlos descendo a rua Augusta a 120 quilômetros por hora. Na década de 2000, os super heróis foram apresentados a Sigmund Freud. O que lhes conferiu um curioso grau de humanidade e deixou os fãs de quadrinhos (como eu) mais confortáveis para ir ao cinema sem encarar nenhum nariz torcido da esquerda acadêmica. ”Você gosta de quadrinhos?”, perguntam os nefelibatas, com cara de horror. Dou a resposta-padrão. “Gosto, especialmente desta safra de heróis complexos”. O segredo é a palavra complexo. Ela desentorta qualquer nariz uspiano.

Pois bem. A diferença de Batman para outros filmes de super heróis é que o vilão é incomparavelmente mais… complexo. O Coringa é a estrela do filme. Porque ele não é apenas malvado, como qualquer vilão de quadrinhos. Ele é anarquicamente malvado. Tanto que queima uma pilha de dinheiro em uma das cenas diante de uma quadrilha de mafiosos (só louco queima dinheiro _mas Osama BIn Laden não é milionário e queimou dinheiro também, de outra forma?). Ele é um vilão dos nossos tempos. Um terrorista que condenamos pelos atos, mas cujas intenções não conseguimos compreender.

Sai do cinema direto para a minha cama. Esgotado pela viagem, mas contente porque vi um filme que você também deve ver.

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Pequenas notas sobre o Piauí (e como entrar ou sair do Estado)

Julho 24, 2008 · 3 Comentários

O litoral do Piaui tem mais ou menos 60 quilômetros. É um litoral produtivo, porque, embora pequeno, possui um dos poucos deltas do mundo (em Parnaíba), mistura vegetação exuberante com dunas de areias claras, une calor intenso e uma ventania tão forte que deixa as árvores em constante movimento. Uma, inclusive, sofreu tanto com o sopro do mar que parece o Pica-Pau descendo as cataratas. Eu também me aliviei.

Foi a essa réstia preciosa de areia que cheguei após quase quatro horas de avião na ponte São Paulo-Fortaleza e mais oito horas de Fortaleza até Parnaíba. É um lugar onde, ao comprar a passagem de volta, o cara do guichê pediu meu passaporte e não acreditou muito em mim quando eu disse que era brasileiro (vocês já devem imaginar que sou do tipo que usa protetor 30 desde os 10 anos de idade. Todo dia). Todavia, apresentei a identidade. Fiquei tão fora do tempo e do espaço que só soube da morte de Dercy Gonçalves nesta quarta-feira. Também demorei a saber como acabou Palmeiras e Goiás. Aquele vento no meu rosto e a rede na varanda…

Não consigo nem fazer piada com o Piaui. Travei. Mesmo na volta, mesmo fazendo graça com outro Estado, o Ceará. Parei em uma cidade cearense chamada Barroquinha onde há um aparelho de televisão de 14 polegadas no meio da praça principal. Isso que é TV Pública. Não vou zombar do Ceará. Sem ele eu não chegaria à terra de Mão Santa e Heráclito Fortes. Vou me manter sóbrio. Deixo minha homenagem ao Piauí. Não vou falar que um político chamdado Jaime dizia que “Barroquinha não pode parar”. Não é justo com a delicadeza do Ceará, que me conduziu tão bem (mesmo sem me dar sinal de celular).

O Piaui é o Estado que fez o meu stress ir embora. Foi junto com as ondas daquele mar tão azul, mas tão azul, que nem parece justo que o Piaui seja tão pobre. Agora eu entendo o Mario Faustino, poeta que nasceu no Piaui: tanta violência, mas tanta ternura.

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