Era um dia com sol alto. Eu fui até o dentista, que ficava na Lapa. Uma hora de viagem, ônibus ladário (aqueles com um vidrão alto, a gente chamava os nossos amigos com testas muito extensas de ladário _depois notei que eles eram os primeiros a ficar carecas). Meu pai me esperava no ponto final, um pedaço de madeira fincada em uma rua cheia de lixo, barracas de ambulantes e fábricas com vidros ao lado da estação de trem. Cruzamos um túnel escuro que cheirava a urina, chegamos ao dentista, fizemos exatamente o mesmo percurso para voltar. Havia uma estátua na praça em frente ao prédio do meu dentista. Estava quebrada.
O caminho mais longo na volta era mais claro, passávamos por cima da ponte, tínhamos uma visão que abrangia quase até a Freguesia do Ó e o pôr-do-sol, mas estávamos com pressa. Com tanta pressa que desistimos do ônibus. Pegamos o trem, que era muito mais caro, e depois a gente ainda tinha de pegar um ônibus em Caieiras. Saia quase o dobro do preço do ladário, mas era meia hora mais rápido.
Em Caieiras, o sol prestes a se por, uma meia dúzia de pessoas vestidas de vermelho com estrelas no peito: alguns barbudões e umas mulheres feias. Não sei descrever como, mas elas eram incrivelmente feias. Eu tinha medo delas. Meu pai ria e dizia para eu não temer, eles eram “do bem”. Eles distribuíam panfletos. Não peguei nenhum.
Chegamos em casa, sentamos na sala. Eu, meu pai e minha mãe. Minhas duas irmãs menores estavam dormindo. A Fê tinha cinco anos e a Dedê contava com poucos meses de vida. A votação do impeachment já tinha começado. Meu pai e minha mãe comemoravam os votos pela saída de Collor com um sorriso curto e excesso de discrição. Eu sabia que eles queriam a saída do presidente, mas não entendi porque eles não comemoravam mais. Oras, quando saía gol do Palmeiras a gente sempre gritava alto. Meu pai me segurava pela cintura e me balançava como um troféu quando saía gol do Palmeiras. Comemoração era comemoração. Por que não festejar o fim do presidente que deixava lixo na rua e estátua quebrada?
Quando acabou a votação, meus pais trocaram olhares e falaram: filho, é um momento histórico. Para mim, história era calendário. Eu corri até a cozinha e fiz uma bolona no calendário. Pronto, eu tinha acabado de fazer história.
Voltei para a sala e falei para os meus pais que eu tinha “feito história”. Eles fizeram uma careta. Duvidaram de mim. Eu apontei a cozinha. Foram os dois. Um pouco de silêncio, até que eles riram, enfim eles riram. Eu tinha feito história torta. Marquei a data do impeachment do Collor no lugar errado do calendário. Fiquei muito decepcionado.
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