As glórias não importam, porque já foram desmoralizadas. Só os fracassos são eternos.
De que adianta ganhar um mundial de clubes, que até o Corinthians, depois de um torneio de verão, sol alto, quarenta graus, todo mundo doido por uma praia, diz que tem? O Independiente também tem mundial _ que é a Portuguesa da Argentina. O Estrela Vermelha também. O Vélez Sarsfield, idem. Dou um grande “bah!” para esse Mundial. Até o Penãrol tem três mundiais, como o São Paulo.
E a Libertadores? O Once Caldas, o Olímpia, o Colo Colo, o Atlético Nacional, o Velez, o Argentino Juniors (!!!), o Independiente, Estudiantes e agora a LDU têm ao menos uma Libertadores no currículo.
Hoje, a Libertadores é o Paulistão das Américas, a LDU é o Mirassol das Américas.
Agora, os fracassos, não. Eles são imortais. O Palmeiras perdeu de quatro para o Sport, foi eliminado pelo Ipatinga, tem o Asa de Arapiraca e a Inter de Limeira no currículo, tomou uma virada do Vasco em casa pela Copa Mercosul. Eu lembro até hoje do Alexandre, zagueiro do rebaixamento. Os fracassos do time de verde são incontáveis e gloriosos. Não importa o número, só a dor. A memória das glórias vai embora. A lembrança dos fracassos é eterna, porque não se rende à frieza dos números. Não se conta fracassos, recorda-se, ao som de um bolero, da oportunidade perdida, do coração despedaçado. É muito mais intenso.
Exemplos. O São Paulo ganhou muitos títulos. Mas teve Marcio Mexerica.
O mesmo São Paulo já tomou sete da Portuguesa, foi eliminado pelo Once Caldas, perdeu para o Millionarios da Colômbia, tomou quatro do São Caetano na semifinal do Paulista _além do fracasso mais glorioso, perder de 1 a 0 para o Corinthians que foi rebaixado, gol de Betão, no ano passado. Não vou incluir a eliminação para o Fluminense, gol de Washington. O status do Fluminense ainda está em discussão. Um time que pula da terceira divisão para a primeira cria alguma jurisprudência, ainda não sei qual. Foi um fracasso, claro. Só não sei dizer de qual monta. É como perder para o ABC de Natal? Acho que quase.
O fracasso assombra as salas de troféus. Todo mundo tenta apagar a dor, inutilmente. O corintiano lembrará para sempre do River Plate e do pênalti que Marcelinho perdeu diante de Marcos. Quem fez o gol do título do Campeonato Paulista de 2003? Mas todo corintiano lembrará do “aqualouco” e o pênalti contra o Goiás.
O Flamengo não tem só a maior torcida. Tem os fracassos mais gloriosos também. Como o dia em que fez aquela promoção, de que devolveria o dinheiro dos ingressos se perdesse para a Portuguesa. E perdeu. Ou a final da Copa do Brasil diante do Santo André, estádio lotado, a derrota fragorosa. A queda de Abeu Braga. A eliminação para o América no Maracanã, logo após ter goleado o adversário fora de casa. Quando tudo parece que vai dar certo, o urubu sobrevoa o gramado imortal. Parabéns, Gávea, que elevou o fracasso ao patamar de troféu invisível. Só depois do América é que percebemos o impacto de um fracasso sobre corações, mentes e olhos lacrimoniosos.
Se bem que agora, escrevendo, posso fazer um porém: só tem um título que nunca foi desmoralizado. O título mundial do Palmeiras em 1951. Porque só teve uma edição. Palmeiras, o único campeão (moral) de clubes.
Sorry, periferia.