The Pompéia Times

Entradas do Agosto 2008

Os fantasmas estão no salão de festas

Agosto 27, 2008 · 2 Comentários

Os fantasmas estão no salão de festas, a bailar, rindo e se divertindo com a Rússia e os EUA. Libertos dos cárceres do tempo, voltam a assombrar os vivos com as agruras da Guerra Fria, prestes a ressurgir a partir da Geórgia.

Lá, como cá: os oficiais da ativa e os de pijama reclamam sobre a reserva indígena Raposa Serra do Sol. Falam de ameaça estrangeira. De biopirataria internacional. De controle internacional da Amazônia, disfarçado de ajuda humanitária.

A minha TV voltou a funcionar com o preto e branco.

Categorias: Sem-categoria

A Lapa de baixo

Agosto 26, 2008 · Deixe um comentário

Sigo pela rua William Speers, saracoteando entre barracas de revistas pornográficas e churrasquinho grego, até cruzar o túnel que passa embaixo da linha do trem. Está cheio de infiltrações de água, pedaços de cartazes arrancados. Eu olhava para cima e via partes de rostos suados de homens, mulheres, e escutava os gritos de camelôs que corriam e ruídos de rádios sobre os ombros.

Ali começava o festival de cheiros que me separava do dentista, na rua Nossa Senhora do Ó. Havia poças de urina nas laterais do túnel. Nas escadarias que me devolviam à rua, restos de comida se espalhavam pelos degraus, putrefatas. Então eu cortava a avenida e só me restaram os gases dos ônibus e caminhões.

Na volta, o Mercado da Lapa. Ali era bom. Quando eu aprendi na escola sobre as especiarias das Índias que trouxeram os navegantes para o Brasil, imaginei que todas elas estivessem no mercado da Lapa. Dei razão a eles. Valia a pena cruzar qualquer mar para sentir aquele cheiro de pimentas, carnes, ervas, todos misturados e, ao mesmo tempo, tão fáceis de ser separados entre si. Porque a Europa daqueles tempos não devia cheirar melhor do que o túnel da Lapa de baixo.

Categorias: São Paulo
Etiquetado:

Mustafá na Gazeta Esportiva

Agosto 24, 2008 · Deixe um comentário

Os caros amigos sabem que este que está cá do outro lado da tela tenta não ter ódios. Tento cumprir meu objetivo com o máximo de empenho, com uma exceção: Mustafá Contursi, ex-presidente do Palmeiras.

Eu detesto ele. Com todas as minhas forças. Ele está na Mesa Redonda, da TV Gazeta. Ele é uma das poucas pessoas vivas que me dão ojeriza. Vocês sabem as razões. Se eu o encontro na rua, lhe desço umas bofetadas.

Agora, a TV Gazeta entrevista o ragazzo. É direito dela. É meu direito não ver mais a TV Gazeta, que me dá esses desprazeres.

***

Alguns adendos:

- Chico Lang levanta a bola para o Mustafá cortar. Chama o ex-ditador de “meu querido” e emenda: “Por que o Palmeiras não faz uma arena mais modesta?” Mustafá faz o que a gente espera dele. Diz que fez um grande contrato com a ISL para reformar o estádio. Isso, a ISL, aquela que quase faliu o Flamengo…

- Ainda bem que existe a internet. Os palmeirenses estão dando um flash mob na Gazeta via e-mail. Só tem mensagem contra o Sapo Boi.

- A Mesa Redonda é tão horrorosa que me dá prazer. Porque há tanto “merchan” que o Mustafá mal tem tempo de falar.

- Mustafá admite que existia lista negra no Palmeiras. Ele proibia dissidentes de se associar ao clube. Vai, Chico Lang, aplaude, aplaude. Mais pontos CONTRA o Mustafá. Ele diz que era obrigação dele manter essa lista.

Categorias: Futebol
Etiquetado: ,

A infantilização de atletas e jornalistas

Agosto 23, 2008 · 2 Comentários

As jogadoras de vôlei desabafaram contra os críticos tão logo ganharam o ouro. Disseram que a medalha cala as pessoas que as tacharam de amarelonas. A ponteiro Mari fez diversas vezes o sinal de silêncio durante a cerimônia de premiação, no pódio.

Faz 28 anos que o Brasil busca esse título. Nos Jogos de 2004, as meninas perderam até a disputa pelo bronze. Era óbvio que uma parte da crônica esportiva, tão madura quanto uma pré-adolescente, despejaria rótulos, idéias prontas, estereótipos. Os jornalistas esportivos (com honrosas exceções, espalhadas em alguns sites e uma revista) são torcedores que recebem salário. É o modelo Galvão Bueno. O humor oscila. Lembra a toada de “la donna é mobile”, como pluma ao vento.

Os atletas contribuem, já que se comportam como bezerrões. O ambiente esportivo favorece a infantilização. A infância não é uma fase feliz. Chutes, humilhações, cusparadas, toda sorte de maldades são freqüentes na fase sub-15 (e até um pouco depois).

O esporte de alta performance é uma das poucas áreas profissionais da vida em que se aceita a prisão de pessoas nas “concentrações”. Em que as pessoas acham que só aos berros se constrói um bom resultado. Em que as pessoas são estimuladas a perder a saúde em busca de um objetivo. É a concentração de tudo o que a vida em sociedades competitivas tem de pior.  No esporte, as pessoas tentam prolongar a infância.

O resultado são estes espetáculos deprimentes, em que jornalistas choram com medalhas e atletas se preocupam mais em mandar outras pessoas se calarem do que comemorar a vitória. Ainda bem que só há Olimpíadas uma vez a cada quatro anos. O risco de contaminação por esse ambiente doentio diminui consideravelmente.

Categorias: Esportes · Sem-categoria · humanidade
Etiquetado: , , ,

Bernardinho, nos traga a prata

Agosto 22, 2008 · 2 Comentários

(Carta a um treinador que nunca vai ler esta mensagem)

Meu caro Bernardinho, nos traga a medalha de prata de Pequim. De preferência, após uma derrota por três sets a zero. Não é por nada, não, porque não sou do tipo que usa camisa da Argentina (que acho de péssimo gosto; o azul da bandeira parece que foi lavado com sabão em pó de terceira) após a derrota do time do Dunga.

O problema, meu caro Bernardinho, é você. Um sujeito que convoca o próprio filho (não entro no mérito se ele é bom ou não, só não gosto de nepotismo), xinga os subordinados de tudo quanto é nome, faz o gênero “eu ganho, nós empatamos e eles perdem”, gosta do poder, de posar de manda-chuva, de abusar do poder… Não, definitivamente você não  é um cara legal. É um sujeito bem fora de moda, na verdade.

Não acredito que as pessoas precisem ser humilhadas, estressadas, submissas para atingir algum resultado. Esses atletas são adultos, não precisam ser tutelados. Isso é coisa do começo do século 20.

Todas as ditaduras do século passado mostram que a força bruta pode até funcionar e deixar saudosa lembrança, mas no conjunto causa e efeito, sim, é claro que dá problema. Você forma uma geração de pessoas que acha que o único jeito de vencer na vida é com alguma dose de violência. São pessoas dispostas a humilhar outras pessoas e a serem humilhadas em nome de um objetivo maior (seja lá que objetivo maior seja esse…)

 Se você fosse dono de uma empresa, já teria sido processado por assédio moral. Ou o que você faz diante das câmeras tem outro nome? A ditadura brasileira também obteve bons resultados. O País cresceu, se desenvolveu, ninguém nega. O problema é o preço disso. Deixemos as ditaduras sepultas no século 20.

Mas é assim mesmo. O esporte é uma das áreas da vida impermeável à democracia e à liberdade. Aos direitos civis e a qualquer direito. Nepotismo na política é feio, no esporte é tolerado. Mérito não importa tanto. O que importa são algumas expressões vagas, como “espírito de grupo”. Na minha cidade, isso tem outro nome: puxa-saquismo. Para você, não basta o poder. Você tem de usá-lo o tempo inteiro.

Nisso você é insensato. Provavelmente leu alguns clássicos da auto-ajuda. Uma das coisas mais maneiras do poder é não usá-lo, sempre dar a impressão aos seus subordinados sobre o que poderia fazer se resolvesse colocá-lo em prática. Você gasta todas as suas baterias numa só tacada. Não aguento mais aqueles seus esporros para a câmera da Globo. É muito exibicionismo barato. E em um deles você se estrepou. O Ricardinho resolveu te desafiar. E você mostrou para todo mundo que seu poder não era tão grande assim.

Eu não gostaria de tê-lo como chefe nem como amigo. Não quero tê-lo como ídolo. Porque é isso que você vai ser se ganhar o ouro. Por isso, Bernardinho, seja nobre e nos traga a prata. Nos mostre que há esperança e que os atletas não precisam ser tratados como inimputáveis para ganhar alguma coisa.

Porque essa Olimpíada são os jogos dos bezerrões. Os atletas brasileiros estão sempre dispostos a um choro, ameçados por uma chibata que vem sabe-se lá de onde. Se for por ai, a diferença entre esporte e tortura é que a tortura não é televisionada.

Mas duvido que você não vá ganhar o ouro. Você, Bernardinho, tem a cara dessa Olimpíada na China.

Categorias: Esportes
Etiquetado: , , ,

Horário eleitoral gratuito

Agosto 20, 2008 · Deixe um comentário

Quando eu era adolescente, não perdia um programa eleitoral. Morava em Caieiras, não tinha horário político lá. Então via os de São Paulo e tentava descobrir o significado de cada sigla. PMDB, por exemplo. Era um mistério. Partido da Mobilização Democrática Brasileira? E o PDT? Era o Partido Dos Trabalhadores? Mas, se fosse esse o nome, por que o Partido dos Trabalhadores era o PT?  E a gente lamentava a falta de candidatos bacanas em Caieiras. Ninguém prometia fura-fila, hospital moderno, nada. E eram dos mesmos partidos daqueles candidatos legais que pertenciam às siglas estranhas.

Em Caieiras, era só asfalto no Jardim Esperança, centro esportivo no Serpa, água no Pinheiros. Não tinha candidato ex-ministro, ninguém tinha combatido a ditadura militar, eram todos ex-professores do meu pai, vizinhos, médicos do posto de saúde, fora os apelidos: Baré do Posto, Dito do Açougue, Paulão do Depósito. Lembro dos comícios, todos improvisados em compensados de madeira.

Dai eu vi morar em São Paulo. Faz duas eleições municipais que estou aqui. E não pretendo transferir o título tão cedo. Não pelas opções eleitorais, nada disso. É porque, de alguma maneira, meu primeiro contato com essa palavra estranha chamada cidadania nasceu na cidadela. Estou em dúvida por lá. Um dos candidatos é médico da minha família, outro é pai de um aluno da minha mãe e o outro é meu amigo de bar. Tenho dificuldades para romper laços, confesso.

Categorias: São Paulo
Etiquetado: , , , ,

O chapéu do meu avô André e a enxadinha aos 5 anos

Agosto 20, 2008 · 3 Comentários

Eu tenho um avô André. Ele já morreu, em 1998, mas eu ainda tenho ele.

Meu avô André, uma vez, me esqueceu na escola. Ele foi me buscar, eu pedi para ficar mais um poquinho porque queria brincar com as crianças. Era um dia de provinha infantil e eu sou muito lerdo. Demorei para terminar e o tempo se esvaiu. Ele disse apenas uma vez: “Vamos, Branco”…, assim, com reticências no tom. Eu pedi mais uma vez. Ele disse que não. Ele disse “tá bom”, virou as costas e saiu.

Eu continuei brincando, sujando a roupa, até que cada um dos meus amiguinhos foi indo embora. Um por um. Até ficarmoa eu e a professora, que me olhava com uma cara que eu não sei descrever, entre o espanto e a preocupação e o tédio. Meu avô não voltou mesmo. Eu fiquei lá, na escola, enquanto a minha mãe trabalhava. Até que a mãe de uma amiguinha minha, a Pamela, que também era minha vizinha, percebeu que eu não estava em casa e foi me buscar. Eu tinha cinco anos.

Meu avô também me ensinou a recitar o Bona (se você não sabe, é como se aprende teoria musical na velha escola dos imigrantes italianos _eu toco, mas isso não importa, o que importa é que meu avô era o clarinetista da colônia em Atibaia e Jarinu). Ele também forjou uma enxada pequena para as minhas mãos de cinco anos. Nós fazíamos a horta juntos, que ficava na frente da casa. Eu me lembro bem quando ele me dizia “Branco, a terra não é para cavocar, é para capinar”, mas sempre em um mesmo tom monástico, as palavras saiam sem eco, muito discretas.

Ele arrumava a minha bicicleta, quando ela entortava, e, quando descobriu que eu gostava de cebola, fazia salada de cebola todo dia, com algumas plantas amargas e gostosas. Ele não precisava ser tão bom, porque eu não era neto dele, de sangue-sangue. Ele era pai do meu padrasto e eu era um dos poucos da escolinha que tinha uma família não-convencional. A regra, eu não sabia, mas sentia, era o que uma outra irmã do meu pai fazia. Ela dava presente de Natal e de Dia das Crianças só para a minha irmã caçula, na minha frente, e gostava de dizer para a minha mãe que a gente morava de favor na casa dos pais dela. Não sei se ela sabia, mas eu escutava. Mas ela sabia que eu via os presentes, eu acho.

 Mas como meu padrasto virou meu pai-pai, meu avô assumiu sem nenhum tempo de transição o papel de avô-avô durante aquele ano de 1988, quando eu, meu padrasto-pai, minha mãe e minha irmã Fernanda moramos com ele e a minha avó em Franco da Rocha. Foi uma época em que eu vi o riozinho em frente da casa do meu avô transbordar e levar toda a couve que a gente plantara, aquela mistura de água, barro, lodo, que subiu e chegou até a cozinha, deixando a casa com alguns cantos pretos que não saíram até hoje. Eu sei, porque eu me lembro. A roseira, ainda bem, ficava em uma parte mais alta do terreno e se salvou.

Meu avô foi cozinheiro do hospital psiquiátrico do Juquery. Ele trazia carne para o dia de Natal enrolada no braço. Ele ia trabalhar de terno largo e colocava os pedaços de coxão duro no próprio corpo. Era a única época em que se comia carne de vaca. No mais, só os porcos ou coelhos criados no quintal. Quando minhas tias eram crianças, elas estavam brigando, muito. Meu avô pegou cada uma pelo braço e as amarrou cada uma em uma árvore, uma de frente para a outra. Elas só saíram dali quando “conversaram que nem gente”. As histórias deste parágrafo me foram contadas pelo meu padrasto-pai e pelas irmãs do meu padrasto-pai que viraram minhas tias com o passar dos anos.

Poucos minutos antes de morrer, pediu à minha avó que fosse buscar algo no supermercado. Ninguém sabia que ele ia morrer, é claro. Quando minha avó voltou, o encontrou muito elegante sentado no chão, com o chapéu nas mãos e o relógio no bolso. Ele tinha ido embora com um ataque cardíaco fulminante. Deixou a horta e a roseira regadas. Elas são cuidadas até hoje, menos por mim. Eu não consigo voltar lá porque não suporto as saudades do meu avô. Quando todo mundo dizia que filho de mulher separada inevitavelmente ia virar vagabundo ou bandido, meu avô me ensinava a ler o Bona, a usar a enxada, a ter disciplina na escola e a não manter velhos hábitos, como o preconceito.  Meu avô era duro, mas nunca me bateu nem com a mão nem com o verbo. Foi sempre o vô André, com a enxada na mãe, o chapéu na cabeça, o relógio no bolso e um “Branco!” carinhoso nos lábios que falavam comigo.

Categorias: humanidade
Etiquetado:

O dia em que fui esquecido

Agosto 18, 2008 · 2 Comentários

Minha avó tem 91 anos. Meu avô tem 92 anos. Vou poupá-los de contas: eles nasceram durante a 1ª Guerra Mundial. Não havia TV, computador e internet. São filhos de imigrantes italianos, criados no interior de São Paulo, vieram para São Paulo no final da adolescência, desceram na Estação da Luz. Meu avô ainda é capaz de se recitar a escalação do Palmeiras de 1967, de todos os presidentes-generais do Brasil, da família Matarazzo e de como eram bairros como Lapa, Jardim Paulista e Centro há 50, 60 anos. Dos discursos de Getúlio também e, até sete, oito anos atrás, tratava pessoalmente dos contratos das casas que tem e aluga. Minha avó, não.

Ela ainda limpa a casa, fica irritada com a empregada que não tira pó dos lugares mais minúsculos nem rega as plantas com a quantidade certa de água, sabe a receita dos nossos pratos prediletos (dos netos), lembra que às 15h de domingo é hora do chá. Neste domingo, eu fui visitá-los. Cheguei, bati palmas, minha avó estava no tanque lavando roupa. Ela veio caminhando, devagar, me viu e sorriu. Abriu o portão, me deu um abraço.

“Faz quanto tempo que eu não te vejo, que saudades”, ela me disse, beijando a minha bochecha várias vezes seguidas (e que eu costumava enxugar quando era pequeno, porque achava aquilo tudo muito afetuoso demais; demorei para gostar). “Mas quem é você mesmo?”, ela perguntou.

Eu sabia que a minha avó estava perdendo a memória. Ela não tem aquela doença que acaba com as lembranças. Mas a idade está diluindo as recordações dela em um transe constante. Ela, que falava pouco, sempre séria, se recusando a contar o passado da família, agora fala sem parar.

No começo, ela se esquecia do que conversáramos faz uma semana atrás. Depois, de poucos dias. Passou-se algum tempo até ela se esquecer de conversas recém-terminadas. O passado está perdido em algum lugar dentro dela. “Eu sei que gosto de você, mas não sei por quê”, e sorriu. Quem é o seu pai? Você dirige? Sua mãe está viva? Você mora com a sua mãe? Você tem irmãs, eu lembro delas, quantos anos elas têm? Quem é seu pai? Onde você mora? A sua tia está bem, a Tê? E o seu pai? Ele ainda mora na fazenda (meu pai mora em Osasco)? Minha avó foi disparando perguntas, me fazendo carinho no rosto, como sempre costumava fazer.

Ela foi até a cozinha e me preparou um chá. Enquanto isso, eu fui até a sala e encontrei meu avô. Há um quadro meu, gordicho, comendo um sanduíche no Playcenter na ante-sala, com uns nove anos. Meu avô disse: “Leandrinho, ma che!”. Minha avó apareceu na janela.

Leandrinho… Ela me olhava com curiosidade. Me fitou, saiu da janela. Foi até a ante-sala, notei que parou diante da minha foto no Playcenter. Então ela entrou na sala e me deu um abraço e, como nunca, nunca antes fizera quando eu era pequeno, sentou-se no sofá para ver o jogo de futebol comigo e com o meu avô. Ela me abraçou, como nunca fez. Começou a falar do jogo, de como meu avô fica agitando vendo futebol, que agora só quer saber das Olimpíadas.

Ela ficou quieta de novo.

Quem é seu pai? Cadê o seu carro (eu não dirijo)? Como você veio aqui? A sua mãe está bem? Suas irmãs já casaram? Minha avó saiu de novo da sala, quieta, e foi para a cozinha. Passaram-se uns 10 minutos e ela me chamou para o chá, na porta da ante-sala. Isso é bem minha avó. Eu, meu pai e meu avô passávamos a manhã vendo o Campeonato Italiano na minha infância. Ela gritava lá de longe que o almoço estava pronto. Sorri, fui. Não era chá, era café. Nunca tomei café na casa da minha avó, e só consegui tomar um copo e sair, não aguentava mais.

Eu tinha de me segurar. De tristeza por ver a minha avó tão diferente. A saúde dela está bem, a memória, não. Mas a cabeça dói e o coração aperta por um motivo mais egoísta. Eu me via nos olhos da minha avó, em imagens confusas que quase atingem os contornos certos, mas em instantes, como se a linha preta do desenho se rompesse e as cores invadissem a memória em uma profusão de imagens que passam a deixar de fazer sentido. É a sensação de ser esquecido minuto a minuto.

Fui até a sala, ia me despedir do meu avô. Ele me pediu para ficar mais um pouco, enquanto reclamava de trapaça nas Olimpíadas e do excesso de faltas no futebol.

“Sua avó continua igualzinha, teimosa e geniosa igual ao pai, o velho Luis Soave.” Eu queria acreditar, mas não podia. Eu estava já de tênis no pé quando ela veio e brigou com o meu avô, que disparou um palavrão quando um jogador deu uma cotovelada em outro.

Na minha infância, minha avó irrompia a sala e dizia ao meu avô hipnotizado pelo esporte: “Não fale palavrão na frente do Leandrinho!”

Categorias: humanidade
Etiquetado:

Apagão mental

Agosto 18, 2008 · 1 Comentário

Fiquei totalmente incapacitado de escrever nas últimas semanas. Tentei esboçar algumas explicações simples. Não encontrei nenhuma. Nem depois de ter visto “O Escafandro e a Borboleta”, a história de um homem quase totalmente paralisado, mas que dita um livro piscando o olho esquerdo. Cheguei em casa e quase coloquei o que pensei sobre o filme neste nobre espaço. Não consegui passar das primeiras linhas.

Comprei um dicionário Houaiss em um sebo eletrônico. A inspiração também não veio. Não era ausência de matéria prima nem de uma história comovente. Eu simplesmente não tinha uma única idéia. E admitir que não tinha uma idéia foi uma idéia bastante demorada para se ter.

Categorias: Literatura