Minha avó tem 91 anos. Meu avô tem 92 anos. Vou poupá-los de contas: eles nasceram durante a 1ª Guerra Mundial. Não havia TV, computador e internet. São filhos de imigrantes italianos, criados no interior de São Paulo, vieram para São Paulo no final da adolescência, desceram na Estação da Luz. Meu avô ainda é capaz de se recitar a escalação do Palmeiras de 1967, de todos os presidentes-generais do Brasil, da família Matarazzo e de como eram bairros como Lapa, Jardim Paulista e Centro há 50, 60 anos. Dos discursos de Getúlio também e, até sete, oito anos atrás, tratava pessoalmente dos contratos das casas que tem e aluga. Minha avó, não.
Ela ainda limpa a casa, fica irritada com a empregada que não tira pó dos lugares mais minúsculos nem rega as plantas com a quantidade certa de água, sabe a receita dos nossos pratos prediletos (dos netos), lembra que às 15h de domingo é hora do chá. Neste domingo, eu fui visitá-los. Cheguei, bati palmas, minha avó estava no tanque lavando roupa. Ela veio caminhando, devagar, me viu e sorriu. Abriu o portão, me deu um abraço.
“Faz quanto tempo que eu não te vejo, que saudades”, ela me disse, beijando a minha bochecha várias vezes seguidas (e que eu costumava enxugar quando era pequeno, porque achava aquilo tudo muito afetuoso demais; demorei para gostar). “Mas quem é você mesmo?”, ela perguntou.
Eu sabia que a minha avó estava perdendo a memória. Ela não tem aquela doença que acaba com as lembranças. Mas a idade está diluindo as recordações dela em um transe constante. Ela, que falava pouco, sempre séria, se recusando a contar o passado da família, agora fala sem parar.
No começo, ela se esquecia do que conversáramos faz uma semana atrás. Depois, de poucos dias. Passou-se algum tempo até ela se esquecer de conversas recém-terminadas. O passado está perdido em algum lugar dentro dela. “Eu sei que gosto de você, mas não sei por quê”, e sorriu. Quem é o seu pai? Você dirige? Sua mãe está viva? Você mora com a sua mãe? Você tem irmãs, eu lembro delas, quantos anos elas têm? Quem é seu pai? Onde você mora? A sua tia está bem, a Tê? E o seu pai? Ele ainda mora na fazenda (meu pai mora em Osasco)? Minha avó foi disparando perguntas, me fazendo carinho no rosto, como sempre costumava fazer.
Ela foi até a cozinha e me preparou um chá. Enquanto isso, eu fui até a sala e encontrei meu avô. Há um quadro meu, gordicho, comendo um sanduíche no Playcenter na ante-sala, com uns nove anos. Meu avô disse: “Leandrinho, ma che!”. Minha avó apareceu na janela.
Leandrinho… Ela me olhava com curiosidade. Me fitou, saiu da janela. Foi até a ante-sala, notei que parou diante da minha foto no Playcenter. Então ela entrou na sala e me deu um abraço e, como nunca, nunca antes fizera quando eu era pequeno, sentou-se no sofá para ver o jogo de futebol comigo e com o meu avô. Ela me abraçou, como nunca fez. Começou a falar do jogo, de como meu avô fica agitando vendo futebol, que agora só quer saber das Olimpíadas.
Ela ficou quieta de novo.
Quem é seu pai? Cadê o seu carro (eu não dirijo)? Como você veio aqui? A sua mãe está bem? Suas irmãs já casaram? Minha avó saiu de novo da sala, quieta, e foi para a cozinha. Passaram-se uns 10 minutos e ela me chamou para o chá, na porta da ante-sala. Isso é bem minha avó. Eu, meu pai e meu avô passávamos a manhã vendo o Campeonato Italiano na minha infância. Ela gritava lá de longe que o almoço estava pronto. Sorri, fui. Não era chá, era café. Nunca tomei café na casa da minha avó, e só consegui tomar um copo e sair, não aguentava mais.
Eu tinha de me segurar. De tristeza por ver a minha avó tão diferente. A saúde dela está bem, a memória, não. Mas a cabeça dói e o coração aperta por um motivo mais egoísta. Eu me via nos olhos da minha avó, em imagens confusas que quase atingem os contornos certos, mas em instantes, como se a linha preta do desenho se rompesse e as cores invadissem a memória em uma profusão de imagens que passam a deixar de fazer sentido. É a sensação de ser esquecido minuto a minuto.
Fui até a sala, ia me despedir do meu avô. Ele me pediu para ficar mais um pouco, enquanto reclamava de trapaça nas Olimpíadas e do excesso de faltas no futebol.
“Sua avó continua igualzinha, teimosa e geniosa igual ao pai, o velho Luis Soave.” Eu queria acreditar, mas não podia. Eu estava já de tênis no pé quando ela veio e brigou com o meu avô, que disparou um palavrão quando um jogador deu uma cotovelada em outro.
Na minha infância, minha avó irrompia a sala e dizia ao meu avô hipnotizado pelo esporte: “Não fale palavrão na frente do Leandrinho!”