(Carta a um treinador que nunca vai ler esta mensagem)
Meu caro Bernardinho, nos traga a medalha de prata de Pequim. De preferência, após uma derrota por três sets a zero. Não é por nada, não, porque não sou do tipo que usa camisa da Argentina (que acho de péssimo gosto; o azul da bandeira parece que foi lavado com sabão em pó de terceira) após a derrota do time do Dunga.
O problema, meu caro Bernardinho, é você. Um sujeito que convoca o próprio filho (não entro no mérito se ele é bom ou não, só não gosto de nepotismo), xinga os subordinados de tudo quanto é nome, faz o gênero “eu ganho, nós empatamos e eles perdem”, gosta do poder, de posar de manda-chuva, de abusar do poder… Não, definitivamente você não é um cara legal. É um sujeito bem fora de moda, na verdade.
Não acredito que as pessoas precisem ser humilhadas, estressadas, submissas para atingir algum resultado. Esses atletas são adultos, não precisam ser tutelados. Isso é coisa do começo do século 20.
Todas as ditaduras do século passado mostram que a força bruta pode até funcionar e deixar saudosa lembrança, mas no conjunto causa e efeito, sim, é claro que dá problema. Você forma uma geração de pessoas que acha que o único jeito de vencer na vida é com alguma dose de violência. São pessoas dispostas a humilhar outras pessoas e a serem humilhadas em nome de um objetivo maior (seja lá que objetivo maior seja esse…)
Se você fosse dono de uma empresa, já teria sido processado por assédio moral. Ou o que você faz diante das câmeras tem outro nome? A ditadura brasileira também obteve bons resultados. O País cresceu, se desenvolveu, ninguém nega. O problema é o preço disso. Deixemos as ditaduras sepultas no século 20.
Mas é assim mesmo. O esporte é uma das áreas da vida impermeável à democracia e à liberdade. Aos direitos civis e a qualquer direito. Nepotismo na política é feio, no esporte é tolerado. Mérito não importa tanto. O que importa são algumas expressões vagas, como “espírito de grupo”. Na minha cidade, isso tem outro nome: puxa-saquismo. Para você, não basta o poder. Você tem de usá-lo o tempo inteiro.
Nisso você é insensato. Provavelmente leu alguns clássicos da auto-ajuda. Uma das coisas mais maneiras do poder é não usá-lo, sempre dar a impressão aos seus subordinados sobre o que poderia fazer se resolvesse colocá-lo em prática. Você gasta todas as suas baterias numa só tacada. Não aguento mais aqueles seus esporros para a câmera da Globo. É muito exibicionismo barato. E em um deles você se estrepou. O Ricardinho resolveu te desafiar. E você mostrou para todo mundo que seu poder não era tão grande assim.
Eu não gostaria de tê-lo como chefe nem como amigo. Não quero tê-lo como ídolo. Porque é isso que você vai ser se ganhar o ouro. Por isso, Bernardinho, seja nobre e nos traga a prata. Nos mostre que há esperança e que os atletas não precisam ser tratados como inimputáveis para ganhar alguma coisa.
Porque essa Olimpíada são os jogos dos bezerrões. Os atletas brasileiros estão sempre dispostos a um choro, ameçados por uma chibata que vem sabe-se lá de onde. Se for por ai, a diferença entre esporte e tortura é que a tortura não é televisionada.
Mas duvido que você não vá ganhar o ouro. Você, Bernardinho, tem a cara dessa Olimpíada na China.
2 respostas Até agora ↓
Vinicius // Agosto 24, 2008 às 8:10 pm |
Ele trouxe a prata e alguns querem nos fazer crer que o mundo acabou. Antes disso acontecer, fui a Extra comprar sorvete.
Luiz Raatz // Agosto 31, 2008 às 7:20 pm |
ô boca, hein