The Pompéia Times

Entradas do Outubro 2008

Obama e a mudança improvável

Outubro 31, 2008 · 1 Comentário

Tenho dois amigos que entendem bastante de Estados Unidos. Mauricio Savarese e Luiz Raatz, desde o começo do ping-pong Obama-McCain, se colocaram ao lado do democrata. Eles têm uma lista de argumento pró-Obama para os meus ouvidos descrentes, e eu costumo ouvi-los. São pessoas que acompanham tantos os obscuros quanto os famosos blogs de política norte-americana, lêem os grandes jornais e até os pequenos jornais, têm a lista de presidentes americanos na cabeça. 

Savarese escreveu um texto em seu blog sobre as diferenças e semelhanças entre Lula e Obama. Afirmou que a diferença fundamental é que Lula é presidente apesar do Brasil, das suas desigualdades, da ausência de serviços básicos do Estado. Obama pode ser presidente dos EUA porque teve oportunidades criadas pelo Estado, como as políticas de ação afirmativa. Eles seriam símbolos destes dois processos.

Eu concordo, em partes. Acho que, ao transformar pessoas em símbolos, tentamos dar uma justificativa racional para aquilo que é um tanto irracional: simpatia, empatia, admiração. Vejo várias pessoas escrevendo (não é o caso nem de Savarese nem de Raatz) que cada discurso de Obama é “histórico”. Que ele será o presidente mais importante da “história” dos EUA porque tem uma “história incrível”. 

Olho para esses argumentos e torço o nariz. Os países da América Latina elegeram um metalúrgico, um índio, a filha de um militar morto pela ditadura chilena e um ex-bispo católico só nos últimos dez anos. A Alemanha elegeu, na década de 90, Gerhard Schröeder, que teve o pai morto pelos nazistas, e Ângela Merkel, egressa da ex-Alemanha comunista. A França elegeu Nicolas Sakozy, filho de húngaros em um país que tem uma das direitas mais xenófobas do mundo. A Espanha colocou no poder o neto de um republicano fuzilado pelas tropas de Franco durante a Guerra Civil Espanhola, o Zapatero. A África do Sul elegeu Mandela, e isso é o bastante.

Parece haver uma tendência nos últimos anos a eleger figuras com biografias fartas de passagens marcantes. Não consta que nenhuma dessas pessoas tenha feito governos tão impressionantes quanto suas histórias. Lula seguiu o trilho aberto por FHC, Evo Morales, tanto por culpa dele quanto devido a uma oposição demófoba, mal consegue governar um pedaço da Bolívia. Michelle Bachelet manteve a política herdada dos governos de coalizão que governam o Chile desde o fim da ditadura. Sarkozy defendeu quase um “choque de gestão” nas periferias repletas de imigrantes de Paris, que consistia basicamente em tornar a vida dessas pessoas mais difícil. E Zapatero tornou a vida dos imigrantes na Espanha praticamente insuportável. 

Curiosamente, os alemães sem nenhum carisma deram os passos mais importantes. Foram Schröeder e Merkel, os menos “simbólicos” desta lista, que arrefeceram as pretensões bélicas do seu país e melhoraram as relações com Israel.

Parece que quanto mais não-convencional é o passado de uma pessoa, mais ela se esforça para fazer um governo o mais convencional possível. Com uma campanha milionária, apoio de conservadores do Partido Republicano e de economistas da Universidade de Chicago, não me parece, ao menos até agora, que Obama será uma exceção, ao menos para quem imagina que ele fará uma “revolução história” nos EUA.  O presidente que mais fez pelos negros nos Estados Unidos, por exemplo, foi o branquelo filho do “baby boom”, o Bill Clinton.

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Obama, Lula e Eymael

Outubro 30, 2008 · 2 Comentários

A “The Economist” publicou um texto sobre os “Obamacons”, os conservadores pró-Obama. Concordo com boa parte do teor do artigo. Ele aponta a convergência de Obama com várias alas do Partido Republicano, especialmente as que se recusam a aceitar que a melhor forma de alcançar a paz é aumentar o poder militar, em vez da boa diplomacia, e aquelas que acreditam que o Estado deve ter um papel mais modesto na economia (mr. Bush jogou o déficit lá para cima). São os sujeitos que nunca se sentiram muito à vontade nos anos Bush, mas não tinham uma opção democrata “confiável”.

Além disso, alguns deles acham, como eu, que Deus é importante demais para ser usado por políticos demagogos, como já adiantou Moisés nos dez mandamentos. Ou seja: são a favor da união civil de pessoas do mesmo sexo e acham que o aborto deve ser descriminalizado, por exemplo. O Estado não tem de se meter nesses assuntos. O melhor juiz é a consciência individual. Quanto menos o Estado se meter nas nossas escolhas, melhor. Porque certamente, nesse caso, não é a “moralidade” do Estado que está em jogo. São as pessoas que querem impor suas crenças por meio do Estado e blasfemam.

Basta ver o número de babetas da extrema-direita dos EUA que pintam uma imagem de Deus bem próxima da erguida pelos fundamentalistas muçulmanos: um juiz implacável no seu desejo de punir. Desculpe, não sei qual edição do Novo Testamento eles leram. Talvez a editada pelos mesmos imbecis que criaram os “Protocolos dos Sábios de Sião”, texto que acusava os judeus por todos os males do mundo (uma das republicanas que causam ojeriza nesses “obamacons” é Ann Coulter, que já afirmou, aqui, que os judeus devem ser aperfeiçoados e virar cristãos _uma imbecil de tendências antisemitas). Obama tem essa vantagem. Raça e etnia não fazem parte do discurso dele. É uma mudança e tanto em um país que tem parte da elite que se autodenomina wasp (white, anglo-saxan, protestant).

O artigo não faz essa inferência, mas as semelhanças entre Obama e Lula ficam ainda mais nítidas, no lado positivo. As diferenças também, mas sobre essas não me arrisco a dizer. Tempos de crise invertem tudo, e o que teve de gente defendendo a intervenção do Estado na economia… Enfim. O texto me firmou uma certeza: tanto Lula quanto Obama são sujeitos pragmáticos que parecem seguir a cartilha da democracia cristão italiana que, durante os anos 70, flertou com o Partido Comunista Italiano (nada a ver com o Eymael, do nosso PSDC). Acreditam que a família tem um papel importante na sociedade e são a favor da expansão dos direitos individuais, com ênfase nas soluções multilaterais para a manutenção da paz no planeta. Lembram o Aldo Moro. Saiba mais sobre o assunto aqui.

Ainda acho que as expectativas sobre Obama, que é pintado em tons de “Novo Messias”, são constrangedoras de tão ingênuas. Mas McCain, um republicano respeitável que comprometeu parte da sua biografia ao embarcar no trenó de Sarah Palin, deixou de ser uma opção, qualquer opção. 

O texto da “The Economist” está aqui.

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Swap cambial reverso e o “d exótico”

Outubro 30, 2008 · Deixe um comentário

O professor Franco oferece aulas de caligrafia ao lado da Universidade 9 de Julho, a Uninove. Ele está instalado em uma casa com fachada de casarão em frente ao Parque da Água Branca, a duas quadras do terminal Barra Funda de trem, metrô e ônibus e com um dos poucos banheiros grátis entre os terminas da capital paulista.

Pensei em fazer algumas aulas. Minha professora de inglês costumava me dar notas baixas por causa do meu “a”. Ela achava que era um “d exótico” e sempre dizia que eu escrevia as palavras errado. Quando eu vejo as notícias sobre economia, tenho certeza que estou diante de um “d exótico”.

Um dos mais graves problemas das crises financeiras é a bagunça no léxico. Fazia tempo que “swap cambial reverso” ou “circuit breaker” não flertavam com as primeiras páginas das nossas consciências. Agora, em qualquer conversa de ônibus, há sempre uma pessoa dizendo: “Mano, dei um circuit breaker ontem”. Escutei isso no supermercado perto de casa. Especulei com a gôndola de atum se “dei um circuit breaker” significa “dei um pt (perda total)” que, por sua vez, nada mais é do que “bebi até cair”.

Wall Street deveria pensar nisso. Antes de parir uma crise, pense nas conseqüências para o léxico do Terceiro Mundo.

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metablog

Outubro 29, 2008 · 1 Comentário

Caros leitores, com este post vou copiar Eduardo Paes, o recém-eleito prefeito do Rio de Janeiro. Vou descumprir uma promessa. Não ao ritmo de uma por dia, como ele vem fazendo, porque eu, até hoje, fiz pouquíssimas promessas. Sigo o rei Salomão e o Novo Testamento. Não faço promessas porque não gosto de mentir de antemão. Essa promessa eu fiz para mim mesmo. Que era não entrar no fla-flu dos blogueiros. É como regredir à quinta série do ginásio em Caieiras. Um manancial de vaidades que se dividem em riachos diferentes e caem, em algum momento, em algum lugar, no mesmo rio. Mas agora não deu. E cá estou a lembrar Caieiras em 1994.

Acabei de ler um post do Gerald Thomas no portal onde trabalho. Ele bate para baixo da linha da cintura do Ricardo Kotscho, que é outro blogueiro hospedado no portal onde trabalho. Cada um a seu modo tem uma carreira respeitável. Mas não é deles que vou falar. É do blogueiro que não inaugurou o fla-flu internético, mas do qual é, hoje, um dos expoentes: Reinaldo Azevedo. Essa modalidade de disputa que pretende ser política. Mas é apenas expressão de vaidades e noites de solidão que a internet inspira, de convites para jantares, de se sentir importante, de se sentir querido. Mas é tudo vaidade, Fábio, tudo é vaidade, já dizia Gregório de Mattos.

Verdade seja dita, é difícil compará-lo com Paulo Henrique Amorim. Porque o Paulo Henrique Amorim tem uma verdade para cada terno e um escrúpulo para cada tijolo que o Edir Macedo lhe deu para construir sua casa no céu. Reinaldo Azevedo, ao menos na fase Veja, tem seguido uma linha aparentemente coerente, goste-se ou não do que escreve. Além do que, ao menos aparentemente, Reinaldo Azevedo leu mais do que Paulo Henrique Amorim e escreve melhor do que ele, evitando aqueles tópicos irritantes que têm a profundidade de uma poça d’água. Também não insinua que uma equipe do local onde trabalha pode negociar com seqüestrador melhor do que a polícia. 

Feitas as ressalvas da diferença, vamos à semelhança. Eu disse que Reinaldo Azevedo é coerente na fase Veja. É verdade. Algum tempo atrás, eu fui checar se a coerência que ele apregoa sobrevive a uma retrospectiva. Fui aos arquivos do jornal Folha de S.Paulo, onde ele foi editor-adjunto de política. É uma delícia. Sabem o que ele escreveu sobre a aliança PSDB-PFL em 1994? Jogou uma bomba de hidrogênio, mas que teve o efeito de uma biribinha de São João: ninguém se abalou com seu texto-adjunto. Disse que a sigla de Serra e FHC fazia uma concessão ao que havia de mais atrasado na política brasileira. Seus textos sobre a política econômica de FHC fariam um petista abrir um sorriso de estrela a estrela. Em 1995, fez a resenha de um livro de Emir Sader, o bravo professor da USP que nunca aparece na USP, o docente da Uerj que passa mais tempo dando assessoria para o governo da Bolívia do que na sala de aula. Emir Sader também é um proletário que mora no Leblon. Pois em 1995, Reinaldo Azevedo admirou a honestidade de Sader em um livro no qual o mestre fazia definições generalistas, vagas, imprecisas e bastante contestáveis do que é esquerda e direita. Basta ir à coluna dele na Carta Maior. Reinaldo Azevedo elogiou um equivalente às colunas de hoje do Emir Sader, só que publicado em 1995.

Claro que não estou cobrando coerência do Reinaldo Azevedo. Não cobraria coerência de ninguém, porque não acho que coerência seja uma virtude. Os fascistas foram coerentes com seu programa, e deu no que deu. Também é possível ser machista a vida inteira e ser coerente. O que me irrita é que Reinaldo Azevedo posa como um sujeito que tem um passado absolutamente coerente. Só que a memória dele parece ser de curto prazo. O sujeito que repele, com razão, insinuações vis do PT sobre a sexualiadade do prefeito eleito de São Paulo usa dos mesmos artifícios para atacar seus adversários jornalistas. A diferença é que se vale de Gregório de Mattos. É só um tanto mais ilustrado, mas a substância é a mesma. Quer mais um exemplo? Reinaldo Azevedo teve uma revista, a Primeira Leitura, que era bancada pelo Mendonça de Barros. Ele passou a defender o governo de Fernando Henrique Cardoso com a mesma energia com a qual defende o governo Serra. Recentemente, criticou o Kotscho por publicar uma entrevista com o Lula. É notório que Lula e Kotscho são amigos. Reinaldo Azevedo disse que era um comunicado do comitê central ao Pravda. Pois é. Reinaldo Azevedo defende o governo Serra. Publicou no domingo de eleição uma entrevista que fez com Gilberto Kassab. Manteve o texto no topo do blog. Era praticamente um texto como aqueles que o Getúlio Vargas pedia para o Samuel Wainer fazer na “Última Hora”. 

Reinaldo Azevedo é um grande atirador. Mas é impossível acreditar em uma só bala do que ele escreve. A história dele não inspira a menor confiança. E nisso ele é diferente do Paulo Henrique Amorim também, já que nem o presente nem o futuro do Paulo Henrique Amorim inspiram confiança. No mais, são semelhantes no mesmo sentimento de ojeriza que me provocam. De perplexidade por vê-los gastando tanto tempo para espantar sei lá que tipos de fantasmas internos e para saciar sei lá que desejos escondidos nos recônditos da alma. Eu sempre usei um argumento prático contra os trogloditas da sétima série para que não batessem nos meninos mais frágeis. A violência um dia volta, mas você não sabe como. Nesses dois, o rancor e a frustração com o mundo foi para a tela do computador.

Eu, daqui, vou tentar gastar menos tempo com eles. Esse post é uma espécie de expurgo pessoal, uma tentativa de libertação desse ambiente apolítico e mesquinho. Talvez volte a ler os textos deles dentro de alguns anos. Só para me deliciar vendo cada um deles defender exatamente o oposto do que defendem hoje, à espera de aplausos de alguns bajuladores.

São os típicos jornalistas de “Ilusões Perdidas”, do Balzac. Aqueles que escrevem uma resenha positiva e uma negativa sobre o mesmo autor usando os mesmos argumentos. Basta mudar os adjetivos e os advérbios de modo _mas aguardam ansiosos por um “puxa, como você é inteligente, sagaz, irônico”. Mas a razão principal pela qual peguei birra do Reinaldo Azevedo é tão adolescente quanto os textos dele. Tenho horror a puxa-sacos desde o ginásio em Caierias. E Reinaldo Azevedo é um puxa-sacos. Um puxa-sacos ilustrado. Ele pode mudar o que quiser do próprio passado. Mas não pode mudar a sua substância.

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Eleições

Outubro 28, 2008 · 3 Comentários

Os dias andaram quentes. Dois projetos irreconciliáveis de dois partidos com profundas clivagens. O que descambou para baixaria e em violência. O candidato das elites foi amparado por uma máquina de marketing que não titubeou em gastar o que fosse necessário para alcançar o resultado planejado. 

No outro pólo, uma liderança fragilizada. Incerta sobre o discurso e sobre sua história, mas valente, altiva, com pinta de anti-herói. As glórias do passado, as realizações do presente, qual caminho? E como enfrentar a rejeição, provocada em grande parte pelas suas qualidades, pela sua coragem? Valeria a pena usar os métodos do adversário? As circunstâncias se apresentaram, e eles foram usados. 

“O homem que matou o facínora” é um filme de faroeste, do John Ford. É de um tempo em que existiam diferenças entre partidos e siglas, e essas diferenças transbordavam para o cinema, com algum personagem mais ambíguo no meio, como o John Wayne. Essa ambigüidade ajudava a lembrar que em política nem tudo é preto no branco, mas que existem diferenças e que as pessoas têm de se posicionar diante dessas diferenças. 

Que tipo de filme renderia a disputa entre Marta Suplicy e Kassab, com kassabinhos e perguntas “você é casado? Tem filhos?”? Ou entre Lacerda e Quintão, em Belo Horizonte? Ou mesmo entre Gabeira, o ex-petista apoiado por tucanos e petistas outsiders, como Leonardo Boff e Marina Silva, contra Eduardo Paes, o ex-tucano apoiado pelo baixo-clero-garotinho e os tradicionais partidos da boquinha do Rio, o PC do B e o PT, que só tem como horizonte um carguinho em alguma subprefeitura?

Talvez alguma comédia vespertina: “Pela primeira vez na televisão, dois políticos muito loucos fazem de tudo para conquistar a prefeitura de São Paulo. Vai ter muita confusão, aventura e diversão para a família!”

Não, obrigado. Não é questão de saudosismo. É que ser feito de trouxa, ao menos consciente disso, não está no meu projeto de vida. Por isso, voto nulo. Tenho o direito de dizer sim a qualquer um dos candidatos e a dizer não a todos eles quando quiser e enquanto a lei permitir. Pelo menos enquanto eles não fizerem, sequer, um filme que seja digno de passar na “Tela Quente”.  Porque a vulgaridade deixa a política tão empolgante quanto um filme do Renato Aragão. O que, convenhamos, não é bom nem para a política nem para o cinema…

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Uma tarde em Itapuã

Outubro 23, 2008 · Deixe um comentário

Às vezes bate um sono no final da tarde. Ele me impede de contar algumas das coisas que eu vejo por aí nessa rotina torta de subir todo dia a Avenida Pompéia, atravessar a Afonso Bovero do Pão de Açúcar à MTV, passar pela avenida dos cemitérios, a doutor Arnaldo, e descer pela rua dos cemitérios, a rua Cardeal Arcoverde. 

Porque nesse meio do caminho a gente encontra uma mulher com os olhos da Capitu, vestida com a camiseta do PT, balançando à altura do umbigo a bandeira da Marta, na esquina entre a avenida e a rua dos cemitérios, ali no ponto dos estudantes da USP, onde fica uma menina que usa o cartão do estudante da universidade como crachá da firma. Eu mesmo li: ela faz enfermagem. Tinha os olhos úmidos. A face arredondada de um quadro do Botero. A imagem de uma frustração prestes a se realizar.

Lembrei disso porque nesses dias de sol há um leão em frente a uma loja de antiquários diante do cemitério São Paulo, na rua Cardeal Arcoverde. Ele parece sorrir, reluzindo o sol de pouco mais de 35 graus que faz o asfalto brilhar às 14h de uma primavera incandescente. Então a estátua passa, junto com a vontade de espreguiçar. Eu me contive. O leão ficou lá atrás, ele e os lustres. O sono não, contido no assento do ônibus.

Desço no meu ponto e vou almoçar. Atravesso um corredor de mendigos que esperam por um prato de comida diante do restaurante japonês. Sempre como às 15h, e eles sempre estão por lá. Impassíveis, parte da calçada, os rostos ignoram o sol. Não brilham. O sono passa. Almoço em 20 minutos e vou trabalhar. Eles já foram embora. Poderia jurar que não são miragens.

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Paraty-Trindade

Outubro 20, 2008 · 1 Comentário

Não, caro leitor, eu não converso com árvores nem bato palmas para o pôr-dos-sol. É ruim começar um post negando, mas como este texto leva o nome “Paraty-Trindade”, prefiro alertar os incautos. Sabe como é: ontem hippie, hoje dono de uma loja de pranchas, amanhã presidente da empresa do pai.

Portanto, vou discorrer sobre uma coisa que interessa tanto a você quanto ao cobrador da linha Socorro-Lapa. Este cobrador é contra o excesso de feriados no Brasil. Nacionalista, arrepie-se. Religioso, indigne-se. Sãopaulino, não vale soltar um “ui!”. Para o cobrador, apenas o dia dos pais e o dia das mães merecem ser feriados nacionais. Questionado, o cobrador disse: “próxima pergunta”. Ele aprendeu com o Ricardo Teixeira.

Solte um novelo de lã por sobre um montinho de areia. Depois, deixe seu gato brincar a vontade. É mais ou menos assim a estrada que liga Paraty a Trindade. Mas não pense que isso é motivo de medo para os intrépidos motoristas. Não, longe disso. Eles colocam Roberto Carlos no ouvido, Leandro e Leonardo no sistema interno de som e vão cantando “por isso corro demais, só para te ver meu bem”.

Eles aceleram na subida e na descida, na curva e na reta. Portanto, vou poupá-los de explicações. O vídeo abaixo é uma versão em desenho da viagem.

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Homenagem ao faroeste

Outubro 16, 2008 · 1 Comentário

Meu amigo Fernando Vives anda assistindo western spaghetti. Ele é fã de “For a few dollars more”. Ontem, encontrei na internet um CD do Ennio Moriconne. Não vi o filme, mas a trilha sonora do italiano merece um lugarzinho no seu ipod. Se alguém souber como eu coloco o arquivo de MP3 aqui, por favor, me avisem.

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Atualizado às 20h20. Vives me ensinou como faz para subir músicas. Emocionem-se.

For a few dollars more, do Ennio Morricone

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Mais uma atualização, agora às 21h08

Meu amigo Rodolfo Albiero, que não tem blog, diz para eu ver o filme de cuja música eu gostei. Sugere outros também.

Compartilho aqui.

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Pônei bêbado é resgatado de piscina na Inglaterra

Outubro 16, 2008 · 1 Comentário

O texto da BBC é um alerta. Cuidado, crianças: quando aquele seu amigo pônei te chamar para beber, lembre-se: antes só do que mal acompanhado.

“Um pônei que ficou bêbado por ter comido maçãs fermentadas em excesso foi resgatado depois de cair dentro de uma piscina em Newquay, no sul da Inglaterra. 

O pônei Fat Boy fugiu do estábulo Trenance Riding e invadiu o jardim de Sarah Penhaligon para alcançar as frutas que haviam caído das árvores. 

No entanto, algumas delas estavam no chão há muito tempo e já tinham começado a fermentar e produzir álcool, o que deixou o animal desorientado. 

A proprietária da casa conta que foi acordada de madrugada pelo barulho do animal, que já havia caído dentro da piscina. 

Ela chamou os bombeiros e a equipe conseguiu retirar o pônei da água sem lesões. 

“Quando olhei para fora e vi esse animal enorme pensei que a Besta de Bodmin estivesse dentro da piscina. Só quando olhei de perto vi que era um cavalo”, disse Penhaligon.” 

O texto completo, com fotos, está aqui

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Sobre heróis e tumbas

Outubro 15, 2008 · 1 Comentário

O título deste post é homônimo do livro de Ernesto Sábato, mas o conteúdo guarda pouca semelhança. É mais pela imagem que estes dias de “ele é casado? tem filhos? o que mais o Kassab esconde?” evoca. A campanha de Marta Suplicy copia os trejeitos e a etiqueta que menos de um ano atrás foram utilizadas contra o padre Júlio Lancellotti. Na ocasião, o religioso entrou na Justiça contra um menor que o extorquira.

A história é muito mal contada, mas, até agora, nada ficou provado contra o padre. Apesar disso, alguns blogueiros e políticos que hoje defendem, com justiça, a privacidade do prefeito, aproveitaram a ocasião para insinuar que o sacerdote era pedófilo. Os petistas, e o próprio padre era identificado com o petismo, se apressaram a ablegar as acusações, em uma campanha feita por meio da mídia e pronunciamentos nas Casas Legislativas país adentro. Alguns desses petistas hoje aplaudem a estratégia martista de insinuar perguntas sobre a vida pessoal do prefeito. Justiça seja feita, alguns petistas, alguns políticos alheios ao PT e alguns blogueiros partilharam da mesma dignidade e não embarcaram nem nas maledicências contra o padre nem contra o prefeito _que, aliás, são desafetos.

As pessoas responsáveis pela campanha de Marta e os blogueiros e políticos que fizeram troça de Lancellotti são bem parecidos. Esses heróis do oportunismo primeiro agem, depois arrumam princípios para justificar seus atos. Merecem nosso desprezo e a nossa torcida: que a fraqueza de caráter logo se transforme em irrelevância pública.

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