Tenho dois amigos que entendem bastante de Estados Unidos. Mauricio Savarese e Luiz Raatz, desde o começo do ping-pong Obama-McCain, se colocaram ao lado do democrata. Eles têm uma lista de argumento pró-Obama para os meus ouvidos descrentes, e eu costumo ouvi-los. São pessoas que acompanham tantos os obscuros quanto os famosos blogs de política norte-americana, lêem os grandes jornais e até os pequenos jornais, têm a lista de presidentes americanos na cabeça.
Savarese escreveu um texto em seu blog sobre as diferenças e semelhanças entre Lula e Obama. Afirmou que a diferença fundamental é que Lula é presidente apesar do Brasil, das suas desigualdades, da ausência de serviços básicos do Estado. Obama pode ser presidente dos EUA porque teve oportunidades criadas pelo Estado, como as políticas de ação afirmativa. Eles seriam símbolos destes dois processos.
Eu concordo, em partes. Acho que, ao transformar pessoas em símbolos, tentamos dar uma justificativa racional para aquilo que é um tanto irracional: simpatia, empatia, admiração. Vejo várias pessoas escrevendo (não é o caso nem de Savarese nem de Raatz) que cada discurso de Obama é “histórico”. Que ele será o presidente mais importante da “história” dos EUA porque tem uma “história incrível”.
Olho para esses argumentos e torço o nariz. Os países da América Latina elegeram um metalúrgico, um índio, a filha de um militar morto pela ditadura chilena e um ex-bispo católico só nos últimos dez anos. A Alemanha elegeu, na década de 90, Gerhard Schröeder, que teve o pai morto pelos nazistas, e Ângela Merkel, egressa da ex-Alemanha comunista. A França elegeu Nicolas Sakozy, filho de húngaros em um país que tem uma das direitas mais xenófobas do mundo. A Espanha colocou no poder o neto de um republicano fuzilado pelas tropas de Franco durante a Guerra Civil Espanhola, o Zapatero. A África do Sul elegeu Mandela, e isso é o bastante.
Parece haver uma tendência nos últimos anos a eleger figuras com biografias fartas de passagens marcantes. Não consta que nenhuma dessas pessoas tenha feito governos tão impressionantes quanto suas histórias. Lula seguiu o trilho aberto por FHC, Evo Morales, tanto por culpa dele quanto devido a uma oposição demófoba, mal consegue governar um pedaço da Bolívia. Michelle Bachelet manteve a política herdada dos governos de coalizão que governam o Chile desde o fim da ditadura. Sarkozy defendeu quase um “choque de gestão” nas periferias repletas de imigrantes de Paris, que consistia basicamente em tornar a vida dessas pessoas mais difícil. E Zapatero tornou a vida dos imigrantes na Espanha praticamente insuportável.
Curiosamente, os alemães sem nenhum carisma deram os passos mais importantes. Foram Schröeder e Merkel, os menos “simbólicos” desta lista, que arrefeceram as pretensões bélicas do seu país e melhoraram as relações com Israel.
Parece que quanto mais não-convencional é o passado de uma pessoa, mais ela se esforça para fazer um governo o mais convencional possível. Com uma campanha milionária, apoio de conservadores do Partido Republicano e de economistas da Universidade de Chicago, não me parece, ao menos até agora, que Obama será uma exceção, ao menos para quem imagina que ele fará uma “revolução história” nos EUA. O presidente que mais fez pelos negros nos Estados Unidos, por exemplo, foi o branquelo filho do “baby boom”, o Bill Clinton.