Um dos meus contos prediletos é “Jardim de Caminhos que se Bifurcam”, do Borges. Quando li pela primeira vez, lá se vão mais anos do que gostaria de pensar às vésperas de um 31 de dezembro, passei ao menos dois meses desenhando um jardim com caminhos que se partem em dois. Tinha um objetivo. saber até que ponto era possível se bifurcar sem que os caminhos se encontrem adiante.
Borges era um grande leitor de um escritor inglês chamado G. K. Chesterton, que enfrentou com sutis paradoxos lógicos uma série de modismos intelectuais e literários da sua época. Ele ironizou com delicadeza as pessoas que acreditam demais nelas mesmas (escreveu que só os loucos acreditam piamente nas próprias possibilidades) e afirmou que é mais fácil acreditar em duendes do que no progresso humano.
Hoje, recebi um texto que me lembrou tanto Borges quando Chesterton. O autor é o Duilio Ferronato, blogueiro da Folha Online. Ele escreveu um texto vociferando contra Israel. Duilio certamente é uma pessoa que acredita muito em si mesmo. Os textos em seu blog são recheados de certezas sobre a vida, o homem e o design de móveis e objetos. Ele repete, basicamente, os bordões, clichês e embustes ideológicos dos anti-semitas: vamos boicotar os malvados judeus, sempre com seus amigos, sempre protegidos, sempre fazendo aos palestinos o que os nazistas fizeram com eles. Só falta reavivar os protolocos dos Sábios de Sião. Mas ele tenta um disfarce: ele diz que é contra a fabricação de armas, qualquer arma. Duilio tenta parecer um homem de paz.
Mas Duilio entrou em falso um jardim de veredas que se bifurcam com essa última proposição. Ele atira contra Israel e contra os fabricantes de armas. A conclusão que se tira é que Israel e os fabricantes de arma são uma coisa só, e o jardim estaria fechadpo. O problema é que os pontos de um jardim de veredas que se bifurcam, depois de muito tempo, crescem até se encontrarem adiante. Formam um círculo, onde todos os caminhos estão ligados de alguma maneira entre si. Viram vasos comunicantes. Duilio engendra uma mentira, uma mentira simplista, maniqueísta. Porque o Estado de Israel não é os fabricantes de armas. Seu raciocínio é limitado.
Os ataques de Israel à Faixa de Gaza são criminosos. Há um massacre em andamento. O Estado de Israel trata os adversários na base da porrada. Foi assim com o Líbano, foi assim na Guerra dos Seis Dias. Mas o que dizer do Hamas, que atira foguetes contra Israel e prega a destruição do Estado? Ou da Síria? E do Irã, cujo presidente nega a existência do Holocausto? Eles não usam flores. Eles não fazem protestos pacíficos. Eles matam. Eles usam mulheres e crianças como escudos humanos. Eles fazem atentados suicidas.
Infelizmente, é assim que as coisas têm sido faz alguns séculos. Quem se sente seriamente ameaçado, ataca. A situação internacional é de anarquia. Não há uma polícia internacional que faça os Estados cumprirem leis universais _ no máximo, algumas resoluções. Nem há disposição para tanto nem parece que essa seja a melhor solução: quem vai abrir vão de sua soberania?
Ainda estamos em um estágio tão primitivo que há um número considerável de pessoas que defendem a invasão da Bolívia e do Equador pelo Brasil por causa de gás e do BNDES e há pessoas, tão presas ao seu etnocentrismo, que acham que cada povo tem sua cultura e ela tem de ser respeitada. Afirmam que a mutilação de clitóris e burca são parte da vida dos povos árabes e nós, ocidentais, temos de respeitá-los. Duas besteiras estrondosas. Assim como defender o boicote. Se desse certo, Cuba já seria extensão de Miami faz muitos anos, talvez desde o começo dos anos 90.
Outra mentira de Duilío é associar o conflito entre Israel e o mundo árabe à questão religiosa. Israel é um Estado laico. Há diversos países de maioria muçulmana, como a Turquia e o Egito, que mantêm relações com Israel. O problema não é esse. Os judeus conviviam com outros povos em paz, espalhados pelo mundo, até o Holocausto: estavam na Rússia cristã ortodoxa, na Alemanha católica e protestante. Com o crescimento do anti-semitismo, essas pessoas tiveram de deixar seus países porque ou iam aos campos de concentração. Os judeus passaram a esperar o próximo massacre. Um amigo meu, judeu, conta a história do avô de um amigo dele que mantém uma mala debaixo da cama _ se ele sentir que a chapa vai esquentar, migra.
Diante desse quadro, os judeus tiveram de procurar um lugar mais ou menos seguro para morar, onde ao menos a ameaça não fosse permanente. Cogitaram uma parte da Argentina, mas não deu certo. Foram à Palestina, e o resto da história é conhecida.
Não há uma única razão para o conflito, há várias, e cada ação deve ser julgada em si mesma. Um massacre é sempre um massacre, não importou quem o engendrou nem com qual motivação. Mas uma olhada menos preconceituosa ao passado ajuda a evitar raciocínios. Não sou o Duilío, não tenho respostas para tudo. Só não admito que as pessoas escrevam textos pregando o ódio. Por que não se calam? Quando não há o que falar, é melhor se calar. O silêncio é uma virtude.
Até algum tempo atrás, eu ia à missa na minha paróquia em Caieiras para pensar na minha própria vida. Havia o momento de orar em voz alta e o momento de calar. Hoje, mudou o padre. Ele tenta preencher todos os momentos de silêncio com cantos, alguns de gosto bastante discutível. O silêncio, repito, é uma virtude. A histeria é uma forma de fugir da nossa própria ignorância. E somos ignorantes sobre a maior parte dos assuntos da nossa existência. O conflito no Oriente Médio não se resolve com manuais de auto-ajuda repletos de rancor.