The Pompéia Times

Entradas do Fevereiro 2009

Notas sobre a viagem ao deserto do Atacama – 1

Fevereiro 28, 2009 · 2 Comentários

- No aeroporto de Guarulhos, no guichê da Lan Chile, um vendedor olhou para mim e falou: “Tiavero de Brasil?” Não, obrigado.

- O aeroporto de Santiago é encarpetado na área de embarque e desembarque. A área de desembarque é como a estação Jabaquara do metrô de São Paulo. Muita gente falando ao mesmo tempo, táxi, lotação…

- O elevador do aeroporto às vezes quebra e só tem escada rolante no último piso e na menor distância, que liga a área de check-in ao restaurante “Gatsby: buffett e café”.

- Americanos, canadenses, mexicanos, australianos (neozelandeses?) e albaneses pagam para entrar no Chile. É a taxa de reciprocidade.

- Toca reggaeton no celular da fiscal da polícia de imigração chilena.

- O aeroporto de Santiago não tem relógio.

- Pronto, agora é Calama, depois de quase duas horas de voo e choro de crianças no avião que saiu da capital chilena. É a cidade (pequena, perto do deserto) do Cobreloa,  time que já chegou à final da Libertadores (isso não é uma alfinetada no Corinthians).

- A noite é tão fria e seca que até o meu dente do siso parou de doer. Não sei se tem relação.

- Pessoas brancas vendem camisetas pedindo autonomia para os índios mapuche (que são caras durões e tem uma relação conturbada com o governo do Chile).

- “Eu sou o garoto fofinho”, disse o guia do primeiro passeio. Ok.

- Eu e um chileno que mora na França conversamos sobre a crise financeira internacional no meio de uma cordilheira de sal em uma língua que guardava pouco parentesco com o português, o espanhol e o francês, mas que tinha elementos das três línguas.

- As cavernas da cordilheira de sal têm preconceito contra pessoas com mais de 50 cm de altura e 10 quilos.

- Todo mundo lambe a pedra de sal até saber que tem arsênico.

- Um grupo de moças fazia trekking com sapatinho/sapatilha (com lacinho, lindo) e havaiana modernosa.

- Um alemão (sueco? holandês?) gostou de imitar um macaco para escutar o eco no Vale da Lua.

- A garçonete da pizzaria nos atende e namora pelo celular via SMS.

- O bar tem uma fogueira dentro.

- As pessoas comem pizzas em pedaços de madeira.

- Os adolescentes de San Pedro do Atacama também são emos.

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Este blog voltou, o boêmio voltou

Fevereiro 26, 2009 · 2 Comentários

Este blog voltou depois de uma temporada de, no mínimo, 2500  metros de altitude, com picos de 4800 metros. O nariz sangra um bocado, o ar rarefeito dá uma dor de cabeça danada, a temperatura varia de 0 a 30 graus. E mesmo assim eu voltaria a San Pedro do Atacama, povoado por menos de 2 mil pessoas, no coração do deserto do Atacama, no Chile.

A partir de algum dia entre hoje e domingo, este blog fará uma série de textos sobre o deserto. Mas não hoje. Porque o aeroporto de Santiago não é um lugar confortável para dormir.

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Este blog está temporariamente fora de serviço

Fevereiro 17, 2009 · 2 Comentários

Senhoras e senhoras, respeitável público

este blog vai ficar paradão até o dia 26/2. Fará uma incursão pelo deserto.

Um abraço

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Pequenos flashs

Fevereiro 17, 2009 · 1 Comentário

- Enquanto eu lia um guia turístico no ônibus que me leva de volta para casa, uma mulher me observava no banco ao lado. And she said: “Do you need some help?” Não, obrigado. “Desculpe, é que o guia estava em inglês, você é loiro, e São Paulo é uma cidade perigosa…” Normal, acontece. Quando fui a Belém do Pará, em 2003, uma criança puxou o vestido da mãe, apontou o dedo para mim e falou: “Olha, mãe, um gringo, mãe!” No outro dia, ainda em Belém, uma mulher me parou e falou: “Moço, você é de Nova York?”  

- Vocês todos são uns falsos, uns otários. Eu tô com um monte de doença, longe da minha filha, da minha família, só estou pedindo um dinheiro para comprar um pastel, um pão e o que adianta ir na igreja se você não faz piedade? não tem padre pastor que salve a sua alma. Não vai dar? Seu óculos vai quebrar na sua cara, não eu, eu não, mas vai quebrar, e não vai ter motorista ou cobrador que vá ajudar, não vai, e ai ? quem vai me ajudar? vamos lá, gente, fazendo uma caridade para a sua própria alma… (trechos da fala de um homem que entrou no ônibus Terminal Pirituba-Itaim Bibi na tarde desta segunda-feira, 16 de fevereiro de 2008 )

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De quando não me tornei crítico de arte

Fevereiro 16, 2009 · 1 Comentário

Entre o museu e o outdoor

As intervenções urbanas questionam o espaço público, brigam entre si e provocam a pergunta: a arte tem alguma utilidade prática?

Texto Leandro

Um outdoor está na rua para vender um produto. Como são muitos, você vê mesmo quando não quer. Já o que está em um museu você só vê se pagar. E aparentemente, um outdoor não tem nada a ver com um museu. Só aparentemente, desde o surgimento de uma idéia que pegou a arte e a jogou na rua, como um outdoor. O nome dessa idéia é intervenção urbana e sobre ela pairam tantas divergências que é melhor a gente começar com uma história.

Nos anos 70, 3 estudantes de artes plásticas de São Paulo queriam protestar contra a ditadura no Brasil. Mas eles não queriam só fazer um protesto. Eles também queriam se divertir. Hudinilson Jr., Mário Ramiro e Rafael França decidiram encapuzar estátuas. Não sobrou ninguém: dom Pedro I, anjos, bustos de padres, engenheiros, militares. Todo mundo que, segundo a opinião do grupo, era identificado com o regime foi encapuzado. Os 3 passaram a manhã seguinte ao telefone, ligando para os jornais. “Cada um inventava uma história e se passava por um advogado indignado, uma vizinha brava, uma velha assustada. Saiu em todos os jornais”, diz Hudinilson Jr.

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O uniforme de Luxemburgo

Fevereiro 16, 2009 · 2 Comentários

O técnico do Palmeiras, Vanderlei Luxemburgo, não usou ternos nos jogos contra o Paulista e o Mirassol. Estava agasalhado com uniforme da equipe. Se eu tivesse fontes bem-informadas, próximas ao treinador, eu diria que isso significa alguma coisa. Como não tenho, registro e me resigno.

Eu, particularmente, não me lembro da última vez que vi Luxa sem terno em um banco de reservas. Nem em 1996, quando o time fez mais de 100 gols em um Campeonato Paulista.

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Rua Amauri, Itaim Bibi, São Paulo

Fevereiro 12, 2009 · 1 Comentário

O trecho da rua Amauri entre as avenidas Faria Lima e Nove de Julho é um pedaço de asfalto com calçadas arborizadas e sem fiação aparente. Há uma praça, uma cafeteria, uma filial de uma pizzaria fast food, dois restaurantes italianos, dois restaurantes japoneses, um restaurante de nacionalidade indefinida, três bares (um, sazonal), uma enoteca, um prédio de escritórios, uma sorveteria que faz às vezes de lanche da tarde, um ponto de táxi, um prédio residencial, uma empresa de internet, uma revistaria, um congestionamento de Porsches ou Ferraris nas noites de sexta e sábado, um farfalhar de saltos, uma profusão de maquiagens, um desfile de vestidos, uma multidão de manobristas, recepcionistas, uma sequencia de carros estacionados em filas duplas ou parados sobre as calçadas.

Os homens almoçam em mesas espalhadas pelas calçadas. As crianças brincam sem os seguranças por perto.  As mulheres riem baixo na banca de revistas. Os adolescentes paqueram na cafeteria. Os jovens fecham negócios nos restaurantes. Os carros, parados, intactos, avisam ironicamente que estão sendo roubados a cada toque estabanado de algum pedestre desavisado.Vez ou outra passa um ônibus, o Center Norte laranja.

Quando faz sol, esquenta. Quando faz frio, esfria. Quando é outono, é outono mesmo. Chove como em todas as áreas da cidade.  As placas estão em português. Talvez 50% dos frequentadores falem português. O Banco Central também é o brasileiro. O governador é José Serra, o presidente é Lula e o prefeito se chama Gilberto Kassab. Tudo indica que se trata de uma rua sofisticada situada na cidade de São Paulo,  com exceção das poças d’água. Não há ponto de alagamento, nem em miniatura, na rua Amauri. Mas há de sobra na avenida Faria Lima e na Nove de Julho. Lâminas líquidas dispersas pelo asfalto úmido e ondular saltam à frente dos carros e dos pedestres. Nem a Oscar Freire pode se dizer livre de poças. 

Há alguma coisa de fantasmagórica na rua Amauri. As pessoas que passeiam por lá não parecem estar ali. Estão vivas, é possível dizer, com alguma certeza. Só não consigo saber onde estão vivas nem como estão vivas. Elas parecem paradas em algum lugar do tempo, esperando alguma coisa acontecer, ou talvez esperando que nada aconteça. Algumas vezes, tendo a pensar que a rua é um navio rumo a um porto distante da capital paulista. Há alguma coisa do Titanic naquela elegância sortida e exposta, naqueles relógios que se impõe pelo tamanho, nos colares que quase sufocam quem os carrega. Não há sinal de luta de classe, embora a terceira classe esteja sempre à espreita, nos fárois da Faria Lima. Porém, não há Leonardo di Caprio à espreita.  Também é preciso notar que ora o Titanic está na superfície ora parece já ter submergido. Em todo caso, a despeito das tergiversações inconclusivas dispostas neste texto, é um navio com a bandeira da cidade de São Paulo. É inconfundível. 

Não há outra rua, entre as que eu já caminhei nessa cidade, em que o cheiro da insatisfação seja tão manifesto, em que a sensação de se caminhar em uma corda sobre um abismo seja tão presente. Não falo sobre o fato concreto da insatisfação diante da fome ou da violência nem sobre a insegurança manifesta a partir do desemprego. É algo que não pertence ao mundo do tato, mas da audição. É possível ouvir, aqui e ali, a frequências muito baixas, é só prestar atenção, o caminhar de Sísifo sobre a montanha: ele chegou lá, mas a pedra insiste em rolar morro abaixo.

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Entrei nesse negócio

Fevereiro 9, 2009 · Deixe um comentário

Depois de relutar um tanto, aderi: http://twitter.com/leandrohumberto

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Chuvas na Pompéia, Lapa, Perdizes

Fevereiro 9, 2009 · Deixe um comentário

O porteiro usou uma capa amarela para abrir e fechar o portão de carros. O prédio onde moro fica no meio da colina conhecida como avenida Pompéia, em uma rua paralela e de paralelepípedos que, na tarde de sábado, lembrou um riacho ancestral até o momento em que uma árvore caiu na esquina e bloqueou parte do volume de água que descia.

Quando a árvore caiu, a luz acabou. E o som da tempestade se impôs sobre o rádio que tocava indiferente no meu quarto. Nem as buzinas desencontradas dos carros que avançavam pela contramão ameaçavam a gravidade da ventania que zumbia entre as frestas da cortina de ferro que protege os vidros da minha casa. A mim só restou observar pelos vãos a cidade que parecia sucumbir. A ventania, a difusão de trovões e o negrume do céu tornavam a paisagem homogênea, com a exceção do porteiro solitário que saia de sua cabine cinza de concreto para permitir que os moradores entrassem no prédio.

A chuva não chegou a ir embora.  Só amainou o ritmo, o que me permitiu descer a rua até os cruzamentos da avenida Pompéia com a rua Turiassu e a avenida Francisco Matarazzo e ver o lago um tanto marrom um tanto acizentado que se se esvaia entre as grades vermelhas do Shopping Bourbon Pompéia. Dei meia volta e fui até a estação Água Branca, da CPTM, onde dois trens aguardavam a ordem de partida. A locomotiva com destino à minha cidade conseguiu sair do lugar, mas a outra, ao menos durante a meia hora em que fiquei ali, não. A linha do trem entre a Barra Funda e Água Branca estava debaixo d’água.

Agora, experimente clicar nas ruas que estão neste post. Elas levam ao Dicionário de Ruas, uma página que conta parte da história de São Paulo por meio do nome dos seus logradouros. A região era uma imensa fazenda, um mar de morros que foi descampado e, no século 20, deu lugar a uma comunidade onde imigrantes italianos ergueram suas casas e deram o nome  de Vila Romana e Perdizes. Agora, o bairro passa por uma devotada verticalização, com   resíduos de pedras, areia, cimento e cal que se acumulam lentamente na beira da sarjeta, entopindo galerias e bocas-de-lobo: eles voltam à superfície quando um temporal desaba sobre a cidade. Não é questão de ser algo bom ou ruim. Nem é questão de culpa, é de responsabilidade.

Enquanto o bairro cresce e se desenvolve nos morros, a área da baixada, alagada, vai se transformando em um cortiço. As pessoas que trabalham como faxineiros do shopping, porteiros e diaristas dos novos prédios, especialmente os jovens como o porteiro da capa amarela do meu prédio,  moram em casas insalubres na esquina baixa do novo shopping ou nas ruazinhas atrás do Sesc Pompéia. Quando eu era pequeno, morei durante um ano em Franco da Rocha. Vi a água subir até a porta da cozinha (meu avô construíra uma escada que parecia incompreensível nas estações secas e às vezes insuficiente na época de chuvas). Não há espetáculo de trovões cortando o céu que pague o pavor da água mórbida invadindo sua casa.

Falta, além de um piscinão na região, um pouco de dignidade no crescimento imobiliário. Que, nesse caso, só pode advir da intervenção da Prefeitura e de algum senso de comunidade, utópica diante do isolamento dos condomínios e urgente a cada tempestade. Uma região que nasceu como bairro de operários está vendo, da sacada do apartamento, seus pobres ficarem debaixo d’água .

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Homenagem ao Vertigus

Fevereiro 7, 2009 · Deixe um comentário

Houve um tempo em que eu e os meus amigos escrevíamos para nos divertir. Nessa época, a gente tocava Magal nas festas da turma e éramos viciados nos contos de Jorge Luis Borges. A ponto de criarmos um blog apenas com resenhas de escritores imaginários, e cada texto ecoava  o nosso argentino predileto depois do Camaronesi (que era argentino, mas desistiu a tempo e decidiu jogar pela seleção italiana). Nem todos eram petistas, mas quase a maioria era de algum nicho de esquerda. Parecíamos céticos e até cínicos: colocamos em um de nossos professores, academicamente falando, a pecha de inimputável, tal como as crianças e os índios, porque ele desonestamente agia.

Nessa época surgiu o Vertigus, de vida curta, alguns meses apenas, mas talvez um dos exercícios mais legais que cada um de nós já fizemos. Era uma época em que a gente realmente não podia se importar menos.

Reparto, agora, um dos meus textos no Vertigus, que o Google nem mais aponta: 

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17.2.05

Ode ao grande argentino!

 

Por Carlos Miguel Bianchinni
Colaborador de VERTIGUS

Poucas pessoas no mundo são dignas de esculpir a resenha definitiva da obra deste grande mestre da literatura policial argentina. Uma delas sou eu. Não sucumbo a qualquer pedido, ainda que todos me honrem, mesmo os mais desaforados. Imaginem, porque trabalhei numa empresa de aço para pagar meus estudos literários na Universidade de San Diego, que o Instituto Brasileiro do Aço me pediu para escrever uma série de artigos sobre a poética dos metais. Recusei, é claro. Mas indiquei um amigo, que precisava do dinheiro.

Não foi o caso deste grande argentino nascido em Tucuman. Um caipira, nascido fora do cosmopolitismo de Buenos Aires. Um orgulho para um homem como eu, sempre carinhoso com os outros, um diferente que se porta como igual entre os iguais, ainda que ciente de sua genialidade. Quero dar a este grande argentino uma resenha que me orgulhe. E ele é um dos que mais podem se dar a este luxo, justamente porque admiro algumas de suas qualidades. Entre elas, a aversão completa ao que não seja nosso, genuíno, latino: ele tinha um dos mais impiedosos olhares sobre seus contemporâneos. Não é por outro motivo que retratou Jorge Luis Borges como um pistoleiro fracassado. Ele odiava Borges e seu cosmopolitismo empoeirado. Porque odiava, deu a ele um papel secundário, detalhesco, em sua única e maior obra, objeto desta resenha. Borges é o pistoleiro que desperta piedade em Juan Camiño, o herói do livro, na cena em que Camiño estupra a mãe de Borges e este tenta matá-lo, mas erra os tiros porque já estava ficando cego.

Mas, para que eu aceitasse escrever sobre sua obra, não bastava o ódio comum contra Borges e o nosso apego às coisas nacionais, ao jeito do povo. Há algo fonético que nos amalgama, no bom e belo sentido do amalgamar: a delicadeza com a qual ele retrava a democracia em seus escritos. Aliás, muito me agrada a campanha publicitária da rede americana de lanchonetes, a Burger King, e seu precioso slogan: “A democracia é grelhada”. Nada mais apropriado para um país tropical como o nosso, em que as bases de nossas peculiaridades foram forjadas sob um sol de submeter mamonas. Mandei até uma carta aos donos do Burger King elogiando a bela profissão poética na escolha das palavras “democracia” e “grelhada”. Outra campanha que muito me chamou a atenção foi a da cerveja Skol. Mais uma vez, o gênio criativo do brasileiro foi atingido por uma flecha galáctica de proporções nunca vistas, e o verso “a democracia é redonda” me fez parar de pensar por alguns instantes. Fascínio igual, só quando terminei de folhear “Babel de poemas – uma antologia multilíngüe”, de Carlos Freire. Ninguém nunca fez uma tradução do eslavo tão bela quanto a dele. Muito boa a escolha da LPM em publicá-lo. Freire é um amigo muito querido. Proporei a Freire um outro livro, em português, apenas com a tradução de grandiosos slogans publicitários e manchetes jornalísticas que elevem o caráter nacional. Não me importa que tenham sido escritas por mentes russas, desde que orem ao caráter brasileiro.

Diante dessa minha abundância de critério, não é por outro motivo que alonguei durante meses e meses de negociação exaustiva com os herdeiros, com a editora, com os jornais desta capital a publicação da resenha definitiva do homem que, aos 20 anos, era o único que tomava a defesa de Pablo Neruda contra as investidas covardes de Borges em difamá-lo como um autor sem nenhum talento, afora o de marketing. Um argentino contra um argentino, por um chileno. Mas um chileno de alma argentina, ao contrário de Borges, um argentino que aprendeu inglês antes do espanhol: quando leu o maravilhoso Dom Quixote na língua em que fora escrito por Cervantes, achou que se tratava de uma tradução mal feita do inglês, suprema heresia! O resultado é que vocês, leitores deste precioso site de divulgação restrita, dedicado às pessoas de bom gosto, têm o privilégio de ler, pela primeira vez em português, algumas palavras sobre a vida e a obra de um homem que passou boa parte de sua vida na Universidade de Buenos Aires, entrincheirado contra os homens e mulheres que objetavam transformar a Argentina em uma enorme Suíça, sem identidade, perdida nas cordilheiras e separada da consciência comum de seus irmãos uruguaios, chilenos e brasileiros. Desculpem-me os paraguaios, mas nada me tira da cabeça que vocês são a nossa Taiwan: não passam de uma província rebelde que Duque de Caxias não conseguiu anexar.

Estabelecidos os critérios, os que unem este vigoroso torcedor do Boca Juniors a mim, um fanático botafoguense, façamos algumas ressalvas aos outros brasileiros que quiseram tirar de mim a prioridade em comentar o escrito de dois volumes de mil páginas sobre as façanhas de Juan Camiño. Um dele é Carlos Heitor Cony – sim, eu sou um dos únicos neste mundinho literário que tem a salutar mania de dar nome aos bois – que fez o prefácio do livro daquele comediante de quinta categoria chamado Renato Aragão. Fica aqui a indicação: Cony, leia “Conselhos aos escritores de meu tempo”, onde estabeleço as normas cultas da resenha e do comentário e onde professo os dogmas de brilhantismo que unem os escritores os mais diversos. Basta ver que todos, ao contrário de você, escrevem com sujeito, verbo e predicado.

Vamos, não nos demoremos mais, falemos deste grande escritor. Porém, sou afeito a idéia de que o escriba deve ser o mais honesto possível com seus leitores. Como não pressuponho que todos os leitores deste site tenham tido a oportunidade de me conhecer, já que fui banido dos livros escolares e da grande mídia pelas resenhas contra Machado de Assis e a sua mania de defender o adultério, o homossexualismo e o aborto, falarei um pouco de mim.

Nasci em Copacabana, donde, aos 5 anos de idade, eu já sabia de cor as flexões verbais e recitava alguns poemas de Tomas Antônio Gonzaga. Minha carreira foi meteórica. Fundei o “Coletivo de Escritores pela Liberdade”, em que pretendíamos pedir ao presidente Dutra para que o governo subsidiasse a publicação de novos autores. Li Beckett e Joyce, me convenci do desfacelamento do mundo com Deleuze, amei a alteridade de Foucault e criei um dos primeiros movimentos de contestação contra a ditadura militar, o “Movimento dos Poetas”, simples assim, que pretendia espalhar poesia pelo Planalto Central para sufocar o espírito castrense dos mandatários da nação. Obviamente fomos bem sucedidos. Dias depois assumiu o presidente Figueiredo, e a democracia, a bela e doce democracia, já raiava sobre nós. Minhas amizades são as mais díspares, e variam entre Saramago e Tayeb Salih, passando por J.M. Coetzee e os herdeiros de Kafka.

Um homem de bom gosto, sim, este sou eu. Podem ficar tranqüilos. Comprem o livro do maior mestre da literatura policial argentina e terão feito uma das melhores aquisições culturais de vossas vidas. Recomendo, a vocês também, a compra do meu livro: “A democracia tostada”, em que reflito sobre a dialética entre o popular e o poético nas obras de Piazzola e Chico Buarque.

 

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