The Pompéia Times

Os detetives selvagens, Roberto Bolaño e o Radiohead. E um pouco de Palmeiras

Março 25, 2009 · Deixe um comentário

Eu aprendi a não arremessar objetos contra a televisão. Foi tudo muito simples e claro. Suprimi a agressividade a ponto de evitar até os gritos mais discretos em um estádio de futebol. Não xingo os atletas. Não ofendo o treinador. Somatizei os protestos desde o dia em que quebrei um vaso da minha mãe quando algum jogador do Palmeiras perdeu alguma bola em algum jogo do qual não me lembro mais. A almofada resvalou no vaso antes de atingir a tela. É por isso que sempre saio com dores no cotovelo quando o juiz apita o fim da peleja. Vejam, é sério: trato a família do Jeci, do Evandro e do Fabinho Capixaba com respeito.

Este é o autor?

Este é o autor?

Eu era adolescente. Por isso entendo o Garcia Madero. Ele queria ser um poeta. Quando conheceu o Ulisses Lima e o Arturo Belano, decidiu ser real-visceralista porque eles enfrentaram os babacas, os nefelibatas, os babetas que faziam poesia na oficina que freqüentava na universidade _certo, eles não sabiam muito sobre métrica grega ou latina, mas eram caras legais, detestavam o Octavio Paz e tinham uma turma de amigos grande e interessante que o ajudou a perder a virgindade. Madero não me engana nem com aquelas tardes intermináveis vagando pelos sebos da Cidade do México. Ser poeta e abandonar a virgindade. Nice!, diria Borat.

O chuveiro perdeu a graça quando Madero conheceu real-visceralismo, do qual, até onde se sabe, ou não se sabe, nunca se desvencilhou. Eu li o diário dele, pelo menos as páginas dedicadas aos meses de novembro e dezembro de 1975 e janeiro e fevereiro de 1976, quando tinha 17 anos. Sei muito sobre as posições preferidas de Maria Font e o pansexualismo de Pele Divina, sei sobre autores franceses que nem sei se existem e os melhores bares da Cidade do México nos anos 70.

“Os detetives selvagens”, do chileno (que também viveu no México, na Espanha e serviu à pátria do trotskismo) Roberto Bolaño, se divide em três partes e dois grandes modelos de texto. A primeira parte é o começo do diário de Garcia Madero, a segunda é uma sucessão de depoimentos sobre Belano e Lima e sobre as pessoas que falam sobre Belano e Lima, e a terceira retoma o diário de Madero.

Dentro desses “grandes modelos” há contos escondidos dentro de depoimentos, ensaios sobre literatura e política no diário de Madero, passagens eróticas que sobreviveriam por si só em qualquer boa antologia dedicada a homens que amam mulheres, mulheres que amam homens, homens que amam homens e mulheres que amam mulheres e variações a seu gosto. É pouco defini-lo como o balanço de uma geração. É o melhor retrato que já li sobre como turmas de amigos com alguns interesses em comum se unem e se separam ao longo dos anos, na maior parte das vezes em movimentos a esmo, provocados por um caldeirão de sentimentos e convicções.

Este livro não reduz seus personagens a uma figura emblemática de uma geração específica, como no bom filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, e nisso sobrevive a sua originalidade _ em vez de ser um bom livro, é um grande livro. Durante o show do Radiohead, em São Paulo, eu vi e ouvi várias pessoas que poderiam ser personagens do livro de Bolaños. Eu e meus amigos, por exemplo, mas não só. O show do Radiohead teve a capacidade, em muitas pessoas, de acertar as contas com o passado nem que fosse por algumas horas. O livro de Bolaños oferece experiência semelhante.

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