Eu aprendi a não arremessar objetos contra a televisão. Foi tudo muito simples e claro. Suprimi a agressividade a ponto de evitar até os gritos mais discretos em um estádio de futebol. Não xingo os atletas. Não ofendo o treinador. Somatizei os protestos desde o dia em que quebrei um vaso da minha mãe quando algum jogador do Palmeiras perdeu alguma bola em algum jogo do qual não me lembro mais. A almofada resvalou no vaso antes de atingir a tela. É por isso que sempre saio com dores no cotovelo quando o juiz apita o fim da peleja. Vejam, é sério: trato a família do Jeci, do Evandro e do Fabinho Capixaba com respeito.

Este é o autor?
O chuveiro perdeu a graça quando Madero conheceu real-visceralismo, do qual, até onde se sabe, ou não se sabe, nunca se desvencilhou. Eu li o diário dele, pelo menos as páginas dedicadas aos meses de novembro e dezembro de 1975 e janeiro e fevereiro de 1976, quando tinha 17 anos. Sei muito sobre as posições preferidas de Maria Font e o pansexualismo de Pele Divina, sei sobre autores franceses que nem sei se existem e os melhores bares da Cidade do México nos anos 70.
“Os detetives selvagens”, do chileno (que também viveu no México, na Espanha e serviu à pátria do trotskismo) Roberto Bolaño, se divide em três partes e dois grandes modelos de texto. A primeira parte é o começo do diário de Garcia Madero, a segunda é uma sucessão de depoimentos sobre Belano e Lima e sobre as pessoas que falam sobre Belano e Lima, e a terceira retoma o diário de Madero.
Dentro desses “grandes modelos” há contos escondidos dentro de depoimentos, ensaios sobre literatura e política no diário de Madero, passagens eróticas que sobreviveriam por si só em qualquer boa antologia dedicada a homens que amam mulheres, mulheres que amam homens, homens que amam homens e mulheres que amam mulheres e variações a seu gosto. É pouco defini-lo como o balanço de uma geração. É o melhor retrato que já li sobre como turmas de amigos com alguns interesses em comum se unem e se separam ao longo dos anos, na maior parte das vezes em movimentos a esmo, provocados por um caldeirão de sentimentos e convicções.
Este livro não reduz seus personagens a uma figura emblemática de uma geração específica, como no bom filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, e nisso sobrevive a sua originalidade _ em vez de ser um bom livro, é um grande livro. Durante o show do Radiohead, em São Paulo, eu vi e ouvi várias pessoas que poderiam ser personagens do livro de Bolaños. Eu e meus amigos, por exemplo, mas não só. O show do Radiohead teve a capacidade, em muitas pessoas, de acertar as contas com o passado nem que fosse por algumas horas. O livro de Bolaños oferece experiência semelhante.
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