Frase do presidente: “É uma crise causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes da crise pareciam saber tudo e agora não sabem nada”.
Frase do presidente 2: “Como eu não conheço nenhum banqueiro negro ou índio, eu só posso dizer que [não é possível] que essa parte da humanidade que é a mais vitima do mundo pague por uma crise. O que nós percebemos é que, mais uma vez, grande parte dos pobres do mundo são as primeiras vitimas”.
Mais, aqui. Ou, se quiser, assista ao vídeo aqui.
Alguns meses atrás, o presidente disse isso: “Por que o brasileiro tem mais criatividade? Esta mistura do europeu, índio, negro, sabe, permitiu que nascesse um povo mais criativo, mais esperto do que a média, daqueles que são tudo assim, tudo a mesma coisa…” Vinicius Torres Freire, da Folha, escreveu um post com o mesmo título que uso neste texto. Apanhou, e reportou aqui.
Troque “gente branca e de olhos azuis” por “judeus”, “negros”, “índios”, “nordestinos”. Troque “brasileiro tem mais criatividade” por “alemão tem mais criatividade”, “norte-americano tem mais criatividade”, “branco tem mais criatividade”, “japonês tem mais criatividade”. Sempre vai haver alguém para dizer que Lula usou uma metáfora, que fez uma brincadeira, um gracejo, que na verdade queria dizer isso, que na verdade queria dizer aquilo, que como um nordestino, ex-metalúrgico, poderia ser racista?
E se fossem essas pessoas? (O link do texto está aqui)
“Não somos pessoas preconceituosas, em absoluto. Além de lavadeira e um excelente motorista negro, as duas cozinheiras que tive na vida são pretas telefônicas.”
Carmen Mayrink Veiga, socialite, ao saber que o marido, Tony, tem entre seus ancestrais uma negra angolana
“Assim como os franceses, que inventaram os perfumes porque não gostam de tomar banho, nós vamos colocar perfume de morango em certas áreas da cidade que não cheiram bem.”
Luiz Paulo Conde, prefeito carioca, em mais um momento de Cesar Maia
E mais da Carmen, aqui
Veja — É surpreendente ouvir que vai trabalhar uma mulher que disse que jamais trabalharia na vida.
Carmen — Eu nunca disse isso. O que declarei certa vez é que na minha vida, cheia de compromissos e viagens, não tinha lugar para o trabalho. Penei com termos pejorativos horrorosos, como grã-fina, dondoca e agora essa tragédia de ser chamada de socialite. Nem sei o que é isso. Sempre trabalhei como uma negra, grátis, sem ter férias nem salário. Você acha que ser dona de casa é pouco?
Ou mesmo o Berlusconi, que disse que Obama é jovem, bonito e bronzeado e afirmou ser diferente do Obama porque é mais pálido?
Ou o Fernando Henrique, que disse ter um pé na cozinha?
Lula não tem salvo conduto para dizer as maiores barbaridades como se fossem banalidades porque é nordestino e ex-metalúrgico. Suas declarações têm de ser repudiadas como o que de fato são: racistas.
Sobrou dúvida?
Vá ao dicionário Houaiss:
racismo
Datação
sXX cf. AGC
Acepções
■ substantivo masculino
1 conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias
2 doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras
3 preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente, ger. considerada inferior
4 Derivação: por analogia.
atitude de hostilidade em relação a determinada categoria de pessoas
Ex.: r. xenófobo
Etimologia
1raça + -ismo; ver rat-
Adendos:
Mauricio Savarese escreve nos comentários: “Caríssimo, discordo. Uma definição de dicionário não resolve se uma pessoa é racista ou não. A realidade é tão complexa que o mesmo Lula é tido como um dos melhores amigos da comunidades judaica e árabe do Brasil. Entre os seus assessores, há poucos negros e índios, como ele mesmo diz. Me parece um pouco exagerada a sua avaliação. Mas democracia é isso aí: amizade não decreta concordância absoluta. Abração!”
Bárbara Castro escreve nos comentários: “Também não acho que seja racismo. Não entendo que ele tenha feito uma escala de qualidades entre negros, índios e brancos. O erro foi chapar a realidade: nem todo pobre é negro, nem todo branco é rico. Mas, de onde eu venho, são poucos os banqueiros, estadistas e donos da grana que são negros. Acho que o descuido foi o de não matizar o discurso, mas acredito que a origem do discurso é a preocupação de traduzir a desigualdade de oportunidades baseada em um (pre)conceito racial. Foi infeliz, porque dá margem para se pensar o preconceito inverso. Mas a frase não é racista em si. É classista.”
Comento: Maurício e Bárbara fazem algumas ponderações interessantes, acrescentando nuances à discussão, mas eu mantenho a minha avaliação. As declarações de Lula são racistas. O presidente poderia ter dito que a crise é culpa de especuladores. Ou de governantes lenientes. Ou de um sistema que perdeu valores éticos e morais. Ou de uma sociedade doente. Há explicações de todos os tipos, para todas as escolas de pensamento, se a idéia é colocar culpa (o que, aliás, acho bem pobre, como se a crise fosse uma questão de culpa). Ele escolheu personalizar a crise nas pessoas brancas e de olhos azuis. Não é a primeira vez que Lula faz isso. Com frequência, ele atribui qualidades positivas ou negativas a povos e etnias e, agora, a indivíduos. Lula pode ser ter vários amigos das mais diversas cores e origens. Mas suas declarações, dia a dia, mostram que ele ainda usa a categoria raça, sepultada pelos horrores do século 20, para pensar e se expressar.