- O motorista e seu acompanhente, que nos levaram de Calama a San Pedro, disseram que o Carnaval da cidade era movido a sexo, drogas e álcool. Eles mentiram. Tsc, tsc, tsc.
- Eles corriam muito nas [modo Roberto Carlos cantando "Nas curvas da estrada de Santos"] curvas… da cordilheira do Sal… foi que eu te encontrei… [fim do modo Roberto Carlos].
- San Pedro tem prefeita.
- Em todos os lugares públicos há uma placa contra o alcoolismo.
- O lema dos carabineros, a polícia militar meio federal do Chile, é Ordem e Pátria.
- A praça central lembra a Praça da República, em São Paulo.
- O aparelho de som da praça central às vezes toca os sons de erro do Windows.
- Há muitos cachorros na cidade.
- Até você descobrir que o Carnaval é Carnaval, rola um clima tenso. Parece as noites do terror, do Playcenter.
- No Carnaval, tinha uma pessoa vestida com o tradicional traje de gala de papel marchê. O rei e a rainha usavam papel laminado.
- Chá de coca tem gosto de chá verde. Tomei pela primeira vez em um café que quebrava um xícara a cada 15 minutos e tinha um cliente vestido de Indiana Jones.
- A cidade tem um semáforo de raios ultravioleta. Caras morenões, como eu, só podem ficar no sol, no alerta máximo, durante 11 minutos. Pelo semáforo, eu só poderia sair de casa entre 7h e 10h e depois das 18h.
- Não alimente as crianças no museu, em sua maioria súditos do reino de Sarkozy e Carla Bruni. Uma criança, o Nicolas, reclamou de os vasos incas estarem quebrados. Sua mãe respondeu: É que eles são muito velhos. Depois, ele quase arrancou os cabelos, de verdade, é sério. Ele não entendeu o vai e vem de civilização que vai, que vem, de inca, boliviano, atacamenho. Ele só entendeu quando os espanhóis chegaram.
- Uma família de São Paulo, que comeu prosciutto no deserto, era liderada por um pai empolgado com a aula de história de si para si mesmo. Ele via a filha apontar para tudo “o que é isso, pai?” e não ler nada.
- Há uma coleção de livros do padre-fundador do museu, mas ela não pode ser consultada.
- As crianças andam pela cidade em um carrinho coberto com um pano úmido.
- Os preços da cidade são um tanto extorsivos. Lembra Jardins. A não ser que você coma no McDonalds local, que serve variações de frango com batata frita. Fica na esquina da praça central. Mata a fome.
- San Pedro é legal à noite, mas fica melhor com lanternas.
- Insalata versão San Pedro é uma salada com uma folha de alface, 1/32 de tomate e o,02% de pepino. Essa é a versão camponesa. Na próxima vez, vou pedir uma burguesa-industrial.
- Pisco, a bebida local, esquenta.
- Nunca pensei que um monte de sal junto sobre a terra fosse tão bonito. Com água, sem água, quiçá, quiçá, quiçá…
- Boiar sem esforço em uma lagoa de 18 metros de profundidade, a Cejar, é legal. Você se sente como um pedaço de carne na spa. Mas, alerta: a Laguna Cejar é o Boqueirão do deserto. Gente pra cacete.
- As escolas de samba se dividem por grupos: os jovens, os da periferia e os bolivianos.
- Os bolivianos são um capítulo a parte. Um pouco mais para cima e, muitos anos atrás, aquilo tudo era Bolívia _que até hoje tem uma guerra fria com o Chile em nome de uma saída para o mar. A isso soma-se que os bolivianos são vistos como mão de obra barata para os chilenos _que são, em sua maioria, descendentes de pessoas que nasceram naquele território quando ali era Bolívia.
- Rola uma Operação Belezura na periferia de San Pedros. Muros brancos, fachadas bem cuidadas, mas as casas usam tetos de papelão e zinco.
- Tem um campo de futebol sintético na cidade. É o único lugar em que o verde é verde mesmo.
- Sal corta o pé porque é pontudo. Sal também provoca turbulência no carro.
- A cidade usa um jornal-mural, espalhado pelos bares e pelas cooperativas, como a de energia elétrica.
- Os adolescentes franceses, em vez de gírias, usam palavras de trás para frente.
- A água vai e volta, sem avisar.
- Às 7h, a temperatura, no verão, é de cerca de 5 graus. Às 8h25, já passa dos 25 graus.
- Teve uma festa, no sábado, no estádio da cidade. O som foi até 3h, com reggaeton e dance music. Ouvimos tudo do albergue, distante uns 10 minutos de lenta caminhada.
- Toconao: 504 habitantes.
- E no meio do deserto tem um campo de futebol.
- Comi carne de cervo e de lhama. Recomendo.
- Nas lagoas altiplânicas, os peixes eram frequentes. Exercícios militares da tchurminha do barulho do Pinochet encheu a água com chumbo dos tiros. Os peixes acabaram.
- A “erva brava” verde, que nasce a grandes altitudes, ajuda a melhorar a respiração. É melhor que chá de coca.
- No restaurante onde comemos, em Socaire, há a “Virgem de Tirana”. A igreja foi destruída por um terremoto.
- Há 150 vulcões em atividade na região de San Pedro. Quatro estão em atividade. Tem terremoto todo dia.
- Um aviso: os geiseres del Tatio vão acabar. O governo do Chile está tentando transformar a atividade vulcânica em energia elétrica. Tentaram isso nos anos 60. Há um monte de tubo enfurrajado pelos geiseres.
- Rio Grande: 93 habitantes. Nessa cidade, no Carnaval, burrinhos e lhamas andam com as patas dianteiras amarradas, para não correrem.
- Sincretismo religioso, por exemplo, é louvar a Pachamama no pátio da paróquia durante o Carnaval.
- Ser turista é constrangedor. Você é tentado a tirar foto de tudo. Transforma gente em retrato. Até que alguém se irrita…
- A 1ª vez que os morados de San Pedro falaram conosco foi após tomarmos um banho de farinha na Pukara de Iquitor, no Carnaval. Sem querer, fomos parar em uma festa de carnaval em uma comunidade indígena. Todos estavam bem bêbados e cheios de farinha. Eles jogaram farinha na gente, deram vinho para bebermos, nos convidaram para virar a noite com eles, mas declinamos o convite porque precisávamos devolver as bicicletas. Ah, um detalhe: quando eles jogam a farinha, dizem “te conquisto” (é um referência, segundo eles, aos espanhóis…). Na volta, de bicicleta, todo mundo ria da gente. Mas conversava. Até o cara durão que emprestou a bicicleta. A viagem se dividiu entre antes e depois do banho de faria. Fomos conquistados pelos índios.
- Nas curvas e nos morros e nos defiladeiros há uma placa que alerta para o perigo de deslizamento: um carro é atingido por um chuva de meteoritos.
- Na quarta-feira de cinzas, as pessoas colocam o suco da uva verde no olho para chorar o fim do Carnaval.
- Rally do Dino: nosso guia pelo Salar de Tara, o melhor passeio de San Pedro, é um ex-navegador de rallys. Ele é italiano e sempre faz o caminho mais difícil. Costuma fazer uma aposta quando os turistas reclamam da refeição moderada servida a 45oo metros de altitude: se você comer algo pesado e não vomitar, eu te pago a cerveja. Se você vomitar, você me paga. Dizem que ele nunca perdeu essa aposta.
- Eu atesto. A essa altura, você passa mal e perde o ar só com o esforço da mastigação.
- Na volta, entre San Pedro e Calama, toca Alexandre Pires em espanhol.
- A aeromoça do voo Calama-Santiago se chama Carolina Pinochet.
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As notas sobre San Pedro ficam por aqui. Talvez algum disse dessa semana eu coloque o endereço do meu flickr, assim que descarregar as fotos.
Mas é provável que, antes disso, eu coloque neste blog um texto sobre “Slumdog – Quem Quer Ser um Milionário?”, o filme indiano que ganhou o Oscar.