The Pompéia Times

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Incursão ao mundo FAAP ou “tenho jeito de padre”

Junho 12, 2008 · 3 Comentários

Avenida Pacaembu, 10h, quarta-feira, 11 de junho. Uma moça veste calças coloridas, verão de 1969, Woodstock.
- Oi, você também estuda na FAAP?
O rosto dela não era o da Janis Joplin.
- Não, por quê?
Ela me chama para fora do ponto de ônibus. Alguns operários estavam sentados, talvez esperando o coletivo, conversando. Sujos, maltrapilhos, personagens de John Steinbeck em “Vinhas da Ira”.
- Esse ponto é muito perigoso. Você vai para a Paulista?
- Vou, preciso pegar outro ônibus lá para ir ao trabalho.
Olho ao redor. Adiante, o estádio do Pacaembu, escritórios de advocacia, polícia. O sol alto.
- Você faz o quê?
- Sou jornalista.
- Não a-cre-di-to!
Nem eu.
- Por quê?
- Eu faço publicidade na FAAP e estou odiando. Sempre quis ser jornalista. Vou trancar a matrícula e prestar Mackenzie.
- É mesmo?
- É, as meninas da FAAP são muito patricinhas. Se tem um bar que vende cerveja a dois reais e um que vende a mesma cerveja por quatro reais, elas vão no bar que vende por quatro reais. Vê se pode?!
- É um absurdo mesmo.
- No dia das mães, as meninas compraram presente na Daslu. Não tenho nada contra a Daslu, mas a Daslu é, assim, meio Daslu. As meninas da minha sala são legais, mas elas vão ficar assim também, comprando na Daslu no futuro. Todo mundo muda no quinto semestre.
Passa o ônibus, o Ana Rosa. Entramos juntos. Ela continua a discorrer sobre a diferença entre as meninas da turma dela e as das outras salas. 
- Me fala uma coisa, jornalista trabalha muito?
- Bem, depen…
Ela me interrompe mais uma vez.
- Estou preocupada em como vou falar para o meu pai que vou trancar a FAAP. Ele paga R$ 2,5 mil de faculdade. Mas ele tem que entender que é o meu futuro.
- É verdade.
- Você faz fotografia na faculdade?
- A gente tem uma aula.
- Você trabalhou em que jornais, revistas?
- Eu era repórter de política.
- Ah, não gosto de política. E foto? Você tinha de tirar foto? Saia muito para a rua?
Eu até tento responder, mas ela continua falando e fazendo perguntas, com planos para o futuro, até o momento em que nos separamos na frente do Conjunto Nacional.
- Tchau, vou pegar o ônibus para o Butantã.
- Por que não pega na Rebouças?
- É que eu não moro bem no Butantã.
- Onde é? Perto de Osasco?
Ela anda e vai embora. Eu tomo meu café ali, ao lado do banco, pensando: realmente, devo ter jeito de padre confessor.

***
Grand Finale

22h, Drogasil da rua Teodoro Sampaio, 11 de junho.
Compro o protetor solar, a moça me pergunta se tenho cartão Drogasil. Digo que sim, passo meu número. Sai uma nota fiscal imensa.
- Você tem 25 pontos.
Silêncio.
- Com 180 pontos, você ganha um CD do Leonardo.
Rimos, os dois envergonhados.

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Os felizem também agridem

Junho 5, 2008 · 3 Comentários

Dia desses, estava com um amigo vendo futebol em um bar com umas 10 TVs de plasma aqui em São Paulo. Não somos exatamente dois cavalheiros diante de 22 brutamontes correndo atrás de uma bola. Quatro garotas na mesa ao lado, contudo, despejaram mais palavrões por segundo do que qualquer um de nós sonhou fazer _em uma arquibancada, porque em bares a gente se controla. Elas batiam na mesa. Gritavam. Quase descabeladas. Não se pode dizer que eram feias nem bonitas. Estavam bem vestidas. Poderiam passear pelo Shopping Iguatemi.

Depois que o jogo passou, elas retomaram a compostura e foram embora. Antes que o caro leitor ou a cara leitora associe a brutalidade às emoções do futebol, compartilho o relato de uma amiga de redação, que foi ontem ao balé. Duas pessoas comentavam o balé em voz alta. Ela conta que a dupla se portava como um Galvão Bueno da dança. Ela pediu silêncio. Precisou falar três vezes. As pessoas não se tocaram de que ali, naquele momento, deviam desfrutar do silêncio. Ficaram bravas com a bronca.  Eu vivi algo parecido na Sala São Paulo. Um homem simplesmente roncou durante o espetáculo. Eu entendo o sono. Mas a cama dele deve ser muito mais confortável do que a cadeira da sala de espetáculos.

O caro leitor, a prezada leitora, pode dizer que tanto o balé quanto a sala de orquestra não são casos tão brutos quanto os xingamentos no bar. Eu digo que sim. Os três casos jogam na mesma categoria. Da mesma falta de categoria, na verdade. Falta educação, um mínimo de civilidade, de respeito ao espaço comum que já se tornou rotina nos cinemas, por exemplo, onde as pessoas se sentem à vontade para conversar ao celular ou colocar o pé na sua cabeça. Parece tudo normal. É a agressão banalizada, que atinge indistintamente todas as classes sociais, não apenas a classe média em ascensão. Experimente pegar um ônibus, o Lapa-Socorro, por exemplo, ou ver onde as pessoas estacionam os carros na rua Amauri, em frente à Enoteca Fasano.

Rimos bastante, mas a nossa alma é de gladiadores. São coisas compatíveis, na verdade. Roma tinha gladiadores, pão e circo. Nenhum povo se faz de feliz impunemente. A bomba sempre estoura, a pressão pelo gozo é pesada. Explodimos uns diantes dos outros.  Aos poucos, de maneira grotesta, como se Pasolini fizesse um filme B.  

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A semelhança entre Roraima e Buenos Aires

Maio 6, 2008 · Deixe um comentário

A reserva Raposa Serra do Sol. Quando eu era criança, índios e Peter Pan habitavam o mesmo planeta, a Terra do Nunca, onde viviam os ianomâmis, a Sininho, o Tio Patinhas, o Cebolinha e o Homem-Aranha.

Quando cresci um pouco, lá pelos 10, 11 anos, vi um “Globo Repórter” sobre índios da Amazônia. Logo depois chegou uma “Superinteressante” a relatar os índios gigantes, que pareciam jogadores da NBA e viviam no norte de Mato Grosso. Resolvi ler mais sobre índios. Ganhei um exemplar sobre as civilizações antigas. Achei os “maias” avançados, tentava imaginar como construíram os templos.

Quando vi uma família de índios, que vivem aos pés do Pico do Jaraguá, em São Paulo, tomei um susto. Era uma reserva sem muito charme. Lembro que uma das minhas tias dizia que sempre levava pães aos índios. Eu procurava as lavouras de subsistência e as tabas. Só achei gente vestida com farrapos.

A minha fase indígena logo passou. Voltou, brevemente, quando eu tinha pouco mais de 17 anos. Eram as comemorações sobre os 500 anos de descobrimento do Brasil. Eu lembro dos protestos dos índios transmitidos pela TV na Bahia e as professoras do colégio falando que, caso índios caíssem na redação do vestibular, seria de bom tom escrever que eles são os primeiros donos da terra do Brasil.

Roraima sempre foi uma incógnita. A gente sacaneia os norte-americanos por acharem que a capital do Brasil é Buenos Aires. Responda com honestidade: Boa Vista é a capital de Roraima ou Rondônia? Qual Estado era território até a Constituição de 1988? I 

Hoje, o Jornal da Globo me mostrou a briga ente índios e governo de um lado, arrozeiros e políticos de Roraima do outro, por um pedaço gigante de terra chamado reserva Raposa Serra do Sol. O William Waack fala que não existe conflito entre brasileiros e índios, que somos todos brasileiros. Daí mostra o índio moreno e desnutrido e o arrozeiro gordo, mas castigado pelo sol, imigrante da pobreza gaúcha de meados dos anos 70.

Eu tenho a impressão que eu e o William Waack sabemos o mesmo sobre índios. Especialmente sobre índios e Roraima. Mas eu não dou opinião, o que ainda me confere certa dignidade.

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Antropologia de botequim e uma generalização

Maio 3, 2008 · 1 Comentário

As três observações…

Jogar fandango para os peixes gordos do parque do Ibirapuera é um programa que costuma unir pais, filhos e modelos gaúchas (ainda desconhecidas) que (só) comem fandangos nos apartamentos minúsculos ao lado do parque. Olha como o peixe é fofo.

Andar de blusa no parque é bom. O parque também fica mais cheio quando o vento sopra gélido. As pessoas, ao que parece, se sentem mais confortáveis para fazer exercícios cobertas por panos. Elas não precisam sentir vergonha diante dos torsos esculpidos em academias.

O skate ainda é um esporte bastante popular debaixo da marquise do parque. A patinação também. Esses esportes não morreram com os anos 90. E estão cada vez mais coloridos. Quando eu era adolescente, os praticantes eram quase todos brancos. Hoje, a melhor patinadora do parque era negra. Um juízo de valor: isso é muito bom.

… e a generalização

As avenidas de São Paulo em dia de feriado são como artérias penetradas por um cateter. Quase parece que o sangue flui. Hoje eu me senti muito bem na cidade. Essa luz oblíqua, esse sol quente sem fervilhar as almas, o cheiro de férias dos protetotes solares, a certeza (ainda que frágil) que a pessoa a seu lado não vai sofrer um infarto. O coração fica mais generoso. Hoje eu poderia mandar flores. 

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Antropologia de botequim

Abril 11, 2008 · Deixe um comentário

Três notas ingênuas sobre os paulistanos.(Paulistano não é sinônimo de indivíduo. Indivíduo segue o mesmo princípio do átomo. A humanidade pode ser dividida em nações, países, estados, tribos, povos, vilarejos, comunidades, agrupados, times de futebol e mais uma infinidade de segmentos. Só o indivíduo – de “não-divisível” – não pode).

Dentro de um ônibus, de um trem, de qualquer lugar, sentar-se sempre no banco do corredor, deixando a cadeira da janela vazia.

Reclamar para dentro. Resmungar. E só explodir quando estiver bastante seguro de que o oponente não tem forças suficientes para reagir.

Andar com cuidado em espaços vazios, empurrar com brutalidade as pessoas ao seu lado em ambientes lotados. O princípio vale para ônibus, trens, festas, restaurantes e shoppings.

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