Entradas etiquetadas como ‘Caieiras’
Lá em Caieiras, na rua, eu tinha uma mania meio estúpida e pedante de clamar pela lei quando tinha uns 9, 10 anos. Meu pai-padrasto era advogado e, vez ou outra, em uma confusão no futebol, eu invocava a Constituição. Se alguém me chutasse a canela, eu espirrava os direitos civis. Coisa de nerd bancando o nacional-popular. Ganhei cinco pontos no supercílio e algumas cicatrizes no pé sem precisar de lei alguma. Deixei a poucas pessoas o legado da minha existência arredia. Talvez uma “paulistinha”, aquela joelhada na coxa que tira o sujeito de campo. Não mais do que isso. Pouco mais do que isso, não.
Porque o meu negócio mesmo era ler a enciclopédia Britannica e a Barsa, especialmente as versões científicas. Eu queria entender as leis do mundo natural. Certa vez, fiquei profundamente irritado porque ninguém em casa sabia a razão de o Sol ficar na Via Láctea. Para mim, há um senso urgente de justiça em cada canto do universo. Eu achava que outros seres também tinham um Sol para se bronzear no verão, e descobri que o universo era tão grande que poderia comportar outros sóis. Aquilo apaziguou meu coração.
Categorias: Caieiras · Sem-categoria
Etiquetado: Caieiras, constituição, justiça, memórias
Quando eu era adolescente, não perdia um programa eleitoral. Morava em Caieiras, não tinha horário político lá. Então via os de São Paulo e tentava descobrir o significado de cada sigla. PMDB, por exemplo. Era um mistério. Partido da Mobilização Democrática Brasileira? E o PDT? Era o Partido Dos Trabalhadores? Mas, se fosse esse o nome, por que o Partido dos Trabalhadores era o PT? E a gente lamentava a falta de candidatos bacanas em Caieiras. Ninguém prometia fura-fila, hospital moderno, nada. E eram dos mesmos partidos daqueles candidatos legais que pertenciam às siglas estranhas.
Em Caieiras, era só asfalto no Jardim Esperança, centro esportivo no Serpa, água no Pinheiros. Não tinha candidato ex-ministro, ninguém tinha combatido a ditadura militar, eram todos ex-professores do meu pai, vizinhos, médicos do posto de saúde, fora os apelidos: Baré do Posto, Dito do Açougue, Paulão do Depósito. Lembro dos comícios, todos improvisados em compensados de madeira.
Dai eu vi morar em São Paulo. Faz duas eleições municipais que estou aqui. E não pretendo transferir o título tão cedo. Não pelas opções eleitorais, nada disso. É porque, de alguma maneira, meu primeiro contato com essa palavra estranha chamada cidadania nasceu na cidadela. Estou em dúvida por lá. Um dos candidatos é médico da minha família, outro é pai de um aluno da minha mãe e o outro é meu amigo de bar. Tenho dificuldades para romper laços, confesso.
Categorias: São Paulo
Etiquetado: Caieiras, eleições 2008, PDT, PMDB, PT
Quando meu mundo se expandiu para além da Escola Estadual Dr. Nelson Manzanares, em Caieiras, meados da década de 90, cada item abaixo tinha acabado de entrar para a categoria “impossibilidades práticas” ou “mercadoria de museu”:
- Brasil fora da final de uma Copa do Mundo.
- Lula ausente de uma eleição presidencial.
- Fantasma da fome no mundo.
- Inflação.
Corremos rapidamente de volta para o futuro.
Categorias: humanidade
Etiquetado: Caieiras, Copa do Mundo, de volta para o futuro, eleições presidenciais, fome, Futebol, inflação, Lula
Ontem, no bar, relembrei com alguns amigos dos tempos de escola. Cada um trouxe à baila o que acontecera lá pelos idos dos 12 aos 14 anos. Em Caieiras, pessoas que apanhavam de pequenos ditadores, adolescentes humilhados, violência psicológica. Pessoas que usavam tacos de baseball na perna de outros por diversão, adolescentes que apanhavam na bunda só para serem aceitos por uma turma, um tirano que obrigou o rapaz que apanhara na bunda a colocar o pênis na boca de um desafeto bêbado durante a viagem de formatura.
Sobreviver sem ser vítima nem agressor não era fácil. Jogar basquete ajudava. Comprar a calma passando cola nas provas também. Manter uma indiferença forçada. Ser adolescente em Caieiras nos anos 90 era esperar todo dia ser engolfado por uma selva digna _e juvenil_de “Coração nas Trevas”, do Joseph Conrad. Ainda me admiro como passei (relativamente) incólume.
Essas pessoas hoje são médicas, engenheiras, advogadas. Eu sou jornalista. Sinto uma mistura de orgulho e alívio de não ter de conviver com eles. Mas o espírito do tempo continua ai. Mario Faustino escreveu, em outros tempos, ”tanta violência, mas tanta ternura”. Não sei onde está a ternura. O salve-se quem puder dos anos 90, a frustração acumulada, o individualismo possessivo é uma bomba em gestação. Espero que a gente consiga, de alguma maneira, desarmá-la antes. Isso não costuma acabar bem. Até porque tanta violência não era privilégio de Caieiras.
Categorias: Caieiras · educação · escola · humanidade · violência
Etiquetado: Caieiras, educação, escola, humanidade, violência