The Pompéia Times

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Eleições

Outubro 28, 2008 · 3 Comentários

Os dias andaram quentes. Dois projetos irreconciliáveis de dois partidos com profundas clivagens. O que descambou para baixaria e em violência. O candidato das elites foi amparado por uma máquina de marketing que não titubeou em gastar o que fosse necessário para alcançar o resultado planejado. 

No outro pólo, uma liderança fragilizada. Incerta sobre o discurso e sobre sua história, mas valente, altiva, com pinta de anti-herói. As glórias do passado, as realizações do presente, qual caminho? E como enfrentar a rejeição, provocada em grande parte pelas suas qualidades, pela sua coragem? Valeria a pena usar os métodos do adversário? As circunstâncias se apresentaram, e eles foram usados. 

“O homem que matou o facínora” é um filme de faroeste, do John Ford. É de um tempo em que existiam diferenças entre partidos e siglas, e essas diferenças transbordavam para o cinema, com algum personagem mais ambíguo no meio, como o John Wayne. Essa ambigüidade ajudava a lembrar que em política nem tudo é preto no branco, mas que existem diferenças e que as pessoas têm de se posicionar diante dessas diferenças. 

Que tipo de filme renderia a disputa entre Marta Suplicy e Kassab, com kassabinhos e perguntas “você é casado? Tem filhos?”? Ou entre Lacerda e Quintão, em Belo Horizonte? Ou mesmo entre Gabeira, o ex-petista apoiado por tucanos e petistas outsiders, como Leonardo Boff e Marina Silva, contra Eduardo Paes, o ex-tucano apoiado pelo baixo-clero-garotinho e os tradicionais partidos da boquinha do Rio, o PC do B e o PT, que só tem como horizonte um carguinho em alguma subprefeitura?

Talvez alguma comédia vespertina: “Pela primeira vez na televisão, dois políticos muito loucos fazem de tudo para conquistar a prefeitura de São Paulo. Vai ter muita confusão, aventura e diversão para a família!”

Não, obrigado. Não é questão de saudosismo. É que ser feito de trouxa, ao menos consciente disso, não está no meu projeto de vida. Por isso, voto nulo. Tenho o direito de dizer sim a qualquer um dos candidatos e a dizer não a todos eles quando quiser e enquanto a lei permitir. Pelo menos enquanto eles não fizerem, sequer, um filme que seja digno de passar na “Tela Quente”.  Porque a vulgaridade deixa a política tão empolgante quanto um filme do Renato Aragão. O que, convenhamos, não é bom nem para a política nem para o cinema…

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“Os Indomáveis”

Junho 9, 2008 · Deixe um comentário

Era sexta-feira à noite quando um ator cujo nome não me lembro prendeu Russell Crowe. Levou-o até sua casa, lhe deu comida (Crowe estava algemado) e lhe passou um sermão. Durante o trajeto até a estação de trem, para despachar o chefe de quadrilha, sobreviveu a ataques de índios, desviou dos tiros de pistoleiros, resistiu ao suborno oferecido pelo personagem de Crowe em “Os Indomáveis”, disponível em DVD. O mocinho é um paranóico que perdeu a perda durante a Guerra Civil Americana. Sua insistência é doentia. Você percebe claramente que ele não vai se dar bem. Ao mesmo tempo, nossa simpatia por Crowe cresce à medida que sabemos mais sobre ele.

O filme retrata um sujeito honesto e persistente como paranóico. Talvez seja verdade. Somos instados e postergar, procrastinar, atrasar, capitular para progredir, sobreviver, avançar, não sofrer, ter sucesso, vencer. A honestidade e a obstinação são os primeiros valores postos à mesa em uma negociação. Os relatos de alguns corruptos revelam pessoas que se acham corretas, mas apelam sempre a um bem maior para justificar seus atos. São indivíduos bem resolvidos com a sua consciência. O cinema absorveu esse argumento.

Em “O Poderoso Chefão”, filme da década de 70, por exemplo, Michael Corleone e Don Corleone têm noção dos seus crimes e se deixam consumir pela culpa (não me parece frugal que a personagem de Marlon Brando morra de um ataque do coração). Michael é um homem que se esfacela no filme. Eles esboçam um senso de sobrevivência quase primitivo, sem requinte: são crimes para preservar a família. Mas o filme continua mostrando crime como crime. O niilismo de Nietzsche, a apelação à falta de consciência galgou terreno em uma sociedade em que somos instados o tempo todo a ser criança, a não arcar com o peso das nossas decisões, a não ter responsabilidade individual. “Os Indomáveis” é uma versão western de alguns dos nossos dramas.

Por isso, sempre que alguém diz que tudo é relativo evocando “la famiglia” (sentido conotativo ou denotativo) ou algum político acusado de falcatrua é comparado ao “Poderoso Chefão”, a única coisa que eu penso é: camarada, menos.

Categorias: cinema · moral · violência
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Dizem por ai que somos estúpidos

Maio 28, 2008 · 2 Comentários

(O texto é um pouco longo, mas você, nerd amigo, vai encontrar motivo para se alegrar)

Alguns dos meus amigos costumam dizer que os imbecis tomaram conta do mundo, proposição bastante razoável para quem trabalha com comunicação e é bombardeado diariamente por releases obtusos, notícias bizarras e telefonemas inoportunos. Tanto que tivemos a idéia de criar uma consultoria de bom senso, para aconselhar as pessoas a não tomar decisões estúpidas.

Soube hoje que Mark Bauerlein, professor da Universidade de Emory, nos EUA, acha a mesma coisa. A sua conclusão é que a geração a qual pertenço, os sub-30, é formada pelas pessoas mais estúpidas de todos os tempos. Ele lançou o livro The Dumbest Generation” (“A geração mais estúpida”), cujo subtítulo é bastante óbvio sobre o conteúdo: “Como a era digital embasbaca os jovens americanos e põe em risco nosso futuro. Ou, nunca confie em ninguém com menos de 30″. A tese de Bauerlein é que a tecnologia faz jovens e adultos estudarem menos e provoca a perda de memória cultural, já que os indivíduos recebem tantas informações sobre o presente que vivem em um moto contínuo (é a mesma tese de Umberto Eco), sem nenhuma ligação com o passado.

Claro que o fato de os mais velhos olharem para os mais novos com desdém não é nenhuma novidade. À medida que o tempo passa, vemos o mundo em que crescemos ruir aos poucos. A melhor proteção é atacar a prole recente, e alguns até fizeram piada com isso. Os tropicalistas (Gil, Caetano, Betânia e Gal) formaram os “Doces Bárbaros”. O diretor Denys Arcand olhou para a sua geração, alguns criados em 68, e fez um filme chamado “Invasões Bárbaras”. O problema é que, desta vez, até quem faz parte dessa geração acha que os seus pares são estúpidos.

O escritor francês Martin Page lançou, em 2002, aos 27 anos, o livro “Como me tornei estúpido” (no Brasil, foi publicado em 2005).  Conta a história de Antoine, um jovem de 25 anos que tenta desesperadamente se tornar obtuso. Ele chega à conclusão de que só os imbecis são felizes. Seu livro foi um sucesso, traduzido para mais de 19 idiomas. Leiam, é interessante. Mas hoje, aqui em casa, cheguei à conclusão de que ele está errado.

A internet, a abundância de informações, apenas permitiu que mais imbecis se expressassem. Antes, eles existiam, mas não tinham blogs, orkut. O mercado financeiro merecia pouca cobertura. O jornalismo falava de menos assuntos. A TV chegava a poucos lugares. O que existe é a sensação de que há mais imbecis. Eles sempre existiram. Em Caieiras, por exemplo, alguns amigos costumavam fazer algumas apostas entre si: ver a aula de matemática só de cuecas, colocar bombas de cloro no banheiro da lanchonete, encher de água o estojo de caneta do amigo mais bobo (isso tudo, claro, homens acima de 16 anos).

Eu acho, na verdade, que a tecnologia fez bem às pessoas legais. Nerds tímidos, como eu e alguns dos meus melhores amigos, tem agora espaço para falar internet afora e publicar livros desancando os imbecis. Talvez, no futuro, abrir consultorias de bom senso e tirar dinheiro deles.

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A grande frase do reitor de Indiana Jones

Maio 27, 2008 · Deixe um comentário

Entre um filme de arte e Indiana Jones, fiquei com o arqueólogo do chicotinho nesta segunda-feira à noite. Quando Homem de Ferro estreou, algumas semanas atrás, fui ao cinema em uma sessão das 14h. Eu era a única pessoa na sala dentro do grupo com idade superior a 10 anos e inferior a 30 (os pais das crianças abaixo de 10 anos). Vibrei com os três filmes do Homem Aranha. Não resisti a nenhum X-Men (meu amigo Fernando Vives tem constrangedoras histórias sobre isso).

Eu gosto, particularmente, das frases que ficariam ridículas no papel. Na verdade, eu sou obcecado por frases quase-perfeitas, aquelas que não teriam sentido em outro lugar senão naquele livro ou naquele filme exatamente naquele ponto. No Indy 4, o reitor, amigo do arqueólogo, olha para um Harrison Ford envelhecido, prestes a ser demitido da universidade, mas ainda hábil nas fugas impossíveis, e diz, antes de a aventura começar (por mais estranho que pareça, porque o Indiana Jones, a essa altura, já sobrevivera a uma bomba atômica abrigado dentro de uma geladeira revestida por chumbo): “Chegamos à idade em que a vida pára de dar e começa a tirar”. É ou não é uma grande frase para estar em uma série cujo último episódio foi ao ar em 1989 e que tem um herói com quase 60 anos? Serve ou não para várias situações vida afora? Tão grande quanto a de Homem Aranha Um: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

Em um livro, soariam cafonas. À beira do mau gosto. Mas isso não é um livro. É um filme. É outro jeito de construir um mundo particular. Eu não gosto de ler livros de heróis porque heróis não foram feitos para serem lidos. Nasceram para viver em movimento, na tela grande. Da mesma maneira que não gosto de filmes que tentam copiar os bons livros, como os já clássicos iranianos e suas paisagens infinitas (imagine o dia em que um diretor brasileiro decidir gravar “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa? Serão as cinco horas mais insuportáveis da tela grande, mas o livro é muito bom). Os bons filmes de arte não tentam mimetizar a literatura. O negócio deles é forçar os limites de sua própria linguagem.

Indy 4 não é o melhor filme de herói que eu já vi. A mistura de índios, comunistas, Guerra Fria e alienígenas às vezes desanda (como o agente da KGB devorado por formigas gigantes). Ainda prefiro Homem Aranha Um. Mas entre ele e 2001, por exemplo, tendo a devotar mais interesses aos alienígenas de Indiana Jones 4. É a indústria cultural em estado de arte, não a indústria cultural fantasiada de pintor expressionista. Você tem tipos humanos estereotipados, mas mesmo assim guardam alguma relação com seres humanos. É um filme de poucas idéias e boas frases. Alguns sucessos do Espaço Unibanco também têm poucas idéias _ e imagens gravadas sem edição e frases sem conteúdo. O povo é inconfiável, ensinou Shakespeare em Julio César. Ao dar grandes bilheterias a Indiana Jones, contudo, acerta em cheio. Itaim Paulista 1, rua Augusta 0.

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Longe dela (texto refeito)

Maio 25, 2008 · 4 Comentários

(este texto foi bastante alterado em relação à versão publicada no domingo à noite, era fruto de um plantão. Se você leu o anterior, esqueça-o, por favor)

Você vai até a floricultura. Colhe a flor mais bonita. Caminha por um dia frio. Demora a chegar. Mas ela está de mãos dadas com outro homem. Não é culpa dela, mas os ciúmes escorrem do coração para cada canto do seu corpo. É incontrolável. Ela se esqueceu de você. Ela perdeu a memória. Ela é a personagem principal de “Longe dela”, filme que, enquanto este post era escrito, ainda estava em cartaz em São Paulo. Ela se chama Fiona e tem Alzheimer.

Fiona e Grant foram casados por 45 anos.  Formavam um casal satisfeito, não necessariamente feliz. Tinham uma vida sexual ativa após os 60 anos e chamavam os amigos para jantar. Não se deixavam atormentar pelos problemas do passado.  Aos poucos, ela vai perdendo pedaços da memória. Coloca a frigideira na geladeira, vai esquiar e não sabe voltar para casa, apaga a marca do vinho predileto. Até que decide viver em uma clínica. O marido resiste. Ela insiste. Quer poupá-lo da dor, porque ambos sabem que, um dia, não se sabe quando, ela vai se esquecer dele.

Depois dos 30 dias de isolamento obrigatórios de Fiona, Grant vai visitá-la. A mulher não o reconhece, ou faz que não, difícil dizer. Ela está de mãos dadas com outro paciente, mas seu rosto está esvaziado, sem expressão. Como naquela música de Arnaldo Antunes: “Socorro, não estou sentindo nada”. 

Quando Grant vê a cena, sua face também congela. O filme se torna uma batalha entre o amor de Grant e o (suposto) esquecimento de Fiona. Ele tem ciúmes. Mas do quê? De quem? O ciúme geralmente tem um objeto: a nova relação de uma pessoa querida. Mas quando o ciúme emerge sem objeto, já que Fiona simplesmente não sabia (ou fingia) que um dia amara Grant? O ciúme se torna uma grande planta morta na sala para a qual se olha com resignação. Dói, mas faz parte da paisagem. 

Grant descobriu um território novo, ao menos para mim. A nova terra, ainda sem nome, está entre a indiferença e a obsessão. 

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