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Quando eu era adolescente, não perdia um programa eleitoral. Morava em Caieiras, não tinha horário político lá. Então via os de São Paulo e tentava descobrir o significado de cada sigla. PMDB, por exemplo. Era um mistério. Partido da Mobilização Democrática Brasileira? E o PDT? Era o Partido Dos Trabalhadores? Mas, se fosse esse o nome, por que o Partido dos Trabalhadores era o PT? E a gente lamentava a falta de candidatos bacanas em Caieiras. Ninguém prometia fura-fila, hospital moderno, nada. E eram dos mesmos partidos daqueles candidatos legais que pertenciam às siglas estranhas.
Em Caieiras, era só asfalto no Jardim Esperança, centro esportivo no Serpa, água no Pinheiros. Não tinha candidato ex-ministro, ninguém tinha combatido a ditadura militar, eram todos ex-professores do meu pai, vizinhos, médicos do posto de saúde, fora os apelidos: Baré do Posto, Dito do Açougue, Paulão do Depósito. Lembro dos comícios, todos improvisados em compensados de madeira.
Dai eu vi morar em São Paulo. Faz duas eleições municipais que estou aqui. E não pretendo transferir o título tão cedo. Não pelas opções eleitorais, nada disso. É porque, de alguma maneira, meu primeiro contato com essa palavra estranha chamada cidadania nasceu na cidadela. Estou em dúvida por lá. Um dos candidatos é médico da minha família, outro é pai de um aluno da minha mãe e o outro é meu amigo de bar. Tenho dificuldades para romper laços, confesso.
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Há uma mercadoria em falta no mercado. É o bom senso. Como hoje acordei aborrecido com o mercado (deveria ter aplicado mais na bolsa antes de o Brasil atingir o grau de investimento), vou dar conselhos de graça no blog, caso a caso. A mercadoria rara vai ficar barata.
O primeiro aconselhado é Geraldo Alckmin.
Caro Geraldo, você quer ser presidente do Brasil. É direito seu. Mas como você vai recomeçar a corrida para o Planalto sem discurso para ser candidato a prefeito? Você vai fazer oposição ao seu próprio partido na disputa pela Prefeitura de São Paulo? Porque Gilberto Kassab é o prefeito tucano do DEM.
Seus dilemas não acabam ai, caro Geraldo. Se você conquistar a Prefeitura, será graças aos seus esforços, à confiança de São Paulo em você e ao Aécio Neves, que pode convencer o pessoal de Belo Horizonte a colocar dinheiro na sua campanha. Mas ai você vai ter de brigar com o Serra. Em 2010, se Aécio for candidato a presidente, Serra será à reeleição para governador. Você terá a chance de se reeleger prefeito em 2012, abandonar no meio e tentar um eventual governo do Estado em 2014, torcendo para o Kassab não aparecer como nome forte. Você fica refém do Aécio. Se o Serra for candidato a presidente em 2010, você pode tentar o governo paulista (se a turma do Serra, fortalecida, fizer uma grande concessão, caso você desencane da Prefeitura neste ano), perder o discurso de nunca largar as coisas no meio e se tornar refém do Serra. Nas duas situações, você até pode conseguir dar cargos para o seu grupo político, porque o Gabriel Chalita deve estar bem entediado tentando escrever mais um livro de auto-ajuda para tentar escrever uma obra para cada ano da própria vida. Mas esse grupo nunca terá vida própria. Será sempre apêndice de um grupo maior. Do Serra ou do Aécio.
É, Geraldo. É estranho. Mas até agora todas as hipóteses te aprisionam na capital paulista, ganhando ou perdendo a Prefeitura de São Paulo. Você está mais ou menos como o técnico do Palmeiras em 2007, o Caio Junior. Saiu do segundo escalão,disputou em um time de ponta e agora parece amarrado ao segundo escalão de novo.
Quer um conselho, Geraldo? Desencane de São Paulo, seja candidato a senador em 2010 (ou deputado mais votado) e reconstrua sua carreira via Brasília. Assuma o papel de líder conservador no Planalto Central. Batalhe um ministério de ponta no próximo governo federal (se não for petista), construa seu grupo político mais sólido. É melhor do que virar satélite do Serra e do Aécio. Essa briga não é sua. Você entra com o ônus e eles com o bônus.
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