The Pompéia Times

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2008, o ano que não acabou

Abril 15, 2008 · 4 Comentários

Eu pensei em fazer um “tempo real do Roda Viva”, lance a lance. O jornalista Zuenir Ventura foi o entrevistado. Ele falou sobre 1968. Ele é autor do livro “1968, o ano que não acabou”. Como em todo Roda Viva, os participantes se digladiaram para ver quem concordava mais um com o outro. Ia ficar muito chato o lance a lance. O Roda Viva sobre 1968 foi previsivelmente decepcionante.

Gostei muito de “Os Sonhadores”, do Bernardo Bertolucci, filme que se passa em 1968. Eu o assisti em 2005, no Top Cine da Paulista, noite de fevereiro, dia chuvoso. Tinha 22 anos. Gravei a trilha sonora. Não é um filme sobre 1968. É a geração de 1968 tentando encontrar em alguns jovens daquela geração, dois meninos e uma menina, a suposta origem das pessoas da minha geração. Os personagens são hedonistas, falsamente politizados (maoístas de boutique),a menina lasciva na verdade é virgem, um dos meninos é misógino, passam o dia inteiro dentro de casa. Em 2005, alguns de nós tentamos viver o 1968 de “Os Sonhadores”.

Claro que não foi possível. Porque 1968 não foi o ano que não acabou. 1968 foi o ano que não existiu. Acho que foi simplesmente o melhor ano da vida de muitas pessoas que depois se tornaram bastante influentes: jornalistas, cantores, atrizes. Ou alguém acha que a libertação sexual chegou em Pirituba durante 1968? O Roda Viva, onde o entrevistado viveu 1968 e alguns dos entrevistadores também, reforçou essa impressão. Um clube da saudade, um grande “Cartola Clube”, como o belo clube da terceira idade na esquina da Paulista com a Brigadeiro.

Eu poderia escrever um livro chamado “1996, o ano que não acabou”. Ou “2003, o ano que não acabou”. Ou “2007, o ano que não acabou”. A única coisa que 1968 nos deixou foi um clichê de libertação sexual, liberalização das drogas, rock, participação polícia. E, claro, nos legou a expectativa de um dia ter saudade de alguma coisa que não vivemos. Em 2005 mesmo, desisti de 1968. Meu tempo me interessa. O Bertolucci reconhece isso. Se ele fizesse “Os Sonhadores” tomando como base o clichê de 1968, o Roda Viva sobre  1968, o filme seria muito mais chato: meninos do interior assustados com a ditadura, alguns turistas em Paris, gente reclamando que não menino não podia dormir com menina no quarto, centro acadêmico como única opção de lazer.

2008 é muito melhor. Mas meus filhos não vão achar isso. Tomare.

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Bloguismo, a doença infantil do jornalismo – 1

Março 27, 2008 · 1 Comentário

Jorge Preá é o  motivo da minha felicidade noturna. Aos 40 e poucos do segundo tempo, quando o último gole desce impávido, gol do Palmeiras na Lusa. Olho para a TV. Comemoro. Muito.

Chego em casa. Faça um sanduíche. Tomo chá de erva-doce. Ligo o computador. Passeio pelos blogs. Encontro o Juca Kfouri com aquele carão vaidoso. Ele comenta o jogo. Nada demais. Uma alfinetada (justa) no Denilson acolá, o erro do juiz contra a Lusa (justa crítica) aqui, a possibilidade de dormir líder até o final de semana. Concordo com tudo que ele escreveu. Mas continuou achando Juca Kfouri um demagogo óbvio demais.

Vejamos.

O blog dele é um torpedo diário pela moralização do futebol. Justo. Detesto o Mustafá Contursi. O Dualib é um picareta. Juvenal Juvêncio dá cavalos aos jogadores. E o presidente do Santos é o Marcelo Teixeira. Pois é.

Mas Juca Kfouri sofre do bloguismo, a doença infantil do jornalismo, muito antes da invenção dos blogs. Ele criou uma marca: a moralização do futebol. Criou um produto. Juca Kfouri. Distribui esse produto por canais variados. Segundo ele mesmo, com estas palavras, no maior jornal do país (Folha de S.Paulo), na rádio mais influente (CBN – mas como se mede prestígio de 0 a 10?) e na única TV independente (ESPN – se alguém souber o que é ”independente”, favor dirigir-se ao guichê). A fama veio depois que ele dirigiu a Placar, revista que tinha à época tanta importância quanto um bom blog hoje. Ele ganhou a fama de ousado e alternativo.

E vive disso até hoje. Ele era blogueiro antes do nascimento da internet.

O primeiro post do seu blog antes do comentário sobre o jogo do Palmeiras é intitulado “Caia de boca no apito”. A primeira frase:  “Mais uma vez, em vez dos jogos em si, as arbitragens é que estarão no centro das discussões em São Paulo depois dos dois clássicos de ontem”.

Essa é a primeira fórmula Juca Kfouri. Revestir notícia velha com o verniz de polêmica nova.

Mais para baixo, um post sobre a CBF. E depois uma série de copiar-colar de textos do jornal, textos de amigos e recomendação para que as pessoas acessem o blog do filho dele.

O que Juca Kfouri diria se Mustafá Contursi mantivesse um blog só com textos alheios e elogios ao próprio filho? A segunda fórmula Juca Kfouri. Uma boa rede de contatos e elogios mútuos. A terceira fórmula Juca Kfouri: insistir no assunto que lhe deu fama, a CBF. Pode não ser um assunto tão importante assim. Mas se a pessoa escreve tanto sobre isso, e se não for maluca, talvez convença as outras pessoas de que aquele assunto tem alguma relevância. Ele acertou em cheio.

Todas essas características do Juca Kfouri já estão presentes, diluídas, no jornalismo: a notícia velha revestida de polêmica nova, os amigos dos amigos, a notícia como marketing.  Só que em um blog o sujeito se entrega. Porque não tem ninguém para dizer: “Meu caro, isso é demais”. O ego explode. 

Até Juca Kfouri ter um blog, as pequenas doses dos textos dele nos jornais não pareciam tão caricaturais. Os comentários eram mais contidos. Era mais difícíl enxergar o excesso de marquetagem. Como o sujeito tem de escrever todo o dia, o retorno dos internautas é imediato, é venerado por anônimos, o próximo passo é acordar de manhã e dizer: “Olá mundo!” E ficar chateado se o mundo não responde: “Olá Juca!”

Por isso eu digo: Vai que é sua, Juca Kfouri. Porque eu nã vou.

Observação: Esse é o primeiro de uma série de posts contra os blogueiros chatos. Vou copiar o Juca Kfouri. Terei uma idéia fixa.

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BBB é melhor do que o Roda Viva

Março 26, 2008 · Deixe um comentário

Vou ficar com saudades do Pedro Bial. Ele parecia realmente triste com o final do BBB8. Eu fiquei de verdade. Bial disse que tiveram de prorrogar a votação em um minuto _ele quase ficou feliz por ter ganho um minuto a mais no programa. Eu também fiquei feliz com um minuto a mais de votação. Porque só dava empate. Nos estertores do espetáculo, Rafinha, o emo, bateu Gyselle, a cajuína, e se sagrou campeão da oitava edição do Big Brother Brasil.

Eu já falei. Vou repetir. O BBB é o melhor programa da televisão aberta brasileira. No mesmo horário, o Observatório da Imprensa, capitaneado pelo Alberto Dines, organizava um debate sobre o Conselho de Comunicação Social da Câmara. É um formato curioso de debate. Todos concordam entre si. É um debate de concordâncias. A disputa é sobre quem é capaz de concordar mais com o outro.

Na TV Câmara, uma deputada do Amazonas, Vanessa Grazziotin (do democrático PC do B, que denúncia o imperialismo norte-americano no Tibete, embora seja a China que mate os monges), explicava o sistema elétrico brasileiro. Ela dizia que o nosso sistema é bom, esse com hidrelétricas. Mas que também é ruim: temos de usar gás. E óleo. Mas o nosso sistema é bom. E ao mesmo tempo é mais ou menos. Eu gosto de pessoas assim. Elas me lembram o rapazola que ganhou do computador em 2001, o filme: uma seqüência de pensamentos ilógicos para derrotar as forças do mal.

Fui tomar minha limonada noturna, voltei ao Bial. Agora as cenas são do Marcelo. Dedo em riste. Sem essa de churumelas. Dois minutos para explicar. O doutor não tem muita paciência com frufru. Ou a Natália. Ela diz que o certo é usar camisinha. Mas que o bom é sem camisinha. É mais lógico que a deputada. Natália poderia ser deputada.

Voltei até a cozinha em busca de um pedaço de chocolate. Uma pena, perdi o vencedor do Oscar BBB8 de melhor atriz. Pego meu jornal e lembro que ontem foi dia de Roda Viva. O nosso mais tradicional programa de debates. É um lugar bastante interessante.

Você lê as feras no jornal. Fulano é um nefelibata. Siclano é um apedeuta. Vamos inaugurar o festival do tartufo nativo. No Roda Viva eles se comportam. Com açúcar com afeto. As perguntas são gentis. Eles concordam com os nefelibatas, os apedeutas e os tartufos. O programa tem evoluído bastante. Se o horizonte é a concórdia, o Amit Goswami é o entrevistado. Ele debateu com físicos a força do pensamento positivo. Muito didático. Ele quase disse que podia movimentar objetos com o poder de sua mente. Eu tenho certeza de que ele não precisou hipnotizar os debatedores.

Se a roda está viva, talvez esteja só respirando por aparelhos.

Enquanto isso, no BBB8 o Marcelo assumia que era gay e em seguida declamava “passo por uma fase hétero diante da beleza da Gy”, o Negão reclamava de preconceito racial, a ´Thati dizia que já tinha beijado homem e mulher ao mesmo tempo. Isso é um debate complexo, não o Jornal da Globo. O apresentador organiza um debate, digamos, sobre gás boliviano. O primeiro diz sim, o segundo também e o terceiro…. tchan tchan tchan tchan… concorda com os dois primeiros.

No BBB, um ameaça sair do país se o outro ganhar o programa. Debate-se o valor de uma amizade sincera. Grandes alianças. Rafinha quase namorou Juliana. Mas a mandou para o paredão. Ele não sabia, mas reeditava o alemão Bismarck e a política de alianças européias do século 19. Você flerta com um e com o outro. Os dois são inimigos entre si. Você promete aos dois que vai lutar ao lado deles. E trai os dois com um terceiro, mais forte. No caso, o Marcão.

A superioridade do BBB não é apenas sobre os programas da Globo e da Cultura. Na Record, tem sempre o Paulo Henrique Amorim. Ele é muito legal. Ele fala que existe o colonismo. Os colunistas que escrevem sentados no colo do patrão. Engraçado. Eu quase acho que ele virou evangélico na Record. Posso estar enganado. Ele também. Ele fez uma denúncia contra o Lula nos anos 90. Perdeu na Justiça. Bajulava o Fernando Henrique Cardoso. Hoje, chama o ex-presidente de Farol de Alexandria. E o Lula de “captain, my captain”.

Isso não seria tolerado no Big Brother. Thalita rompeu rapidinho com o Marcelo. Foi ao paredão e saiu com grande dignidade. Sem grandes conciliações. Acordos. Ou jeitinhos.

Agora tudo isso acabou. Não tenho mais quem me faça companhia qualificada na TV. Quem vai ficar falando enquanto eu preparo meu jantar? Ou digito alguma coisa no computador? Ou limpo meus sapatos? Ou jogo fora o lixo?

E aquela espiadianha? Acabou. Sorte do Roda Viva e do Jornal da Globo. A competição estava ficando humilhante. Agora é esperar o ano que vem. Tchau, Bial. Nos vemos no BBB9.

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