Os imprevistos acabam com as grandes frases. Pois agora, depois de ver meu time perder por 5 a 2 para o Flamengo no Campeonato Brasileiro, até a máquina de felicidade instantânea me tirou uma casquinha. Coloquei dois reais no delivery de guloseimas do trabalho. O chocolate custa R$ 1,40. O aparelho grunhiu sons primitivos e me devolveu R$ 0,10 de troco.
Nesse caso não tem conversa, é no tapa, no chacoalhão, na base do empurra, com o espíritio de arrastão. Mas meu arrastão lembra o da Elis Regina, não o do Rio de Janeiro. Meus R$ 0,50 alimentaram aquela engrenagem de coincidências desagradáveis. Às vezes isso me acontece. São “aqueles momentos”. Lembrei de Marx: “Proletários do mundo, uni-vos”. Marx não conhecia a devastação que as máquinas de guloseimas provocam no ânimo de um homem. Nem o futebol. O que seria de Marx se tivesse conhecido o futebol? “O capital”, talvez, fosse mais bem escrito, ao gosto das multidões. “Benzedeiras do mundo, uni-vos”: este é o única mote que me intessa agora. Estou aqui, esperando seus talentos. Eu, sinceramente, acredito em quebranto.
Em 2005, de meados de agosto a meados de setembro, fiquei surdo, tive tersol, meu apartamento foi roubado e a editoria onde eu trabalhava no jornal foi fechada por falta de anunciantes e, logo, de papel também. Fugi de toda escada e gato preto. Se eu saísse de casa e o elevador demorasse além da conta, previa um dia daqueles. O ônibus também. O mau olhado estava em toda parte.
Mas tal como veio, passou a onda. E o Palmeiras conseguiu a vaga para a Libertadores contra o Fluminense no último jogo do Campeonato, em dezembro. Foi 3 a 2. O time saiu perdendo duas vezes. O Corrêa fez o gol da vitória. Que saudades do Corrêa. Ele foi o último jogador que acertou um cruzamento no Palestra Itália em dias de sol em jogos contra o Fluminense em tardes de domingo.