The Pompéia Times

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Benzedeiras do mundo, uni-vos

Novembro 16, 2008 · Deixe um comentário

Os imprevistos acabam com as grandes frases. Pois agora, depois de ver meu time perder por 5 a 2 para o Flamengo no Campeonato Brasileiro, até a máquina de felicidade instantânea me tirou uma casquinha. Coloquei dois reais no delivery de guloseimas do trabalho. O chocolate custa R$ 1,40. O aparelho grunhiu sons primitivos e me devolveu R$ 0,10 de troco.

Nesse caso não tem conversa, é no tapa, no chacoalhão, na base do empurra, com o espíritio de arrastão. Mas meu arrastão lembra o da Elis Regina, não o do Rio de Janeiro. Meus R$ 0,50 alimentaram aquela engrenagem de coincidências desagradáveis. Às vezes isso me acontece. São “aqueles momentos”. Lembrei de Marx: “Proletários do mundo, uni-vos”. Marx não conhecia a devastação que as máquinas de guloseimas provocam no ânimo de um homem. Nem o futebol. O que seria de Marx se tivesse conhecido o futebol? “O capital”, talvez, fosse mais bem escrito, ao gosto das multidões. “Benzedeiras do mundo, uni-vos”: este é o única mote que me intessa agora. Estou aqui, esperando seus talentos. Eu, sinceramente, acredito em quebranto.

Em 2005, de meados de agosto a meados de setembro, fiquei surdo, tive tersol, meu apartamento foi roubado e a editoria onde eu trabalhava no jornal foi fechada por falta de anunciantes e, logo, de papel também. Fugi de toda escada e gato preto. Se eu saísse de casa e o elevador demorasse além da conta, previa um dia daqueles. O ônibus também. O mau olhado estava em toda parte.

Mas tal como veio, passou a onda. E o Palmeiras conseguiu a vaga para a Libertadores contra o Fluminense no último jogo do Campeonato, em dezembro. Foi 3 a 2. O time saiu perdendo duas vezes. O Corrêa fez o gol da vitória.  Que saudades do Corrêa. Ele foi o último jogador que acertou um cruzamento no Palestra Itália em dias de sol em jogos contra o Fluminense em tardes de domingo.

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Agora eu entendo as moças

Setembro 14, 2008 · 3 Comentários

Eu estava de blusa verde. Porque eu precisava ir com alguma peça de roupa que lembrasse o Palmeiras neste domingo frio lá no Morumbi. Meu amigo Rodrigo, carioca, me chamou para ver Flamengo e São Paulo no maior e mais feio estádio da cidade. As colunas de concreto estão expostas sem pintura, parecem colocadas às pressas, como um puxadinho em que algo deu errado na construção e o corretivo saiu pior do que derrubar e levantar de novo.

Rodrigão é flamenguista e a gente atravessou a cidade, da Paulista para o Jardim Leonor em um ônibus, o Terminal Capelinha, em que só havia fãs do Rogério Ceni. Estava quente pelo excesso de gente e frio pelas janelas abertas para tirar o calor do excesso de gente. Demos uma baita volta em torno do estádio para encontrar a entrada de visitantes. Os vendedores de guloseimas passaram com a freqüência do cometa Halley, de 25 em 25 anos. Pelo menos escapamos do setor onde se joga urina nos adversários. 

Passei o tempo inteiro com o rádio de pilha no ouvido escutando Palmeiras e Cruzeiro. Ofendia o São Paulo em uma ou outra jogada e me calava nos cantos. Antes de tomar dois gols, a torcida rubro-negra até fez mais barulho do que a claque sãopaulina. Deu para ver que os assentos amarelos da arquibancada estão sujos, a rampa de saída do estádio está com o piso irregular, é uma sujeira danada em frente a esfiharia e que o São Paulo deixou ao menos umas 40 criancinhas vestidas de camiseta e shorts, naquele frio, naquela garoa, esperando o time por meia hora.

Deu para notar que não houve nenhum envolvimento emocional. Agora eu sei o que é levar alguém que não gosta de futebol ao estádio. Entendo melhor as moças. É chato mesmo perguntar quem é o camisa 41.

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Sandro Silva é meu vizinho

Julho 31, 2008 · 1 Comentário

Sandro Silva fez o gol do Palmeiras contra o Flamengo. Eu moro no sexto andar, ele, no 15º. Quando eu era pequeno, sempre quis morar perto de algum jogador de futebol que fosse ídolo no meu time. O Sandro Silva não é o Valdívia, mas marcou o tento da vitória.

Nessas horas me sinto como o Valentim, do filme argentino. Ele não é vesgo, o mundo é que está inclinado. Ele tem pai e mãe, conhece os dois, mas mora com a avó. Seu melhor amigo é o pianista judeu da esquina. Ele quer ser astronauta e anda com pesos no pé pela casa e usa um pijama como roupa espacial e tenta colocar válvula na TV e a avó vive reclamando que não tem dinheiro para fazer nada (ela está certa).

Sabe quando você anda pela rua e escuta uma trilha sonora que só você ouve? Este filme é assim, passa por esses momentos, você cantarola, eu cantarolei no prédio o hino do Palmeiras depois do gol do Sandro Silva, você olha ao lado e vê que tem alguma coisa boa, alguma brisa leve, soprando e aliviando a cabeça do peso dos momentos aborrecidos da existência. Às vezes a vida tem algumas coisas fantásticas.

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A Eurocopa tem a cara do Campeonato Brasileiro

Junho 17, 2008 · 7 Comentários

Seis seleções européias e seis times brasileiros têm tudo a ver. Nestes dias difíceis, futebol é o único assunto sobre o qual me atrevo a escrever.

Palmeiras é a Itália: italianos fundaram o Palestra Itália, e isso já seria o bastante. Mas, além disso, italianos gostam de uma fila (a Itália ficou sem ganhar uma Copa do Mundo entre 1938 e 1982 e depois entre 1982 e 2006), perdem em casa (Copa do Mundo de 1990), são caóticos e tem uma torcida que só admite um estilo de jogo (Palmeiras, Academia, Itália, retranca). Adoram ganhar do São Paulo da Europa, a França, mas acreditam que o verdadeiro rival é a Espanha _principalmente porque os dois países têm as duas ligas de futebol mais importantes do planeta. O Palmeiras ganhou um Mundial em 1951, contestado, e a Itália forçou a vitória nas duas Copas da década de 30 com métodos, digamos, pouco ortodoxos.

Corinthians é a Espanha: sua torcida apaixonada e fiel admira a raça em vez da técnica e idolatra jogadores que não fariam sucesso em nenhum outro lugar, como Herrera, Raul, Mirandinha e Guardiola. A Fúria vai aos trancos e barrancos, tem boas categorias de base, alterna campanhas excelentes com nulidades esportivas e sempre é desclassificada nos momentos decisivos. Como o Corinthians, pertence à Série B das seleções européias _mas, ao menos, a seleção já ganhou um campeonato continental, lá em 1964.

São Paulo é a França: os tricolores orgulham-se do seu cosmopolitismo, do biquinho e da baguete. O principal jogador da história recente do São Paulo foi ídolo do Paris Saint-German. Desde a aposentadoria de Zidane (ou a saída de Danilo), não têm um meia decente. Eram praticamente nada em termos futebolísticos até os anos 90, quando faturaram o Mundial. Têm um currículo vitorioso que inclui Eurocopas e Olimpíadas, mas nunca conseguem encher um estádio.

Santos é Portugal: tiveram sucesso na década de 90 e no anos 2000. Nunca caíram, e o time ainda pode dizer que, ao menos, ganhou dois mundiais _em uma época em que eles não significavam tanto assim. São times, geralmente, de um jogador só: Pelé, Eusébio, Robinho, Cristiano Ronaldo.

Flamengo é a Alemanha: donos das maiores torcidas (a Rússia não conta), são odiados por todos os rivais porque tentam anexá-los o tempo inteiro (o Flamengo tem quase metade da torcida do Rio) e ganharam muitos títulos. Nos últimos anos, amargaram derrotas vexatórias para times ridículos. O Flamengo perdeu a Copa do Brasil para o Santo André e a Alemanha conseguiu perder da Bulgária em 1994. Também adoram perder em casa. O Flamengo, para o América pela Libertadores. A Alemanha, pela Itália na Copa do Mundo.

Botafogo é a Holanda: odeia o Flamengo, joga bonito, mas sempre perde no final. É a associação mais fácil depois de Palmeiras e Itália.

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