O PT nasceu nos anos 80 em cima de uma base movediça e heterogênea formada por sindicalistas, egressos da luta armada, cristãos ligados à teologia da libertação e intelectuais marxistas não-ortodoxos, difusores do que se convencionou chamar “nova esquerda”: a favor da liberação sexual, pelos direitos de minorias como negros e índios. Essas pessoas tinham uma agenda comum. Democratização do País, ética na política, diminuição das desigualdades. A união de pessoas tão diferentes entre si com uma agenda tão ampla causou estranheza. E o partido recebeu toda sorte de ataques, à esquerda e à direita, dos mais diversos setores da sociedade, à medida em que os preceitos do PT ganhavam aceitação no Brasil sob a forma de votações crescentes em progressão geométrica.
Como esse aqui:
Em São Paulo, o adversário do PT, antes de tudo e de todos, era Paulo Maluf. Herdeiro de nomes como Jânio Quadros, Ademar de Barros, tecnocrata que virou político no esteio da ditadura militar, Maluf capitaneou uma classe média emergente, que prosperou nas bordas da cidade durante o regime dos generais, era o legítimo representante dos endinheirados paulistanos que casam as filhas na Igreja Nossa Senhora do Brasil e ainda respondia aos anseios dos pobres dos extremos da cidade com uma agenda baseada em ordem, autoridade, assistencialismo estatal.
Todos esses setores tinham horror à diminuição das desigualdades sociais, que associavam ao “comunismo ateu”. Aos pobres restava um certo conformismo: as coisas são como são, não adianta se rebelar porque nada vai mudar. Maluf soube ampliar o conceito de “comunismo ateu” à agenda da nova esquerda. Ele atingiu o ápice da carreira quando transformou o sentimento contra homossexuais, nordestinos e pobres em tema de campanha, sempre com enfoques diferentes em um desses aspectos ao longo dos anos. Foi isso, aliado às obras, que ajudou a sua carreira a sobreviver às sucessivas notícias sobre suas inusitadas maneiras de conviver com os cofres públicos. Seus ataques subterrâneos à então petista, nordestina e solteira Luiza Erundina fazem parte dos pântanos políticos, da escória da escória.
PT e Maluf eram inimigos íntimos. Mas já dizia Paulo Freire, cristão, intelectual, que trabalhou com sindicalistas e sem-terra, exilado durante o regime militar: o opressor mora dentro do oprimido. O PT engoliu Paulo Maluf nas eleições municipais de 2000. Uma vitória avassaladora, em dois turnos, maior do que o feito de Luiza Erundina contra o próprio Maluf em 1988. Engoliu e, passo a passo, eleição após eleição, passou a mimetizar cada vez mais publicamente o homem e o projeto ao qual se opunha. Inclusive na criação de inimigos comuns.
Maluf criticava a imprensa por ser liberal e “pró-gays, comunista”. O PT critica a mídia por ser conservadora. Quando estão fora do governo, Maluf se vale das notícias publicadas na imprensa para atacar seus adversários _ele minou Celso Pitta com artigos e estocadas de aliados pela mídia. Com a ajuda do Ministério Público, o PT transformou a imprensa em canhão dos seus ataques a Maluf e ao governo de Fernando Henrique Cardoso.
Quando se tornou governo, o PT deixou de ter um inimigo comum. Mas o partido precisava de um, como Maluf sempre se valeu da “ameaça petista” para consolidar suas posições na sociedade, como Fernando Henrique usou o PT para justificar cada votação perdida no Congresso diante de uma base aliada de interesses inconfessáveis e contraditórios.
Mas o inimigo do PT não podia ser um setor da sociedade, porque havia petistas pobres, da classe média, sem distinção de religião ou sexualidade. Lula ganhou a eleição de 2002 com o discurso de que governaria para todos os brasileiros, inclusive com o apoio de alguns tucanos, com a idéia de gestão de união nacional. Com o escândalo do mensalão, o inimigo passou a ser a imprensa, baseado em uma leitura retrospectiva da história, selecionando apenas acontecimentos nos quais a mídia prejudicou o PT, não quando a mídia ajudou o partido (e não foram poucas as vezes. Repórteres de um grande jornal paulistano choraram na redação, em 2002, de felicidade, quando Lula foi eleito).
O problema não são os fatos, é a publicação dos fatos. O PT se uniu no combate à mídia. O pior legado do mensalão é que ele aboliu a autocrítica entre os petistas. O partido não erra. No máximo, é a mídia que faz o partido errar. Está aí uma construção a ser estudada.
O caso clássico acontece nos escândalos de corrupção. Tal como Maluf, o PT se recusa a responder a qualquer acusação. Maluf dizia que a Justiça nunca o condenou e critica a imprensa pelas denúncias recebidas. O PT diz que são orquestrações da mídia e das elites conservadoras. Os petistas mais sinceros se justificam dizendo que o “desvio estratégico” de dinheiro dos cofres públicos se justifica porque banqueiro não financia partido de esquerda. Os malufistas menos hipócritas, aos amigos, justificam que as obras de Maluf compensam a remuneração extra a que ele se autorga.
No entanto, até agora, o petismo e o malufismo convergiam além do ismo apenas no método: agenda clara, inimigo comum, tergiversação quando confrontado, mas não no objeto, nas prioridades. O PT, grosso modo, tem uma agenda que privilegia mais programas sociais do que grandes obras viárias. Tem uma agenda, algumas vezes equivocada, mas dotada de preocupação original, sobre as diferenças de renda, de sexo, de cor da pele. A ênfase na imprensa ainda não chegou a uma defesa radical da censura, embora o partido flerte com alguns tipos de controle sobre os meios de comunicação, nunca levados a cabo. Maluf participou de governos que transformaram notícias em poemas de Camões.
A propaganda de Marta sobre Kassab, porém, dá um perigoso passo adiante na junção dos dois ismos. Pela primeira vez, o PT atacou, à maneira de Maluf, um “inimigo” clássico de Maluf. Pela primeira vez, método e objeto se fundiram em uma peça publicitária. As perguntas sobre a vida pessoal de Kassab lembram frases de Maluf na campanha eleitoral de 2000, na qual ele perguntava por que Suplicy desapareceu da campanha pela prefeitura em 1992, no meio da corrida na qual o hoje senador disputava a prefeitura com o próprio Maluf. Resvela para a afirmação indireta, reptícia, que afirma sem afirmar claramente. É aquela velha fórmula, usada por alguns veículos da imprensa mais que marrom. Pergunte para um fulano qualquer se ele é pedófilo. O sujeito vai negar. No outro dia, estampe: “Fulano nega ser pedófilo”. É o verídicto que se assevera pela negação.
Os erros cometidos contra o PT não justificam os erros praticados pelo PT. O preconceito sofrido por Marta Suplicy não lhe dá o direito de devolver parte desse preconceito. O partido é uma parte da sociedade brasileira, não a sua totalidade. Nem tudo que é bom para o PT é bom para os brasileiros. Mas o PT acha que é, nas sucessivas afirmações de seus dirigentes, por motivos esmiuçados pela ciência política e que me poupo de listar aqui. Essa revisão de métodos só me deixa uma certeza. Hoje o PT dá a Paulo Maluf uma vitória inequívoca. O PT deu a Maluf uma vitória ideológica nas eleições municipais de 2008.
Primeiro, abjurou da agenda socialista, depois da ética na política, depois dos métodos de fazer política e, hoje, passa para a autofagia: para manter o poder, ataca até a sua própria base política. Em alguns anos, não me surpreenderei se o PT fizer campanha contra intelectuais na política, contra cristãos progressistas e até contra operários. Após digerirem Maluf, os petistas se tornam cada vez mais malufistas.