Os dias andaram quentes. Dois projetos irreconciliáveis de dois partidos com profundas clivagens. O que descambou para baixaria e em violência. O candidato das elites foi amparado por uma máquina de marketing que não titubeou em gastar o que fosse necessário para alcançar o resultado planejado.
No outro pólo, uma liderança fragilizada. Incerta sobre o discurso e sobre sua história, mas valente, altiva, com pinta de anti-herói. As glórias do passado, as realizações do presente, qual caminho? E como enfrentar a rejeição, provocada em grande parte pelas suas qualidades, pela sua coragem? Valeria a pena usar os métodos do adversário? As circunstâncias se apresentaram, e eles foram usados.
“O homem que matou o facínora” é um filme de faroeste, do John Ford. É de um tempo em que existiam diferenças entre partidos e siglas, e essas diferenças transbordavam para o cinema, com algum personagem mais ambíguo no meio, como o John Wayne. Essa ambigüidade ajudava a lembrar que em política nem tudo é preto no branco, mas que existem diferenças e que as pessoas têm de se posicionar diante dessas diferenças.
Que tipo de filme renderia a disputa entre Marta Suplicy e Kassab, com kassabinhos e perguntas “você é casado? Tem filhos?”? Ou entre Lacerda e Quintão, em Belo Horizonte? Ou mesmo entre Gabeira, o ex-petista apoiado por tucanos e petistas outsiders, como Leonardo Boff e Marina Silva, contra Eduardo Paes, o ex-tucano apoiado pelo baixo-clero-garotinho e os tradicionais partidos da boquinha do Rio, o PC do B e o PT, que só tem como horizonte um carguinho em alguma subprefeitura?
Talvez alguma comédia vespertina: “Pela primeira vez na televisão, dois políticos muito loucos fazem de tudo para conquistar a prefeitura de São Paulo. Vai ter muita confusão, aventura e diversão para a família!”
Não, obrigado. Não é questão de saudosismo. É que ser feito de trouxa, ao menos consciente disso, não está no meu projeto de vida. Por isso, voto nulo. Tenho o direito de dizer sim a qualquer um dos candidatos e a dizer não a todos eles quando quiser e enquanto a lei permitir. Pelo menos enquanto eles não fizerem, sequer, um filme que seja digno de passar na “Tela Quente”. Porque a vulgaridade deixa a política tão empolgante quanto um filme do Renato Aragão. O que, convenhamos, não é bom nem para a política nem para o cinema…
O título deste post é homônimo do livro de Ernesto Sábato, mas o conteúdo guarda pouca semelhança. É mais pela imagem que estes dias de “ele é casado? tem filhos? o que mais o Kassab esconde?” evoca. A campanha de Marta Suplicy copia os trejeitos e a etiqueta que menos de um ano atrás foram utilizadas contra o padre Júlio Lancellotti. Na ocasião, o religioso entrou na Justiça contra um menor que o extorquira.
A história é muito mal contada, mas, até agora, nada ficou provado contra o padre. Apesar disso, alguns blogueiros e políticos que hoje defendem, com justiça, a privacidade do prefeito, aproveitaram a ocasião para insinuar que o sacerdote era pedófilo. Os petistas, e o próprio padre era identificado com o petismo, se apressaram a ablegar as acusações, em uma campanha feita por meio da mídia e pronunciamentos nas Casas Legislativas país adentro. Alguns desses petistas hoje aplaudem a estratégia martista de insinuar perguntas sobre a vida pessoal do prefeito. Justiça seja feita, alguns petistas, alguns políticos alheios ao PT e alguns blogueiros partilharam da mesma dignidade e não embarcaram nem nas maledicências contra o padre nem contra o prefeito _que, aliás, são desafetos.
As pessoas responsáveis pela campanha de Marta e os blogueiros e políticos que fizeram troça de Lancellotti são bem parecidos. Esses heróis do oportunismo primeiro agem, depois arrumam princípios para justificar seus atos. Merecem nosso desprezo e a nossa torcida: que a fraqueza de caráter logo se transforme em irrelevância pública.
O PT nasceu nos anos 80 em cima de uma base movediça e heterogênea formada por sindicalistas, egressos da luta armada, cristãos ligados à teologia da libertação e intelectuais marxistas não-ortodoxos, difusores do que se convencionou chamar “nova esquerda”: a favor da liberação sexual, pelos direitos de minorias como negros e índios. Essas pessoas tinham uma agenda comum. Democratização do País, ética na política, diminuição das desigualdades. A união de pessoas tão diferentes entre si com uma agenda tão ampla causou estranheza. E o partido recebeu toda sorte de ataques, à esquerda e à direita, dos mais diversos setores da sociedade, à medida em que os preceitos do PT ganhavam aceitação no Brasil sob a forma de votações crescentes em progressão geométrica.
Como esse aqui:
Em São Paulo, o adversário do PT, antes de tudo e de todos, era Paulo Maluf. Herdeiro de nomes como Jânio Quadros, Ademar de Barros, tecnocrata que virou político no esteio da ditadura militar, Maluf capitaneou uma classe média emergente, que prosperou nas bordas da cidade durante o regime dos generais, era o legítimo representante dos endinheirados paulistanos que casam as filhas na Igreja Nossa Senhora do Brasil e ainda respondia aos anseios dos pobres dos extremos da cidade com uma agenda baseada em ordem, autoridade, assistencialismo estatal.
Todos esses setores tinham horror à diminuição das desigualdades sociais, que associavam ao “comunismo ateu”. Aos pobres restava um certo conformismo: as coisas são como são, não adianta se rebelar porque nada vai mudar. Maluf soube ampliar o conceito de “comunismo ateu” à agenda da nova esquerda. Ele atingiu o ápice da carreira quando transformou o sentimento contra homossexuais, nordestinos e pobres em tema de campanha, sempre com enfoques diferentes em um desses aspectos ao longo dos anos. Foi isso, aliado às obras, que ajudou a sua carreira a sobreviver às sucessivas notícias sobre suas inusitadas maneiras de conviver com os cofres públicos. Seus ataques subterrâneos à então petista, nordestina e solteira Luiza Erundina fazem parte dos pântanos políticos, da escória da escória.
PT e Maluf eram inimigos íntimos. Mas já dizia Paulo Freire, cristão, intelectual, que trabalhou com sindicalistas e sem-terra, exilado durante o regime militar: o opressor mora dentro do oprimido. O PT engoliu Paulo Maluf nas eleições municipais de 2000. Uma vitória avassaladora, em dois turnos, maior do que o feito de Luiza Erundina contra o próprio Maluf em 1988. Engoliu e, passo a passo, eleição após eleição, passou a mimetizar cada vez mais publicamente o homem e o projeto ao qual se opunha. Inclusive na criação de inimigos comuns.
Maluf criticava a imprensa por ser liberal e “pró-gays, comunista”. O PT critica a mídia por ser conservadora. Quando estão fora do governo, Maluf se vale das notícias publicadas na imprensa para atacar seus adversários _ele minou Celso Pitta com artigos e estocadas de aliados pela mídia. Com a ajuda do Ministério Público, o PT transformou a imprensa em canhão dos seus ataques a Maluf e ao governo de Fernando Henrique Cardoso.
Quando se tornou governo, o PT deixou de ter um inimigo comum. Mas o partido precisava de um, como Maluf sempre se valeu da “ameaça petista” para consolidar suas posições na sociedade, como Fernando Henrique usou o PT para justificar cada votação perdida no Congresso diante de uma base aliada de interesses inconfessáveis e contraditórios.
Mas o inimigo do PT não podia ser um setor da sociedade, porque havia petistas pobres, da classe média, sem distinção de religião ou sexualidade. Lula ganhou a eleição de 2002 com o discurso de que governaria para todos os brasileiros, inclusive com o apoio de alguns tucanos, com a idéia de gestão de união nacional. Com o escândalo do mensalão, o inimigo passou a ser a imprensa, baseado em uma leitura retrospectiva da história, selecionando apenas acontecimentos nos quais a mídia prejudicou o PT, não quando a mídia ajudou o partido (e não foram poucas as vezes. Repórteres de um grande jornal paulistano choraram na redação, em 2002, de felicidade, quando Lula foi eleito).
O problema não são os fatos, é a publicação dos fatos. O PT se uniu no combate à mídia. O pior legado do mensalão é que ele aboliu a autocrítica entre os petistas. O partido não erra. No máximo, é a mídia que faz o partido errar. Está aí uma construção a ser estudada.
O caso clássico acontece nos escândalos de corrupção. Tal como Maluf, o PT se recusa a responder a qualquer acusação. Maluf dizia que a Justiça nunca o condenou e critica a imprensa pelas denúncias recebidas. O PT diz que são orquestrações da mídia e das elites conservadoras. Os petistas mais sinceros se justificam dizendo que o “desvio estratégico” de dinheiro dos cofres públicos se justifica porque banqueiro não financia partido de esquerda. Os malufistas menos hipócritas, aos amigos, justificam que as obras de Maluf compensam a remuneração extra a que ele se autorga.
No entanto, até agora, o petismo e o malufismo convergiam além do ismo apenas no método: agenda clara, inimigo comum, tergiversação quando confrontado, mas não no objeto, nas prioridades. O PT, grosso modo, tem uma agenda que privilegia mais programas sociais do que grandes obras viárias. Tem uma agenda, algumas vezes equivocada, mas dotada de preocupação original, sobre as diferenças de renda, de sexo, de cor da pele. A ênfase na imprensa ainda não chegou a uma defesa radical da censura, embora o partido flerte com alguns tipos de controle sobre os meios de comunicação, nunca levados a cabo. Maluf participou de governos que transformaram notícias em poemas de Camões.
A propaganda de Marta sobre Kassab, porém, dá um perigoso passo adiante na junção dos dois ismos. Pela primeira vez, o PT atacou, à maneira de Maluf, um “inimigo” clássico de Maluf. Pela primeira vez, método e objeto se fundiram em uma peça publicitária. As perguntas sobre a vida pessoal de Kassab lembram frases de Maluf na campanha eleitoral de 2000, na qual ele perguntava por que Suplicy desapareceu da campanha pela prefeitura em 1992, no meio da corrida na qual o hoje senador disputava a prefeitura com o próprio Maluf. Resvela para a afirmação indireta, reptícia, que afirma sem afirmar claramente. É aquela velha fórmula, usada por alguns veículos da imprensa mais que marrom. Pergunte para um fulano qualquer se ele é pedófilo. O sujeito vai negar. No outro dia, estampe: “Fulano nega ser pedófilo”. É o verídicto que se assevera pela negação.
Os erros cometidos contra o PT não justificam os erros praticados pelo PT. O preconceito sofrido por Marta Suplicy não lhe dá o direito de devolver parte desse preconceito. O partido é uma parte da sociedade brasileira, não a sua totalidade. Nem tudo que é bom para o PT é bom para os brasileiros. Mas o PT acha que é, nas sucessivas afirmações de seus dirigentes, por motivos esmiuçados pela ciência política e que me poupo de listar aqui. Essa revisão de métodos só me deixa uma certeza. Hoje o PT dá a Paulo Maluf uma vitória inequívoca. O PT deu a Maluf uma vitória ideológica nas eleições municipais de 2008.
Primeiro, abjurou da agenda socialista, depois da ética na política, depois dos métodos de fazer política e, hoje, passa para a autofagia: para manter o poder, ataca até a sua própria base política. Em alguns anos, não me surpreenderei se o PT fizer campanha contra intelectuais na política, contra cristãos progressistas e até contra operários. Após digerirem Maluf, os petistas se tornam cada vez mais malufistas.
como alguns de vocês sabem, trabalho no iG. Ultimamente, a rotina anda dura. Mas um dos motivos me dá bastante alegria. O portal está organizado o primeiro debate aberto da internet brasileira. Os candidatos à Prefeitura de São Paulo vão discutir a cidade com os internautas no dia 17 de julho, às 17h. Convido vossas excelências a fazer suas perguntas neste link. Basta gravar um vídeo de até 30 segundos. Sou parte interessada, ok, mas adianto: é histórico. Mais informações, aqui
"Parte daquilo em que acreditamos deve ser verdadeiro para que sejamos capazes de pensar, mas isso não significa que não poderíamos estar enganados sobre grande parte do que pensamos" (Thomas Nagel, em "Visões a partir de lugar nenhum", sobre os limites do ceticismo)