A “The Economist” publicou um texto sobre os “Obamacons”, os conservadores pró-Obama. Concordo com boa parte do teor do artigo. Ele aponta a convergência de Obama com várias alas do Partido Republicano, especialmente as que se recusam a aceitar que a melhor forma de alcançar a paz é aumentar o poder militar, em vez da boa diplomacia, e aquelas que acreditam que o Estado deve ter um papel mais modesto na economia (mr. Bush jogou o déficit lá para cima). São os sujeitos que nunca se sentiram muito à vontade nos anos Bush, mas não tinham uma opção democrata “confiável”.
Além disso, alguns deles acham, como eu, que Deus é importante demais para ser usado por políticos demagogos, como já adiantou Moisés nos dez mandamentos. Ou seja: são a favor da união civil de pessoas do mesmo sexo e acham que o aborto deve ser descriminalizado, por exemplo. O Estado não tem de se meter nesses assuntos. O melhor juiz é a consciência individual. Quanto menos o Estado se meter nas nossas escolhas, melhor. Porque certamente, nesse caso, não é a “moralidade” do Estado que está em jogo. São as pessoas que querem impor suas crenças por meio do Estado e blasfemam.
Basta ver o número de babetas da extrema-direita dos EUA que pintam uma imagem de Deus bem próxima da erguida pelos fundamentalistas muçulmanos: um juiz implacável no seu desejo de punir. Desculpe, não sei qual edição do Novo Testamento eles leram. Talvez a editada pelos mesmos imbecis que criaram os “Protocolos dos Sábios de Sião”, texto que acusava os judeus por todos os males do mundo (uma das republicanas que causam ojeriza nesses “obamacons” é Ann Coulter, que já afirmou, aqui, que os judeus devem ser aperfeiçoados e virar cristãos _uma imbecil de tendências antisemitas). Obama tem essa vantagem. Raça e etnia não fazem parte do discurso dele. É uma mudança e tanto em um país que tem parte da elite que se autodenomina wasp (white, anglo-saxan, protestant).
O artigo não faz essa inferência, mas as semelhanças entre Obama e Lula ficam ainda mais nítidas, no lado positivo. As diferenças também, mas sobre essas não me arrisco a dizer. Tempos de crise invertem tudo, e o que teve de gente defendendo a intervenção do Estado na economia… Enfim. O texto me firmou uma certeza: tanto Lula quanto Obama são sujeitos pragmáticos que parecem seguir a cartilha da democracia cristão italiana que, durante os anos 70, flertou com o Partido Comunista Italiano (nada a ver com o Eymael, do nosso PSDC). Acreditam que a família tem um papel importante na sociedade e são a favor da expansão dos direitos individuais, com ênfase nas soluções multilaterais para a manutenção da paz no planeta. Lembram o Aldo Moro. Saiba mais sobre o assunto aqui.
Ainda acho que as expectativas sobre Obama, que é pintado em tons de “Novo Messias”, são constrangedoras de tão ingênuas. Mas McCain, um republicano respeitável que comprometeu parte da sua biografia ao embarcar no trenó de Sarah Palin, deixou de ser uma opção, qualquer opção.
O texto da “The Economist” está aqui.