The Pompéia Times

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Por que me ufano do meu Socorrão

Dezembro 14, 2008 · Deixe um comentário

Andar de ônibus é coisa de pobre, e eu não poderia concordar mais. Ando de ônibus todos os dias e vejo pobres de todas as matizes na linha Lapa-Socorro, que me transporta de casa, na divisa exata entre os bairro das Perdizes/Pompéia e o da Lapa, para o trabalho, que fica na rua Amauri, no Itaim.

O vazio da experiência não chega a ser comovente. As pessoas são praticamente mudas. Quando falam, resumem-se a tergiversar sobre o tempo, o aperto ou a passar uma reprimenda em quem lhes pisa os pés. Os cobradores, desde a instalação do bilhete único, dedicam-se ou a dormir ou a ler os jornais. Não têm mais olheiras e estão muito mais inteirados sobre a crise mundial. Os motoristas têm metas a cumprir e… uau!… vocês têm de ver o que é descer a cardeal Arcoverde em um domingo pela manhã sem trânsito. É impossível ler quadrinhos. Várias pessoas me perguntam por que não troco os ônibus pelos carros, que também são coisas para pobres como eu.

O primeiro motivo é que dirigir é algo para pessoas que combinam muita inteligência com muita coordenação motora com muita coragem com muita confiança com muita disposição emocional. Basta ver como há motoristas no Brasil, nos EUA e na China, que são países grandes e confiantes e certos de seu destino no planeta. Não é o meu caso. Minhas habilidades não me credenciam à direção de um automóvel.  Sou tímido, antes de tudo. Carros não são símbolos fálicos.

O segundo motivo é que, às vezes, raramente, do nada surge alguma coisa. Como ontem pela manhã, um sábado nublado, delicioso de tão chuvoso em São Paulo. Frio como deve ser um sábado de plantão. Enquanto limpava os meus óculos, escuros, ascultei uma conversa entre duas mulheres que exaltavam as virtudes do casamento. A estabilidade, a limpeza da casa, os filhos, o marido dependente que não sabe nem fritar um bife. Mas a virtude só se revela no seu oposto, o vício. Caso contrário, é rotina. 

A mulher, que se orgulhava de ser a mais magra da família, lamentou a história de uma amiga, professora, que tinha deixado o marido não fazia nem 15 dias. Sempre segundo essa mulher, que desembarcou na Fradique Coutinho por volta de 8h10, um dia a amiga, professora, encontrou um ex-namorado. Conversa vai, conversa vem, tal e coisa e tal e coisa e o sujeito assevera:

- O casamento te fez mal. Você engordou.

A  mulher chegou em casa e perguntou ao marido se estava gorda. Devia ter contado mais detalhes, mas só revelou o que se passa: o marido disse que não, ela esbravejou que ele dissesse a verdade. Ele disse que gostava dela do mesmo jeito. A professora voltou para a casa da mãe com os dois filhos do casal. Mais, não sei. Eu me ufano do meu Socorrão. Pena que ele deixa as pessoas interessantes partirem ou não permite perguntas da platéia.

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Paraty-Trindade

Outubro 20, 2008 · 1 Comentário

Não, caro leitor, eu não converso com árvores nem bato palmas para o pôr-dos-sol. É ruim começar um post negando, mas como este texto leva o nome “Paraty-Trindade”, prefiro alertar os incautos. Sabe como é: ontem hippie, hoje dono de uma loja de pranchas, amanhã presidente da empresa do pai.

Portanto, vou discorrer sobre uma coisa que interessa tanto a você quanto ao cobrador da linha Socorro-Lapa. Este cobrador é contra o excesso de feriados no Brasil. Nacionalista, arrepie-se. Religioso, indigne-se. Sãopaulino, não vale soltar um “ui!”. Para o cobrador, apenas o dia dos pais e o dia das mães merecem ser feriados nacionais. Questionado, o cobrador disse: “próxima pergunta”. Ele aprendeu com o Ricardo Teixeira.

Solte um novelo de lã por sobre um montinho de areia. Depois, deixe seu gato brincar a vontade. É mais ou menos assim a estrada que liga Paraty a Trindade. Mas não pense que isso é motivo de medo para os intrépidos motoristas. Não, longe disso. Eles colocam Roberto Carlos no ouvido, Leandro e Leonardo no sistema interno de som e vão cantando “por isso corro demais, só para te ver meu bem”.

Eles aceleram na subida e na descida, na curva e na reta. Portanto, vou poupá-los de explicações. O vídeo abaixo é uma versão em desenho da viagem.

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“Test passenger” de ônibus

Outubro 9, 2008 · 1 Comentário

Este blog começa uma série intermitente de “test passenger” de ônibus. Porque pobre não faz test drive, sacou? 

Lapa-Socorro

O figurino laranja-barro que circula pelas ruas da capital vai bem em subidas. Na rua Teodoro Sampaio e no acesso à Avenida Afonso Bovero, ainda na região da Pompéia, essas incríveis máquinas da frota paulistana mostram toda a  sua capacidade em fornecer o melhor do conforto nestes verdadeiros desafios às leis de Newton (é incrível, mas sobe). Vão de 0 a 30 quilômetros por hora em incríveis 30 minutos. Um marco.

Os motoristas, mais conhecidos como “guias do Socorrão”, também têm habilidade nível cinco (em uma escala de zero a sete) em algumas curvas. Você sente poucos solavancos na montanha russa em forma de asfalto que é a Afonso Bovero, o que mostra um sistema de amortecedores ajustados às exigências de segurança do século 21.

O problema do Socorrão são as linhas retas. Como vocês sabem, o virtuoso detesta a facilidade _tanto o motorista quanto o fabricante do busão. Na Faria Lima, na descida da Pompéia e da Cardeal, os motoristas têm dificuldades para se conter diante do desafio. Correm, desbragadamente, especialmente por cima dos buracos. É impossível tomar um chá, ler um jornal, essas coisas que qualquer pessoa civilizada faria durante uma viagem urbana. 

O ônibus também não vai muito bem. Os parafusos insistem em cair das barras verticais e horizontais, provocando cortes ocasionais nos passageiros. Não é caso de recall, porque ônibus é transporte para macho e macho não faz recall. Uma passadinha na oficina está de bom tamanho. Só para ver se os parafusos de outras partes do ônibus, como o eixo, estão mais bem parafusados do que os dispostos para decorar o espaço interno.

Por essas e outras, vou destilar o meu veneno. Meu caro Socorrão, para você, só tiro meu bonezinho. Faltam lealdade, humildade e procedimento para que se torne, enfim, uma grande linha.

 

Terminal Pirituba – Itaim Bibi

Estamos diante de uma linha rara na capital paulista. Verde, bem ajambrada, vigoroso espaço interno. Desde os confins de Pirituba, desafiando as tribos hostis da Vila Zatt, Vila Clarice, Leopoldina e até uma parte de Osasco, na Vila dos Remédios, os bravos condutores desta megalopopéia urbana têm à altura dos seus braços um aparelho que guarda mais afinidades com um moderno “London – Manchester” ou “New York-New Jersey” do que de um “Jardim Pery Alto” ou “Terminal Capelinha” da vida. 

Os ônibus contam com amortecedores delicados e igualitários. Não fazem distinção entre um morro da Vila Madalena ou da Vila Bonilha. Superam ambos com a mesma dignidade. Nas linhas retas e curvas, prezam pela graciosidade. Atravessar pontes sobre a marginal Tietê se transforma em uma experiência inigualável. Você olha para fora, vê aqueles motoristas em seus carros, todos com os rostos retorcidos pela exaustão, enquanto você está lá, dentro do seu ônibus, com o seu próprio banco de plástico duro, que deixa suas carnes rijas, seu próprio corredor com pedaços de chiclete colados no chão, seu próprio botão para pedir para o motorista parar, suas próprias crianças gritando e sorrindo, caminhando e cantando e seguindo a canção.

Claro, há problemas. Os aparelhos de televisão se resumem a reproduzir vídeos do You Tube. Para onde vai o dinheiro dos nossos impostos? Quero ter a RAI, a BBC, a CNN em espanhol dentro da bumba. Este, creio, é um problema passageiro. Falta uma máquina de chá também.  

Porém, essas falhas no serviço de bordo não podem prejudicar uma avaliação mais global. Com guias de alto nível, Terminal Pirituba – Itaim Bibi ganha uma salva de palmas e uma caixa com todos os livros narrados pelo Cid Moreira. Alvíssaras!

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