Andar de ônibus é coisa de pobre, e eu não poderia concordar mais. Ando de ônibus todos os dias e vejo pobres de todas as matizes na linha Lapa-Socorro, que me transporta de casa, na divisa exata entre os bairro das Perdizes/Pompéia e o da Lapa, para o trabalho, que fica na rua Amauri, no Itaim.
O vazio da experiência não chega a ser comovente. As pessoas são praticamente mudas. Quando falam, resumem-se a tergiversar sobre o tempo, o aperto ou a passar uma reprimenda em quem lhes pisa os pés. Os cobradores, desde a instalação do bilhete único, dedicam-se ou a dormir ou a ler os jornais. Não têm mais olheiras e estão muito mais inteirados sobre a crise mundial. Os motoristas têm metas a cumprir e… uau!… vocês têm de ver o que é descer a cardeal Arcoverde em um domingo pela manhã sem trânsito. É impossível ler quadrinhos. Várias pessoas me perguntam por que não troco os ônibus pelos carros, que também são coisas para pobres como eu.
O primeiro motivo é que dirigir é algo para pessoas que combinam muita inteligência com muita coordenação motora com muita coragem com muita confiança com muita disposição emocional. Basta ver como há motoristas no Brasil, nos EUA e na China, que são países grandes e confiantes e certos de seu destino no planeta. Não é o meu caso. Minhas habilidades não me credenciam à direção de um automóvel. Sou tímido, antes de tudo. Carros não são símbolos fálicos.
O segundo motivo é que, às vezes, raramente, do nada surge alguma coisa. Como ontem pela manhã, um sábado nublado, delicioso de tão chuvoso em São Paulo. Frio como deve ser um sábado de plantão. Enquanto limpava os meus óculos, escuros, ascultei uma conversa entre duas mulheres que exaltavam as virtudes do casamento. A estabilidade, a limpeza da casa, os filhos, o marido dependente que não sabe nem fritar um bife. Mas a virtude só se revela no seu oposto, o vício. Caso contrário, é rotina.
A mulher, que se orgulhava de ser a mais magra da família, lamentou a história de uma amiga, professora, que tinha deixado o marido não fazia nem 15 dias. Sempre segundo essa mulher, que desembarcou na Fradique Coutinho por volta de 8h10, um dia a amiga, professora, encontrou um ex-namorado. Conversa vai, conversa vem, tal e coisa e tal e coisa e o sujeito assevera:
- O casamento te fez mal. Você engordou.
A mulher chegou em casa e perguntou ao marido se estava gorda. Devia ter contado mais detalhes, mas só revelou o que se passa: o marido disse que não, ela esbravejou que ele dissesse a verdade. Ele disse que gostava dela do mesmo jeito. A professora voltou para a casa da mãe com os dois filhos do casal. Mais, não sei. Eu me ufano do meu Socorrão. Pena que ele deixa as pessoas interessantes partirem ou não permite perguntas da platéia.